Francisco Michielin
Eu nasci, em Caxias do Sul, há duas quadras do campo do Juventude, romanticamente chamado de “Quinta dos Pinheiros”. E por ali morei durante quase duas décadas. Se havia alguma coisa que atraía a nós, pequenos meninotes, era dar uma escapulida até o antigo e saudoso estádio. Descíamos a primeira quadra, da Bento Gonçalves, esquina com a Alfredo Chaves, percorrendo a calçada de chão batido. E, depois, as ruas terminavam nas irregularidades primitivas da Vinte de Setembro. A partir desse ponto, uma descida através da vegetação rasteira, espetados por carrapichos e, literalmente, chutando as capoeiras. E, então, enfim, o grande obstáculo a ser enfrentado: a desafiante travessia pelo bucólico riozinho “Tega”, unicamente acessível por um improvisado pontilhão arredondado que nada mais era do que um tronco de pinheiro descascado e muito liso e por isso facilmente escorregadio. Seguidamente, corria-se o risco de cair em suas rasas e mansas águas e muitas vezes se caía mesmo, quando não, um moleque empurrava, de propósito, o outro...
A seguir, as tábuas de madeira que cercavam a entrada da “Quinta” e nas quais, quando o dinheiro da mesada encurtava, dávamos um jeito para encontrar brechas que nos ajudassem a espiar o andamento das partidas. Entretanto, quase sempre contávamos com a benevolência dos austeros senhores que controlavam o portão principal e nos deixavam passar gratuitamente.
Aos domingos à tarde, essa era a nossa mágica alegria. Não poderia haver nada melhor neste mundo do que ver o Juventude jogar. Pouco depois do almoço, já circulavam por aquelas ruas vazias e quase sem trânsito, alguns automóveis grandões e lustrosos, enfeitando nosso pequeno rincão de Deus. E descia uma multidão de pessoas, sorridentes, cheias de contentamentos, como se toda a cidade tivesse marcado encontro perto de nossas casas. Era uma grandiosa festa que nos tornava importantes e que nos enchia de crenças e fervores pelo Amado JU, fazendo com que nossos corações se sentissem tão felizes por pulsarem suas palpitações dentro do orgulhoso peito v
