Hiltor Mombach

Os Jogos do Rio e o alarmismo mundial

Antes da abertura dos Jogos do Rio escrevi uma coluna aqui mesmo que abria assim:
A Polícia Federal prendeu nesta semana um grupo que preparava atos de terrorismo no Brasil em uma operação deflagrada a 15 dias da abertura da Olimpíada do Rio de Janeiro. Quando há uma competição importante em qualquer lugar do mundo, há sempre ameaça. Cobri seis Copas e seis Olimpíadas, vários Pan-Americanos e cobria a Copa América quando a competição valia alguma coisa. Vai algum tempo escrevi sobre o assunto, sempre atual quando se aproxima um evento da magnitude de uma Olimpíada. Reproduzo.
O pior terrorismo é o terrorismo do noticiário.
Agora a revista New York Magazine traz artigo assinado por Alex Quadros. O jornalista afirma que as previsões catastróficas da imprensa mundial sobre a Olimpíada do Rio falharam: “Agora que os Jogos começaram, essa histeria parece inapropriada. Isso teria sido suficientemente claro para qualquer um que simplesmente caminhasse ao redor da cidade”.
Repito: sofremos da síndrome do coitadismo. A primeira semana dos Jogos apresentou problemas, é verdade. Problemas comuns em quase todas as grandes competições internacionais. Não esquecerei, por exemplo, a Olimpíada de Atlanta. Nos Jogos de Atlanta o terror ameaçou e atacou. Uma bomba explodiu no dia 27 de julho de 1996 no Centennial Park, o parque temático da Coca-Cola, ferindo cerca de 150 pessoas e matando duas. Eu havia previsto o ato terrorista aqui mesmo, no Correio do Povo, três dias antes. Todos os dias eu passava pelo Centennial Park para chegar até o Centro de Imprensa. Ali se aglomeravam milhares de pessoas sem serem revistadas. Na noite da explosão eu estava hospitalizado.
Escrevi aqui mesmo do meu orgulho pela estupenda cerimônia de abertura. Recebi e-mails de leitores comovidos, como eu. Mas também de pessoas afirmando que a festa mascarou os problemas do país. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Temos imensa dificuldade em elogiar. Volto a dizer: o brasileiro sofre da síndrome do coitadismo. Aqui, nada pode dar certo. Ficamos com vergonha de errar antes mesmo de errar.
Há, também, o preconceito. Viajei para cobrir a Copa do Mundo da África do Sul prevendo muitos problemas. Voltei encantado. Tivemos problemas sim, como de deslocamento. Mas nada que afetasse a competição como um todo. Coincidência ou não, foram nos Jogos de Atlanta, realizados num dos países mais ricos do mundo, que mais coisas deram errado ao mesmo tempo.
Até a IBM, encarregada de difundir dados via computador, simplesmente deixou de fazê-lo num domingo. A partida de beisebol entre os EUA e Nicarágua começou com mais de uma hora de atraso porque os organizadores esqueceram de pegar de ônibus os nicaraguenses na Vila Olímpica. Atlanta foi ouro no quesito desorganização.
Sem falar no fator político. Lula trabalhou para que os Jogos fossem no Brasil. Reconhecer o sucesso da Olimpíada do Rio seria fortalecer o PT.