Para ler e refletir
A pouca importância dada ao nosso Memorial que recebeu o nome do ex-presidente Hermínio Bittencourt não é exclusividade desta gestão, mas de inúmeras gestões que a antecederam.
Os parcos recursos destinados a nossa memória eram miraculosamente controlados pela dona Ema, pessoa que prestou serviços ao clube, gratuitamente, por 27 anos.
A falta de recursos materiais e humano nunca tirou o sorriso e a cordialidade dessa senhora ao atender o torcedor gremista. Mesmo sem espaço físico, em virtude dos milhares de troféus conquistados ao longo dos gloriosos 107 anos de existência, dona Ema fazia verdadeiro milagre para manter o espaço da memória gremista, bonito e organizado, da melhor maneira possível.
Se não bastasse o golpe de ter na Arena da OAS o espaço destinado ao nosso Memorial reduzido em 25%, dona Ema entristeceu-se com a forma em que trataram o seu nome na composição das chapas de renovação ao Conselho Deliberativo.
Na chapa Da-lhe Grêmio, dona Ema ficou na posição 54, na chapa 1 ficou na posição 104 e na chapa Terceira Via, nem figurou. Sendo assim, sentindo o desprestígio, solicitou a retirada de seu nome das duas nominatas.
Na sexta-feira, dia 10 de setembro, foi o último dia de trabalho de dona Ema no Memorial Hermínio Bittencourt, afastando-se depois de 27 anos de amor ao clube.
O Grêmio que conquistou seu último título nacional há quase 10 anos, vem há muito tempo apequenando-se e deixando suas origens de lado. A troca do futebol de raça pelo futebol arte e a ausência dos campos futebolísticos mundiais, deixando de apresentar o mais genuíno futebol gaúcho para o planeta, não são mais importantes.
Lembro que no ano de 1984 o Grêmio foi convidado a participar do 30º aniversário da insurreição da Argélia, fato que livrou o país do domínio francês. Naquela ocasião, mais de 50 mil pessoas assistiram o Grêmio colocar “água no choppe” do povo africano com 1x0 frente a seleção argelina, gol de Tarciso.
Nunca mais o clube participou de torneios como Eindhoven, Copa Philips,Ramon de Carranza, Copa Rotterdam, Palma de Mallorca. Atualmente, restringimos nosso campo de atuação aos grandes amistosos em Gramado, Canela e Florianópolis (nada contra estas belas cidades).
Mas o Grêmio é muito mais do que isso, o Grêmio precisa voltar a crescer, a objetivar conquistas correspondentes ao seu tamanho: O maior clube do Brasil, o primeiro clube ranqueado no país do futebol. Mas se não temos passado, se não somos orgulhosos de nossas conquistas, não podemos vislumbrar um futuro glorioso.
O trabalho desenvolvido pela dona Ema sempre foi respeitado pelos historiadores e pesquisadores de futebol, mas imaginava que a instituição pudesse prestar esta homenagem a quem muito colaborou com a manutenção de suas lembranças. O reconhecimento de um trabalho deve ser feito em vida.
Dona Ema merece muito mais atenção por parte de todos os gremistas.
Espero que o clube dê a devida atenção para que dona Ema possa retornar ao nosso convívio.
Fábio Mundstock
Sócio e historiador dos 107 do Grêmio F.B.P.A.
