Hiltor Mombach

Para o investidor, vale a pena o caminho da SAF no Brasil?

Especialista em investimentos avalia se para os investidores, comprar um clube como Inter ou Grêmio é um bom negócio

Valor do Inter passa de R$ 1,5 bilhão
Valor do Inter passa de R$ 1,5 bilhão Foto : Pedro Piegas

Carlos Corrêa / Interino

A SAF virou um dos temas do momento no futebol brasileiro. Enquanto muitos torcedores veem como a salvação da lavoura, outros têm urticária só de pensar em imaginar seu clube com um ou vários donos. Muito tem se falado do ponto de vista dos clubes. Mas e o outro lado, o investidor? Diante dessa dúvida, procurei um especialista no tema. Conversei com Guilherme Jung, economista chefe da Alta Vista Investimentos, para tentar entender a questão sob outro ângulo. A seguir, alguns temas do bate-papo.

POR QUE INVESTIR EM UM CLUBE DE FUTEBOL?

Jung lembra uma regra básica do investimento: quem compra, ou compra na baixa para vender na alta ou então para perpetuar esse bom momento e lucrar com ele. Em geral, o comprador espera duas coisas: lucro e segurança. As dívidas pesadas dos clubes brasileiros, neste sentido, representariam um risco. Ainda mais que os dirigentes que adotam o modelo, em geral estão pensando na receita o quanto antes para investir no futebol e conquistar títulos no curto prazo. “Isso pode ser algo conflitante no início de uma SAF aqui no Brasil”, pondera Jung.

PARA O INVESTIDOR, TÍTULOS SÃO IMPRESCINDÍVEIS?

De forma sucinta? Não. Mas a coisa é um tanto quanto mais complexa. Jung cita um exemplo. Digamos que dois clubes disputem as mesmas competições na temporada: Copa do Brasil, Brasileirão e Libertadores. O time A vai mal nas duas primeiras, mas é campeão da Libertadores. O time B não levanta nenhuma taça, mas briga pelo título até o fim em todas. Mesmo sem a faixa no peito, o time B assegurou casa cheia, exposição da marca e dos seus jogadores a temporada toda, além das premiações por ter chegado às fases finais.

Ou seja, em termos de retorno financeiro, teve uma boa temporada. No entanto, é claro que títulos garantem competições mais importantes e rentáveis e uma grande exposição da marca, além de entusiasmar a torcida, algo importantíssimo. De mais a mais, há modelos e modelos de SAF. O Bragantino, por exemplo, parece muito mais voltado à valorização da marca Red Bull e à venda de jogadores do que títulos.

Fidelidade dos torcedores é um ponto positivo a favor dos clubes | Foto: Lucas Uebel / Grêmio / CP

DO PONTO DE VISTA DO INVESTIDOR, VALE INVESTIR EM UM CLUBE COMO INTER OU GRÊMIO?

Como em quase tudo na vida, há prós e contras. Jung cita a fidelidade e o engajamento das torcidas como um ponto positivo: consomem muito e representam quadros sociais polpudos. Por outro lado, as dívidas na casa dos seis dígitos (e bem lá em cima nesses seis dígitos) significam um risco que não pode ser desconsiderado.

Além do mais, é preciso lidar com o sentimento do torcedor de ganhar títulos o quanto antes, sendo que, do ponto de vista do investimento, os primeiros anos tendem a ser muito mais voltados para a reestruturação e geração de novas receitas do que exatamente para colocar faixas no peito. Mas há um fato que faz diferença: as possibilidades no horizonte. Há a perspectiva de criação de uma Liga no país, a venda dos direitos para novas plataformas envolve valores altos e ainda está recém no começo.

Neste contexto, com a maioria dos clubes endividados e marcas muito valorizadas na parada, pode ser um bom momento para o investidor fazer esse movimento. “Se o futebol brasileiro organizar um pouco que seja, a receita vai ser melhor para todo mundo e pode ter um retorno positivo no médio prazo”, afirma Jung.

QUAL O PREÇO PARA COMPRAR GRÊMIO OU INTER?

“Existe valor e existe preço. O valor é quanto vale o clube, com patrimônio, dívidas e tudo mais. E o preço é o quanto um lado está disposto a vender e o outro a pagar”, aponta o economista.

Em resumo, aí vai do poder de negociação. Dados de 2020 apontavam a Dupla Gre-Nal com valores parecidos: Inter com R$ 1,7 bilhão e Grêmio com R$ 1,5 bi. A dívida colorada, por sua vez, está na casa dos R$ 700 milhões e a tricolor em torno de R$ 500 milhões. Para efeito de comparação, o Cruzeiro valia mais ou menos a mesma coisa e quando foi comprado por Ronaldo, o Fenômeno pagou R$ 500 milhões.

PARA O CLUBE, SERIA UM BOM MOMENTO?

Jung observa que, mais do que adotar ou não a SAF, os clubes precisam reorganizar suas dívidas e gerar novas receitas, seja qual o modelo adotado. Mas sim, acredita que o modelo será dominante em até 10 anos. “O risco de ficar para trás é muito grande”, alerta.

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