Hiltor Mombach

Pelo fim da homofobia também nos estádios

Meu cronista preferido, Juremir Machado da Silva, escreveu vai algum tempo uma coluna impecável, como sempre, que levou o título de “machismo, racismo e homofobia”..
Para Juremir, “somos uma terra de mestiçagem, mas continuamos a praticar um racismo que vai do velado ao explícito. Somos o país do futebol. Não deixamos, porém, de menosprezar negros que nos dão brilho nesse esporte. Somos uma terra de tolerância, embora estejamos cada vez mais intolerantes com certas diferenças. A homofobia viceja em atitudes, piadas, comportamentos e imaginários. Somos, como imaginou Stefan Zweig, o país do futuro, mas continuamos enterrados no passado de alguns preconceitos: racismo, machismo, homofobia, sexismo e até especismo.” Onde eu assino?
Há uma piada sobre o assunto. O valentão chega e dispara a afirmação de que no seu Estado só tem macho. Ouve como retruque que boi Estado vizinho tem metade macho, metade fêmea, e lá se vive muito bem.
Tenho dificuldade em entender os machistas, racistas e homofóbicos. Por vários motivos. Talvez o principal seja de que a felicidade não se enquadra num rótulo. Um dos mais cruéis, mais hediondos crimes é o preconceito. Os que apodrecem consumidos por uma intolerância vesga e burra não podem seguir cuspindo seus conceitos sem retruque. O jornalista William de Lucca, 32 anos, fanático torcedor do Palmeiras, pode ter começado nesta semana uma revolução. Ele reclamou de cânticos homofóbicos na arena alviverde na última quinta-feira quando seu time bateu o São Paulo por 2 a 0.
“Já é uma luta antiga, uma pauta antiga. Não só no Palmeiras. Quinta-feira pareceu que era só pela torcida do Palmeiras, mas não. Outras torcidas no Brasil e no mundo são muito homofóbicas. Esses gritos contra outros jogadores, contra o goleiro no tiro de meta, contra outros torcedores... Há uma ideia de achar que no estádio essa atitude é aceitável, como foi com o machismo, o racismo e agora com a homofobia, mas não é.”
William fez um mea-culpa. Em 2010 ele tuitou a frase "Chupa, Bambi" referindo-se ao São Paulo.
“A gente tem sorte de poder melhorar com o tempo. Eu sou gay, mas nasci em uma sociedade extremamente homofóbica e heteronormativa. Eu aprendi que ser gay é errado e que usar isso como ofensa é aceitável. Eu tive a chance de, com o tempo , chegar a outro nível de percepção. Eu estava errado naquela época”.
Juremir encerra assim: “Somos um país hipócrita. Adoramos roupas curtas na irmã e na mulher dos outros. Demitimos as gostosonas que se excedem no vestuário. Depois, compramos, para examinar melhor o “material”, a Playboy em que elas aparecem. Pregamos moral de cuecas. Só que são cuecas de marca. Cuecas marcadas por homofobia, racismo e machismo.” Onde assino?
William não fica nisto. Tem tirado print dos comentários no Twitter para registrar boletim de ocorrência na 4ª Delegacia de Delitos Cometidos por Meios Eletrônicos. Se não aprendem por bem, quem sabe pela intimidação?