Hiltor Mombach

Política da gastança

Tenho um amigo que acha pornográfico o salário dos jogadores de futebol dos grandes times. É tocar no assunto que ele se revolta, espuma de raiva e prevê para breve a quebradeira dos clubes e o fim do nababismo. O neologismo é meu. Retruco dizendo que ele não viu nada. Com argumentos sólidos provo que em breve os atletas verão dobrar seus ganhos.

Paulo Nunes foi o primeiro jogador a receber R$ 100 mil por mês no Rio Grande do Sul. Isto há 14 anos. Pouco depois, tal salário seria pulverizado pelo mesmo Grêmio com Astrada, Amato e Zinho, recebendo mais de 200 mil dólares. Vivia-se no Olímpico tempo de fartura, com a ISL bancando a conta.

O contrato da ISL com o Grêmio é um exemplo de como as coisas mudaram e um indicativo de como ainda mudarão. Há 11 anos, assinou-se uma parceria que deveria perdurar por 15 anos com investimento total de R$ 95 milhões. Uma Babilônia. Hoje, só a TV injeta R$ 110 milhões em dois anos. Prossigo. Hoje, há jogadores atuando no Inter e no Grêmio recebendo perto do meio milhão de reais por mês. Ronaldinho Gaúcho, no Flamengo, passou a barreira do R$ 1 milhão. Em breve, talvez não tão em breve assim, veremos Inter e Grêmio chegar no R$ 1 milhão. Ouço que o mercado regula esta loucura, esta afronta ao assalariado brasileiro. Só se for o mercado do desvario, da insanidade.

Há cinco anos, a folha de pagamento dos jogadores do Grêmio girava em torno dos R$ 1,7 milhão. Hoje, bate nos R$ 6 milhões. Talvez isto explique por que o clube andou atrasando o salário dos funcionários. Poucos dias, é verdade, mas atrasou. Há cinco anos, a folha do Inter era de cerca de R$ 3 milhões. Está nos R$ 7 milhões. Talvez isto explique o atraso no pagamento dos jogadores. Poucos dias, três, mas atrasou. Os salários dos jogadores aumentam na proporção da dívida dos clubes com o governo federal.

Se o senhor ou a senhora adotassem em suas casas a política financeira dos clubes estariam falidos, quebradinhos. Mas clube grande não quebra, é socorrido por Refis ou Timemania. Quanto maior a pindaíba, maior a folha de pagamento. É a política da gastança. Este meu amigo que acha pornográfico os salários atuais dos jogadores vai viver para ver a dupla Gre-Nal inaugurar a era de mais um dígito na conta bancária dos jogadores. E vai achar bom o tempo em que se pagava "só" R$ 200, 300 mil.