Hiltor Mombach

Que time jogou mais, o Inter de 75 ou o Flamengo de 2019?

Pensando bem, como bairrista assumido nada tenho a invejar. Este Flamengo é uma réplica daquele Inter. Mas original, só aquele Inter

Vai muito tempo escrevi uma coluna sobre o futebol carioca. Esquecido neste Rio Grande que despenca do mapa do Brasil, o gaúcho é um eterno separatista quando se trata de comparação. Para a gauchada, por aqui se joga um futebol bélico, que faz jus ao jargão do pescoço para baixo é canela, e no Rio o campo é transformado em avenida, por onde os jogadores sambam, desfilando técnica e alegria. 
Ainda peguei o tempo em que das arquibancadas superiores dos estádios gaúchos escorria um líquido amarelado e meio fedorento, o mijo, promovendo um verdadeiro salve-se que puder na turma das inferiores. No Rio, chovia papel picado feito confete que, por lá, tudo vira carnaval. 
Alguém retrucará afirmando que este colunista esqueceu do pó-de-arroz, associando tal pó a um cosmético como talco, por exemplo, dado a perfumar estádios como Maracanã. Não esqueci. Aqui abro um parênteses para o tal do pó-de-arroz. 
O site do Globo trouxe belíssima reportagem que ganhou o título de "No Dia da Consciência Negra, Fluminense explica origem do "pó-de-arroz": "Time de todos". Como manchete secundária, ou título de apoio, surgia: "Em vídeo, Tricolor explica que apelido surgiu em 1914, por provocação de torcida do América ao jogador Carlos Alberto, que havia trocado clube por Flu, e utilizava produto após fazer a barba". 
Trecho no texto: "No dia 13 de maio de 1914, Carlos Alberto, que estava longe de ser o primeiro negro a vestir as cores que traduzem tradição, jogava contra seu ex-clube pela primeira vez, o América. Na realidade, a história do pó-de-arroz partiu de uma provocação da torcida americana ao Carlos Alberto, que tinha o conhecido hábito de usar talco desde o seu ex-clube."
Retomo o assunto principal. Pois na coluna sobre o futebol carioca, mesmo sentindo-me irremediavelmente bairrista, confessei minha inveja: lá se combinava, com a perfeição do chope com o sanduíche aberto, o futebol bélico com a arte. 
Numa comparação grotesca, eram tanques de guerra desfilando graciosos pelos gramados. Só isto poderia explicar tantos títulos. 
Aqui dou um salto no tempo. No livro "De Belém a Yokohama" o mais consagrado dirigente da história do Inter, Fernando Carvalho, reservou um capítulo para falar sobre filosofia. Do futebol, obviamente. 
"No Inter, há a cultura de que futebol bonito é o que ganha; no Grêmio, eles sabem que o futebol que ganha muitas vezes é o tosco, o futebol de resultados. Na década de 1950, os tricolores colocaram Osvaldo Rolla, o Foguinho, como treinador, e jogaram num sistema de bico para frente, futebol voluntarioso, a força física em detrimento da técnica e gol de bola parada, e eles até hoje vibram com isso. Esse é o futebol que ganha. 
Tu até podes atingir um estádio _ como nós atingimos em 1975, 1976 _ em que o futebol desse estilo se aprimora, compatibilizando com a técnica, e vira uma máquina". 
Cometendo uma verdade nem tão exagerada diria que o Inter de 75-76 serviu de exemplo para este Flamengo. Trata-se de um disparate proposital, pois 44 anos separam as duas máquinas. Eis o que eu quero fizer: este Flamengo parece ter sido retirado da história daquele Inter. 
Trocando os nomes dos jogadores, lendo o livro histórico de Fernando Carvalho, alguns registros cabem todinhos neste Flamengo atual. Vejam o que ele diz sobre o craque Falcão: "O Falcão jogava o grosso e o fino: marcava como o Élton, mas jogava como Gerson, o Didi, o Chinesinho." O Flamengo era grosso quando precisava e fino na hora certa.
Encaminho o encerramento com uma pergunta polêmica: que time jogou mais, o Inter de 75 ou o Flamengo de 2019?  Não vou ficar em cima do muro: o Inter. 
Pensando bem, como bairrista assumido nada tenho a invejar. Este Flamengo é uma réplica daquele Inter. Mas original, só aquele Inter.