RACISMO, TRÉPLICA
"Caro Mombach,
Sou colorado desde muito pequeno. Sou apaixonado pelo meu Inter assim como foi meu pai, enquanto esteve nesse mundo.
Por ser de uma família grande, tenho muitos familiares que torcem para o Grêmio. Normal. Meu pai, assim como meus tios, sempre me concedeu o direito de escolha para tudo, inclusive para escolher a cor da minha paixão. Escolhi o vermelho muito antes de poder compreender a beleza da história do Clube do Povo, muito antes de poder discernir sobre os valores sobre os quais se fundamentaram os dois maiores clubes da nossa província. Quando alcancei essa clareza de ideias, tive ainda mais certeza e orgulho da minha paixão, da minha escolha.
Foi nessa mescla de colorados e gremistas que cresci. Sempre respeitando as diferenças e as escolhas de cada um. Um ambiente saudável de muita alegria, de muita brincadeira e principalmente muita diversão. Acredito serem esses os propósitos do esporte: saúde, alegria, brincadeira e diversão. Por essas e outras que acho que não podemos odiar os torcedores rivais. Eles são nossos familiares, nossos amigos, nossos colegas de trabalho e assim por diante.
Não fui obrigado a vestir nenhuma camisa. Sofri influências dos dois lados, é verdade, mas escolhi sozinho. Caso de amor a primeira vista, sabe como é. Meu falecido pai não. Quando era criança e adorava futebol, ele gostava mais do esporte do que de cores. Até que um dia tentou assistir a um jogo do Grêmio no antigo estádio tricolor, lamentavelmente ele foi impedido de entrar no estádio. Sabe o motivo? Disseram a ele (na época uma criança) que "negrinho não entra". Ele não era negro, mas era pobre, com a pele bronzeada do sol. Muito difícil aquele tempo, imagino eu.
Leio diversas publicações todos os dias, é uma busca incessante por informações. Nessa busca acabei me deparando com um texto do Serginho da revista Placar. Muito interessante. Serginho é um grande jornalista. Concordo quando ele diz que as atitudes da torcida tricolor contribuem para a formação de "nazistinhas". Obviamente não são todos racistas. Mas as pessoas devem ter consciência de que suas atitudes influenciam outras pessoas, principalmente as crianças, que são como esponjas e absorvem tudo que escutam e veem.
Quando um estádio inteiro canta: "gente pra cá, macaco pra lá!" repetidas vezes por longos minutos e terminam imitando o som de macacos é sim preconceito. É sim, falta de respeito. É sim, um péssimo exemplo para os mais novos.
Nenhum ser humano deve julgar-se superior a outro por ter outra preferência clubística, outro sexo, outra cor e assim por diante.
Quando nós colorados assumimos o macaco como um dos símbolos da nossa torcida, estamos apenas revidando a ignorância com um tapa de luva. Estamos tentando mostrar que não nos deixamos desrespeitar por uma parcela da torcida rival (digo de antemão: essa parcela corresponde a minoria). Ou o senhor esperava que declarássemos guerra?
Entendo a preocupação do Serginho. Não como torcedor, mas como cidadão que se preocupa com o futuro da nossa sociedade, que se preocupa com o exemplo que estamos passando para as próximas gerações.
O que não entendo é o que levou o senhor a publicar uma réplica, na qual um torcedor do Grêmio fala de preconceito. Só o fato de ele não escrever em seu texto as palavras Inter, Internacional, Colorado e Beira-rio (ao Gigante ele se referiu como aterro e ao Inter como time do aterro) já torna o texto preconceituoso, dá a entender que ele, o senhor Bettiol, se julga superior aos colorados. Se isso não é preconceito e uma forma de racismo, então não sei o que é. Ele ainda faz um ataque desmedido ao jornalista chefe da revista Placar. Texto carregado de ódio.
Diga ao seu amigo que não se mede alguém pelo time que torce, mas sim pelo caráter e nada mais do que isso.
Gostaria de finalizar dizendo que o senhor faz um ótimo trabalho na crônica esportiva do nosso Rio Grande. Se tiver a oportunidade (nem sei se o senhor irá ler esse e-mail) entre no blog em que dou alguns pitacos sobre a dupla. Segue o link: http://arquibancadagaucha.blogspot.com/
Um abraço.
Allan Maciel"
