Recorro a um craque das letras, Nelson Rodrigues, para falar sobre um craque da bola, Neymar.
Antes de prosseguir defino aqui craque segundo o dicionário Aurélio: “Que ou aquele que se distingue em alguma atividade, principalmente nas atividades esportivas; ás, cobra, bamba, batuta, bom...”
Pois no livro “A Pátria de Chuteiras”, Nelson Rodrigues comenta uma entrevista onde Admildo Chirol condena as estrelas solitárias do futebol atual: “Eu admiro os portadores de certezas definitivas, imutáveis. E o que se sente, nas palavras de Chirol, é que ele não faz a concessão da dúvida, de um “talvez”, de um “quem sabe?”. Não. Tudo, em Chirol, tem a ênfase de uma última palavra.”
Prossegue: “Nada de estrelato, de homem-chave, de vedetismo. Todos iguais entre si como soldadinhos de chumbo. E assim vai a entrevista, ressoante da palavra encantadora: coletivismo, coletivismo.”
Quase no arremate, o brilhante escritor sentencia: “A meu ver, a teoria do Chirol apresenta dois defeitos: primeiro, é inexequível; segundo, é indesejável. No dia em que desaparecerem os Pelés, os Garrinchas, as estrelas, enfim, será a morte do futebol brasileiro. E, além disso, no dia em que desaparecerem as dessemelhanças individuais — será a morte do próprio homem.”
Eis que chego em Neymar. O nosso craque do momento _ cada época tem seus craques e nenhum será como Pelé _ está visivelmente desestabilizado emocionalmente. A prova provada foi o choro convulsivo ao apito final da vitória sofrida contra a modestíssima Costa Rica. Nunca se chorou tanto numa partida de segunda rodada de uma etapa de classificação.
Até os quero-queros de Marcorama sabiam que Neymar seria caçado em campo. O que eles não sabiam é como o jogador reagiria às botinadas dos rivais. Obviamente que ele pode e deve ficar irritado, fazer cara de poucos amigos. O que não pode é deixar que isto afete seu rendimento pois é justamente isto que o inimigo quer.
Mente que diz que este Brasil é uma miséria de talentos individuais. Temos bons jogadores. Mas a verdade verdadeira é que de todos, dois se sobressaem: Neymar e Marcelo. E só um deles joga na frente, Neymar.
Minha esperança é de que o gol anotado por Neymar tenha servido como uma espécie de desafogo.
Digo isto porque percebo uma tendência de crescimento do Brasil em campo. Com Neymar mais focado no jogo e menos na melena, retribuindo cada pancada com uma jogada genial, podemos sonhar depois do que vi no segundo tempo contra a Costa Rica.
Os ranzinzas, que costumam botar defeito em tudo, estes que transformam as virtudes dos rivais em defeitos do Brasil, dirão que a Canarinho comeu o pão que o diabo amassou para fazer o dever de casa. Omitirão um dos fatos mais evidentes desta Copa: a vida não está fácil para nenhum dos bambambãs.
Derrubamos o retrancão da Costa Rica com um 2 a 0 e um pênalti de concurso sonegado pelo assoprador de apito. Ufanista, declaro: ganhamos da Costa Rica e do juiz.
