Hiltor Mombach

Renato, Grêmio, Fla, Nelson Rodrigues...

Nelson Rodrigues abre assim uma das suas crônicas:
“Tenho dito, obsessivamente, que sou uma flor de obsessão. Ora, uma coisa muito repetida vai perdendo a solenidade inicial e tornando-se humorística. Amigos meus já me saúdam assim: “Olá, flor de obsessão”, “Como vais, flor de obsessão?”. Eu respondo com esplêndida naturalidade: “Vou indo. Estou caprichando”. Agora mesmo, recebo um bilhete do Raul Brandão, o pintor de igrejas e de grã-finas. Começa assim: “Nelson, minha flor de obsessão”.
Vou ao dicionário. Está lá: obsessão (latim obsessio, -onis, cerco, assédio, bloqueio, perigo iminente). Substantivo feminino: 1. Importunação perseverante; 2. Perseguição diabólica; 3. Ideia fixa e 4. Preocupação contínua.”
Um pensamento me persegue diabolicamente nos últimos dias. Já confessei aqui minha ignorância em assuntos que ignoro. A frase surge como uma gigantesca obviedade e merece uma explicação: os tudólogos estão entre os sábios mais ignorantes do planeta. Prossigo.
O pensamento vai e volta, é recorrente: ouvi que um dos motivos que levaram Renato a não firmar contrato com o Flamengo foi o boato, a notícia, a informação, o tititi, de que ele ajudaria a reforçar o time carioca desfalcando o Grêmio do zagueiro Kannemann.
É ultrajante, afrontoso, sequer imaginar Renato, eterno ídolo gremista, cometendo tão grave traição. Ofendido com tamanho disparate, o renomado treinador contra-atacou reafirmando seu amor ao Grêmio renovando o contrato por mais uma temporada. Estava assim juramentada sua lealdade ao clube gaúcho.
O pensamento vai e volta, é recorrente e vem acompanhando de uma pergunta: e se fosse comigo?
O que eu faria diante da falsa especulação de uma traição deste tamanho?
Respondo: acertaria com o Flamengo.
Eis a cena. Estou no sempre lindo Rio de Janeiro, numa sala cercado de repórteres, bajulado pelos dirigentes do Flamengo esperando pela minha apresentação oficial como treinador por duas temporadas. Apresentação feita, a sessão é aberta para perguntas.
Do fundo da sala apinhada de gente alguém fulmina:
“É verdade que o seu primeiro pedido de reforço para a temporada de 2019 foi a contratação do zagueiro Kannemann, do seu ex-clube, o Grêmio?”
Faria um breve suspense, que ali pareceria uma eternidade.
Feito isto, sacaria do bolso um pequeno pedaço de papel e anunciaria.
“Estão aqui os cinco jogadores indicados por mim. Vou ler para vocês. A contratação de Kannemann foi plantada. Jamais cometeria um ato de traição contra o clube que tanto amo, o Grêmio.
O indicados como reforço são Bressan, Jael, Marinho, André e Paulo Miranda.”
Ouvi de importante dirigente do Grêmio que esta mistura de boatos, notícias, informações e tititis que antecederam a renovação de Renato serviam como uma espécie de chantagem.
Ele sentia-se chantageado.
Hoje, uma pergunta martela minha cabeça obsessivamente: a história que ouvi é verdadeira?