Hiltor Mombach

São Paulo de Rio Grande encara a crise de frente

Vitor Mendes Magalhães foi empossado presidente do São Paulo de Rio Grande em outubro de 2015. Tem 30 anos. De uma renda de R$ 101 mil no último jogo pelo Gauchão, contra o Brasil de Pelotas, ficou com R$ 7,5 mil: R$ 27,6 mil ficaram com a Justiça do Trabalho e R$ 6,4 mil com a Justiça Federal.
Neste pingue-pongue ele fala das dificuldades e planos.
O São Paulo tem boa parte da renda descontada pela Justiça. Como o clube consegue sobreviver?
?O S.C. São Paulo só consegue sobreviver graças ao acordo feito com a justiça. Caso contrário, já teria ido à bancarrota financeira. Rendo sinceros agradecimentos aos responsáveis, tanto do clube, da justiça, e da FGF, pela criação do condomínio de credores. Pesquisando em borderôs anteriores a 2014, vi que a totalidade das rendas com bilheterias, por exemplo, era penhorada em função de dívidas. Com a criação do condomínio dos credores, as dívidas são pagas na medida em que existe faturamento, e consegue-se equalizar o orçamento em função da certeza de um resultado financeiro.


Quanto o clube ainda deve, até quando vai esta dívida e qual o valor?
?As dívidas trabalhistas ainda ultrapassam um milhão de reais. Mas a realidade já é muito melhor. Existe, atualmente, uma certeza de que todos os credores receberão o que têm direito. As cifras não assustam porque, além do condomínio, existe um plano de marketing, alinhado ao plano de negócio, para aumentar o faturamento através da monetização da marca S.C. São Paulo, atualmente o terceiro maior público e de um dos três principais campeonatos estaduais do país, que é o Gauchão. O S.C. São Paulo está vivo, e com responsabilidade, na medida em que não entrarem mais reclamatórias trabalhistas e o clube for honrando seus compromissos, chegaremos lá.


Para quem vai o dinheiro descontado?
?30% vai para a justiça do trabalho, para dívidas trabalhistas?, e 10% para a justiça federal, além dos demais descontos.


Pelos borderôs o público até que está ajudando. Esperava mais gente no estádio?
?Se temos uma certeza, relacionada à torcida do S.C. São Paulo, é que ela estará presente. Talvez seja uma das poucas torcidas do interior que está presente em todos os jogos, onde quer que o São Paulo jogue. É um torcedor fiel - e até leal. Não podemos esquecer que, apesar de ser um negócio, o futebol não deixa de ser um esporte. É conceitual. Ele existe por um motivo maior do que todos os outros: para o seu torcedor.


Como estão as condições do Dapuzzo?
A cada ano as condições melhoram. Infelizmente passamos mais de uma década na segunda divisão, o que inevitavelmente acabou nivelando o S.C. São Paulo por baixo, a nível patrimonial. Desde 2014, foram realizadas diversas obras, evidenciada pela troca do gramado. Este ano, foi o refeitório, a cozinha, o vestiário do time da casa, o túnel de acesso, a drenagem no campo, e três novas cabines de imprensa.


Como te convenceram a asssumir a presidência?
Foi uma decisão muito difícil. Sabe, Hiltor, sou um cara que tem fama de ser metódico demais. Se saio de casa às 6:30h sem a minha agenda e a minha HP 12C, o dia não é o mesmo (risos amarelos). Então, tive que abdicar de grande parte da minha rotina para cuidar dos interesses do S.C. São Paulo. Nesse tempo, já perdi 6 Kgs, deixei muitas atividades de lado, e se minha namorada não residisse em Brasília-DF, certamente o relacionamento estaria com déficit de atenção (risos amarelos). Trabalho em tempo integral, em uma empresa no distrito industrial de Rio Grande-RS, então posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que trabalho entre 16h e 18h por dia, somando as duas atividades (uma remunerada - meu emprego, e a outra, voluntária - o São Paulo).


Qual o objetivo do time?
?Nosso? objetivo maior é devolver o S.C. São Paulo ao circuito nacional, como nos idos tempos. Então, entramos no campeonato buscando a Série D. Para que se atinja este objetivo, obrigatoriamente deveremos ultrapassar outros check-points: a fuga do rebaixamento, e a classificação entre os oito primeiros.


De quanto é folha dos jogadores?
?Talvez a menor folha do campeonato, de R$ 114.500.?


As empresas de Rio Grande ajudam?
Algumas, sim. Rio Grande é uma cidade próspera, que respira futebol, e que tem no porto seu maior mercado. Então, nosso plano foi sempre continuar a trilhar o caminho que devolverá a credibilidade ao S.C. São Paulo e ao futebol como um todo. Honrando compromissos assumidos, eliminando custos desnecessários, valorando o patrimônio. É questão de tempo para que mais e mais empresas enxerguem no São Paulo um produto para exposição das suas marcas e/ou outros negócios do tipo ganha-ganha.


O São Paulo tem categoria de base e se tem quantos jogadores atuam no time principal?
?Atualmente o S.C. São Paulo possui apenas uma escolinha de futebol, que ainda assim está terceirizada. Está nos planos, para os próximos três anos, reativar as categorias de base. Mas elas precisam de um alicerce mais seguro para funcionar a pleno, e atualmente o S.C. São Paulo não tem condições de garantir este alicerce. Então optou-se por aguardar o momento adequado, sem dar passos maiores que as pernas.?


O Gauchão acabou na forma como vem sendo realizado e se achas que sim qual a sugestão para o futuro.
?Sou e sempre serei um defensor do Gauchão. Não penso que ele acabou. Pelo contrário, ele está mais vivo do que nunca. Para se construir um prédio novo, é necessário que a antiga edificação sofra modificações. O Gauchão está sofrendo modificações, mas mudando para melhor. Tenho plena convicção e segurança que o trabalho da FGF, capitaneada pelo presidente Francisco Novelletto, é exemplar, e no futuro, os mesmos que hoje o criticam, irão agradecê-lo. Não é conjectura: é convicção. Toda vez que vejo algum representante de clube do interior culpar a FGF, eu me entristeço. Não acho justo transferir a responsabilidade do insucesso de algum clube para o colo da FGF. Hiltor, a colheita não precede a sementeira, tanto quanto o teto não se antepõe à base. O pensamento é sempre o motor da ação, pois incita as nossas emoções, que são facilmente tornadas em hábitos, e os hábitos em palavras. E cada palavra é um veículo: quando a palavra é edificante, é como uma lâmpada acesa. Quando é maledicente, ela corrói. Uma frase amiga é como um copo de água pura. Já um apontamento pessimista, é como um comprimido de veneno. Meu pai me ensinou: "quem não tem humildade por essência, deve ter humildade por sabedoria". E na minha humilde opinião, se a energia gasta com as críticas à FGF fosse direcionada à solução de problemas, sugerindo ideias, buscando alternativas positivas, a favor do bem, a situação seria bem melhor.


Quanto o São Paulo recebe da TV? A FGF fala em R$ 1 milhão, isto confere.
?O S.C. São Paulo recebe a mesma cota que os demais clubes, exceto a dupla (Grêmio e Inter) e o Brasil-Pel, por estarem em divisões nacionais superiores.?


Já teve jogo com prejuízo neste Regional?
?Não, e provavelmente não teremos, em função da comunidade riograndina, que respira futebol.


Para não ter prejuízo de quanto tem que ser a renda?
?É impossível responder com um número exato, pois depende de uma série de fatores. Segurança, conforto, agilidade, robustez, controle, fiscalização, relação com imprensa, etc. Em jogos com maior público, naturalmente o custo se torna maior. Nos jogos contra o Grêmio e o Brasil-Pel, por exemplo, triplicamos o contingente de segurança privada, adquirimos rádios para comunicação dos responsáveis imediatos para cada setor do estádio, instalamos catracas para controle do acesso nas portarias, etc. Sempre, antes de cada jogo, reunimos a Diretoria e planejamos a execução do jogo no extra-campo, para que a possibilidade de risco seja mitigada, os controles aumentados e que o S.C. São Paulo possa ofertar ao público presente no estádio, além da imprensa, um espetáculo de futebol leal e condizente com o que o nosso Gauchão merece.


Até aqui, era como tu esperava, está melhor ou pior comandar um clube do Interior?
?Est?á tudo dentro do previsto. As dificuldades são muitas, os problemas financeiros são enormes, mas é preciso equalizar. A saída não é, certamente, agir com irresponsabilidade financeira. Têm-se a infeliz cultura de pagar mais para ter os melhores. Mas esquece-se que, além do salário, existem outros fatores que motivam pessoas: bom relacionamento com a instituição, bonificações, transparência na tomada de decisões, um planejamento orçamentário adequado, e acima de tudo, confiança mútua. Obviamente que todos nós queremos ser melhores remunerados nas instituições que trabalhamos. Mas se pudermos acompanhar o crescimento da instituição juntos, e além disso sermos partícipes deste crescimento, o salário torna-se apenas mais um item motivador, e não apenas o item motivador. Eu tenho muito orgulho positivo de poder ter conhecido pessoas que me fazem, diariamente, aprender e crescer como pessoa. Se minha jornada enquanto Presidente do S.C. São Paulo findasse hoje, eu poderia me honrar em afirmar que o aprendizado foi muito superior aos problemas que enfrentamos juntos. Poderia dizer, sem sombra de dúvidas, que sou um cara de sorte.


Qual a tua profissão e idade e como foi eleito.
?Sou administrador por profissão, tenho 30 anos.? Em maio de 2015, ainda com 29 anos, tive a felicidade de, junto com alguns amigos, encabeçar uma Comissão que tinha por objetivo fornecer auxílio ao ex-presidente, da gestão anterior à minha. O tempo foi passando, ficamos encarregados de preparar a transição entre a antiga gestão, e a de uma outra (havia um outro pré-candidato). Mas, no último dia, o até então pré-candidato optou por não registrar candidatura, e como já estávamos à frente do clube, optamos por manter a formação e continuar o trabalho, não mais como uma Comissão de caráter consultivo, e sim como Diretoria Executiva.