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O + Domingo do jornal Correio do Povo traz reportagem sobre o Transtorno do Pânico, ou Síndrome do Pânico. Com depoimentos. Entre eles, um deste blogueiro, que sofre da doença. O texto está abaixo. Há uma ilustração do meu filho, Lucas, de 11 anos, feita quando ele tinha 10 anos.
O tsunami veio. Na terceira vez aquilo decidiu mudar o horário do ataque. Sem aviso intrometeu-se na minha cabeça por volta das 14h. Fulminante. Desta vez não sai para caminhar. Fui a um hospital. No hospital pediram minha carteira do plano de saúde e que eu descrevesse o que estava sentindo para me encaminhar ao médico especialista.
Como se descreve a morte? O que é que aquele atendente pretendia? Então não estava escrito no meu rosto que eu estava morrendo? Como é que ele não percebia e pior: como ousava querer saber o que eu estava sentindo! Ninguém simplesmente pede para alguém que está morrendo como este alguém está se sentindo. Isto é uma afronta. O que ele esperava que eu dissesse. Oh, amigo, eu estou morrendo, recomende ao invés de um médico uma funerária. Ou então oh! Atendente, eu estou morrendo, mas não se preocupe, afinal nada tens a ver com isto. Somos dois ignorantes a ignorar o que se passa comigo. Então eu estou num hospital e eles não sabem o que está se passando?
Se eles, num hospital, não sabiam, bem, então era o fim da picada. Não lembro o que eu disse. Veio o médico e repetiu a pergunta do atendente. Estou morrendo, disse, irritado. Assim, curto e grosso. Estou morrendo.
Ele me olhou e deu um risinho debochado. Alguém que está morrendo não respira como estás respirando nem tem esta cor rosada disse. O que tinha a ver a minha respiração e minha cor com a morte? Que tonalidade minhas bochechas deveriam ter para eu estar morrendo? Deveriam estar roxas, quem sabe! Recomendou alguns exames. O coração estava ótimo. Receitou um calmante e fim.
Fui liberado sem diagnóstico. Mas que diacho, eu estava morrendo! Como liberam alguém neste estado? Sai do hospital com a mais absoluta convicção de que eu estava pior do que quando entrara. Porque ao entrar eu tinha a certeza de que meu problema seria diagnosticado e, ao sair, minha certeza era de que não tinha diagnóstico. Eles iriam me deixar morrer assim, sem eu saber o motivo.
Este um trecho do livro que estou escrevendo. Não escrevo sozinho. O livro tem a participação de um psiquiatra. Não se trata de uma doença moderna, pelo contrário. Moderno é o tratamento, com medicação eficaz e terapeutas capacitados. Tudo começou em 1991. Lembro de ter respirado fundo várias vezes, buscando ar não sei onde, e da convicção mais absoluta de que não havia ar em lugar algum. É como se eu estivesse me afogando. A palavra água desencadeava em mim uma sensação de morte. As crises duravam horas. Peregrinei por vários consultórios médicos e nada. Minha esposa, Judith Martins Costa, matou a charada: minha doença era pânico. O psiquiatra levou minutos para diagnosticar: síndrome do pânico.
Da descoberta até hoje muitas coisas mudaram. Fui vítima de uma doença mas jamais me fiz de vítima. Mudei hábitos. Passei e cuidar da alimentação e praticar natação de cinco a sete vezes por semana. Ganhei em qualidade de vida. Isto ajuda no desempenho no trabalho. Sempre contei com a compreensão e o carinho dos meus familiares. No começo, tratei a doença com medicação e consultas. Hoje, só faço as consultas. Tenho sempre a medicação comigo, pois os ataques não avisam. Mas com o tempo aprendi a pegar a crise pelo rabo, a me precaver. Chego a ficar oito, dez meses sem um ataque. Chego a esquecer que sofro de pânico. O livro, que pretendo publicar em breve, trata de tudo isto, da origem do pânico, o tratamento, suas consequências e de como conviver com ele. A descoberta da doença é a chave de tudo. Há muitos tipos de fobias e nem todo pânico é igual. No meu caso, o cérebro envia uma mensagem de que estou morrendo. É irreversível enquanto dura. Um bom terapeuta tem o diagnóstico.