Hiltor Mombach

"Se diz, a cada fracasso, que quando a Arena vier, tudo passará. Trata-se da Terra Prometida. Por enquanto, vamos, gremistas, tratando de atravessar o Mar Morto"

Por Cacaio Azambuja

Amigos:

Seguem algumas reflexões sobre o jogo de sábado.
1) O pior na derrota de sábado, não foi a goleada e nem a atuação do time. Foi a indiferença com que foi recebida por mim e por muitos de meus companheiros. É como já soubéssemos, antecipadamente, o que iria acontecer, em face da consciência de nossas inúmeras e repetitivas fraquezas.

2) Que a arbitragem nacional historicamente é "localista”, isso é do conhecimento de todos. Principalmente quando os jogos realizam-se em São Paulo e no Rio e o paciente é o Grêmio. Constitui-se mesmo numa infeliz tradição. “Remember”  Taça do Brasil, nos anos 60, com Eunápio de Queiroz, Aragão, o Armando Marques e outros. Penaltys inexistem a favor do tricolor e existem em prol dos adversários, quaisquer que sejam os adversários, paulistas ou cariocas, mesmo que evidenciadas tanto a sua ocorrência  como  sua inexistência. Num relance, Fluminense (ano passado, s/Jonas), Vasco (este ano, sábado, s/Escudero), Coríntians (este ano/”cometido” por Adilson) e assim por diante.  Sem falar nas ousadias de Éder Lopes, que age assim até aqui, na nossa cara (São Paulo, s/Marquinhos).

Conclusão óbvia é que para qualquer clube brasileiro provinciano  alcançar condições de competição com os do Eixo é preciso muito mais do que atributos técnicos apreciáveis. Necessário se faz é que sejam equipes de exceção. Isso desequilibra qualquer campeonato. Já se entra em campo no Pacaembu, Morumbi e no Rio com um a zero para o domiciliado.
3) Dupla de zaga do Grêmio melhor seria se fosse composta por Simon e Garfunkel. Pelo menos os dois seriam mais afinados. Cantariam e não jogariam futebol. Descobriu-se, outrossim, a pessoa que inspirou o personagem do Luiz Fernado Veríssimo, Ed Mort. É o quarto zagueiro que o Pelaipe arrumou.

4) O nosso centro-avante, agora emblema, em boneco, de nossa raça imortal, melhor faria se se limitasse a freqüentar apenas as vitrines da Gremiomania, ou o Memorial da Ema.  Tropeça na bola e arma contra ataques fatais (Vasco, segundo gol) por passar mal. Olhando sempre pro chão,  nunca está no lugar certo e chia, nas entrevistas, que nem chaleira gaudéria. Reclama de tudo em campo, até do tempo chuvoso.  “Mata ” na canela a bola, com a qual (coitada) trava uma batalha  o jogo inteiro: para dominá-la, pisa nela como se fora um cauda de cobra, fazendo-a saltar , deixando a assistência embabascada, por largos minutos, torcendo para que, finalmente, o jogo possa continuar   para os outros vinte  e um disputantes .
5) A “cobertura” ofertada pelo nosso, resfolegante, bufador e  inefável volante Rock ao lateral esquerdo restou formidável. Ele conseguiu, com o Ed e o interesse da imprensa vermelha, comprometer o notório excelente conceito do Julio Cesar perante a torcida. Bate (mal) todas as faltas, escanteios e o escambau,  agita-se em campo que nem uma piorra desgovernada e não produz nada. Está em franca disputa com o Guiñazu, na disputa do troféu “ removedor de montanhas no parto de  um rato”. Por fim, conseguiu o impossível: deu-nos saudades do Adilson.
6) O Planejamento Estratégico do Grêmio, tão louvado quanto o autor de sua implantação, na prática tem se resumido em considerar  como  Ameaça  permanente do clube, a segunda divisão e, como Missão, fugir dela. Assim, entramos nesses campeonatos brasileiros sempre na companhia dos mais fracos e na vizinhança dos últimos colocados, desenvolvendo,  partir de então, um esforço inaudito, para sair dali.  Quando se consegue, é a glória, a “imortalidade”. O tal “Planejamento”, que até comissão especial tem no Conselho e que vive no discurso de alguns espertos, pelo menos poderia trazer nas pretensões, por exemplo, ganhar uma partidinha, em São Januário, no Mineirão (do Cruzeiro) e na Vila Belmiro. Coisa que, há anos, não acontece.

7) Se diz, a cada fracasso, que quando a Arena vier, tudo passará. Trata-se da Terra Prometida. Por enquanto, vamos, gremistas,  tratando de atravessar o Mar Morto, como o povo de Deus,  no Êxodus. Até já ensaiamos isso, quando do lançamento da pedra fundamental da obra (que,  aliás, só  então percebida que fica em baixo de um  viaduto, o qual  não aparece em maquete ou pôster algum, fato singular).

Aquela travessia Olímpico/Arena, efetuada por  iludidos, modestos e amorosos  torcedores  foi emblemática: será preciso forças bíblicas para recuperarmos a antiga dignidade desportiva e nossa altivez de campeões, extraviadas nesses dez anos de desempenhos sofríveis, lideranças duvidosas e  fracassadas ambições. O presidente da época, a do evento, chamou de “secadores “aos descrentes dessa  fatalidade cósmica, a de que o novo estádio será o Shimun (é isso ?), o vento que varre os desertos  ou o Manah que mitigará nossa fome de títulos.

Quem sabe não estejamos diante de simples profetas e profecias, ambos  incompatíveis com a era cibernética que vivemos e, por isso, coisas erradicadas de nossas cogitações ímpias ?.

O fato é que eu preciso de um centro-avante e não de um Moisés.

Um abraço a todos e, mais uma vez, desculpem-me.

POA, 19/09/2011