SEGUNDO DIA
Eu já apeei do avião, mas o avião ainda não apeou de mim. A pernas ainda estão doloridas, os tornozelos inchados. Tirei o sábado para quebrar galho. Fiz minha credencial, aprumei meu computador e briguei com o celular, que insistiu em ficar mudinho, mudinho, num silêncio iirritante. Acordou assim, de repente, pela noitinha. Deu sinal de vida. Está funcionando. Ao lado do Reche, fui ver o coletivo da Seleção Brasileira.
Na hora de fazer a credencial comecei a reclamar com os meus botões. Havia fila, a manhã era gelada e do terreno descampado levantava uma poeirama. Depois, reclamei com meus botões das minhas reclamações. Está bem, na Alemanha foi mais fácil, na Coréia do Sul também. Sai de Porto Alegre com a minha credencial para os Jogos Olímpicos da China. Que diacho! Lá estava eu com meus conceitos, ou melhor, pré-conceitos. Quando a África do Sul foi escolhida pela Fifa para sediar a Copa a primeira pergunta que fiz a minha mesmo foi: e agora? Na África? Ah, não vai dar certo.
Vinte minutos depois eu deixava o Centro de Credenciamento com a credencial no peito. Tudo fácil e facilitado pela amorosidade dos africanos. Há sempre um sorriso. Chego ao segundo dia com tudo resolvido. As coisas andam bem. Muito bem. Não sei como será nos próximos dias. Estou preparado para ter paciência. Contagia ver o orgulho deles em sediar o mundial. Sinto-me devedor. Quantas vezes usei o nome de Pelé para abrir portas no exterior? Diante de um entrave qualquer, citava duas palavras mágicas: Brasil, Pelé. As portas de abriam. Pelé, o mais brasileiro dos africanos, ou o mais africano do brasileiros.
