Caro Hiltor, nosso mais democrático jornalista esportivo do país, tenho a dizer que a média das pessoas, a média dos torcedores costuma ver “efeitos” e não “causas”. Por exemplo, veem ruas sujas, o “efeito”. Mas a “causa” é a falta de lixeiras ou o próprio cidadão e a falta de senso de coletividade quando joga lixo na rua. No futebol, veem apenas os gols sofridos, entendendo que apenas a defesa e seus jogadores são os responsáveis. Ou seja, olham para o “efeito”.
Porém, se formos um pouco mais analíticos, perceberemos claramente que a zaga, os zagueiros e o goleiro Muriel são apenas vítimas do “sistema defensivo” colorado, literalmente kamikaze. Nenhuma zaga, por melhor que seja se sustenta ou aguenta sem levar gols, jogando com o time adversário dentro de seu próprio campo durante 90 minutos, sem marcação. É desta forma que o Inter tem se defendido.
Dunga optou por esperar o adversário em seu próprio campo quando está sem a bola. Até aí tudo bem, haja vista que a ideia seria diminuir os espaços do adversário. A principal vantagem para o Inter quando se joga esperando o adversário é que o time corre menos e cansa menos.
Porém, se o Inter não exercer uma marcação efetiva, o adversário está mais próximo do gol e fazer o gol é apenas questão de tempo. E é o que tem acontecido. Cabe dizer que boa parte dos times europeus joga esperando o adversário em seu próprio campo, como o Inter tem feito.
O Inter tem jogado com uma primeira linha de quatro de forma quase perfeita, mas sem qualquer complemento de segurança a ela, daí os gols sofridos.
Porém, na Europa, quando o time joga esperando, usam duas linhas de quatro, o que dá segurança à zaga e proteção aos zagueiros. Ou aqueles que fazem uma única linha de quatro, como Barcelona e Bayern, usam um sistema de marcar cercando com pressão intensa, durante o tempo todo, a partir da intermediária adversária, nunca no próprio campo. Esta última forma exige muito treinamento, muita subserviência tática e um ótimo preparo físico. Daí a necessidade de jogadores mais jovens naqueles times.
Dunga está certo quando diz que o time está sem equilíbrio. Porém, está equivocado quando determina esperar o adversário em seu próprio campo sem armar o time para agredir na marcação sem a bola, ou sem a segunda linha de quatro que ajudaria os jogadores defensores.
Por conta desta desarticulação tática, qualquer jogador de ataque adversário vira craque, pois é fácil demais entrar driblando no sistema colorado, uma vez que a marcação é feita à distância e sem qualquer pressão.
Temos bons exemplos de sistemas defensivos, no Brasil e no mundo. No Brasil, os times armados por Tite são muito consistentes defensivamente. Seus times marcam na intermediária adversária agressivamente. Porém, se o adversário avança até a defesa, a pressão se intensifica de forma a dificultar a articulação adversária. Dificilmente, o tal Vitinho teria as facilidades de fazer o que fez ontem. O Barcelona também joga desta forma. Já no sistema de duas linhas de quatro, o desgaste é menor. No entanto, a segurança é grande, pois a linha mais à frente protege a outra.
Além do fato que este sistema permite, em caso de retomada de bola, um contra-ataque rápido, considerando que 2 ou 3 jogadores estarão no espaço vazio para receber a bola.
O Inter está no caminho certo. Dunga vai acertar o sistema. Precisamos de tempo para ajustar estes detalhes, muito treinamento e paciência com os insucessos até que tudo se corrija. Mas não podemos fazer como aqueles que cuidam apenas dos “efeitos” e achar que tudo está errado ou que nossos jogadores são ruins. Pelo contrário, estão mostrando que apesar de toda fragilidade defensiva do colorado, estes zagueiros e goleiro ainda conseguem safar a maioria dos ataques adversários. Não fosse assim, o Inter estaria levando mais gols ainda.
Que Dunga corrija logo este sistema.
Arthur Quintana