Hiltor Mombach

Teremos que driblar dois rivais neste sábado: o nosso medo e o Chile. E vamos driblar!

Teremos Brasil x Chile neste sábado pelas oitavas de final da Copa do Mundo.
Os chilenos estão preocupados com a arbitragem do inglês Howard Webb. Fosse eu um chileno e também estaria preocupado.
Nos tempos em que se acompanhava futebol apenas via ondas do rádio não se achava que a corrupção movesse o futebol.
Quando o árbitro errava, era de boa-fé.
Suborno não passava de uma lenda urbana.
O tempo passou, veio a televisão e, com ela, a tecnologia invadiu nossas casas.
Vimos como as coisas aconteciam e perdemos a ingenuidade.
O império das imagens desmascarou as arbitragens.
Sobre isto, Mário Sérgio Conti escreveu uma brilhante coluna vai algum tempo.
Trecho: “As coisas pioraram na Copa de 2002, que teve sede no Japão e na Coreia do Sul. o que, por si só, é estranhíssimo.
A Coreia derrotou a Itália num jogo cheio de erros de arbitragem, unicamente para continuar mais uma rodada no torneio.
Mesmo assim, a derrota da Itália foi atribuída aos equívocos do árbitro, o equatoriano Byron Moreno, e não ao suborno para beneficiar a Coreia.
A história não acabou aí.
Quem contou a sequência foi o romancista inglês John Lanchester.
Em 2003, Byron Moreno foi suspenso da liga de futebol equatoriana. O motivo: acrescentara 13 minutos a um jogo, até que determinado time virasse o placar, e ganhasse por 2 a 1.
Pouco depois, Moreno abandonou a profissão.
Tornou-se traficante. Foi preso no aeroporto JFK, em Nova York, com seis quilos de heroína, e condenado a mais de dois anos de prisão.”
Ponto, nova linha.
Ontem, foi dia de coletiva de Felipão e do zagueiro Thiago Silva. Um repórter chileno falou da preocupação sobre uma arbitragem caseira. Pergunta óbvia.
Fosse a Copa no Chile e tivesse o Chile sido ajudado na estreia, os repórteres brasileiros perguntariam o mesmo. A pergunta provocou uma reação inusitada.
Não em Felipão nem em Thiago Silva, mas num funcionário da CBF, diretor de comunicação, Rodrigo Paiva.
Rodrigo Paiva, irritado: ”Este tema é primitivo e imaturo nesses momentos do futebol, nos tempos que estamos vivendo. Esse tipo de pressão soa até ridículo.
Não é um desrespeito só com a Fifa, com o árbitro da partida, com a seleção brasileira, com as pessoas que trabalham aqui de forma séria, com 100 anos de história do futebol brasileiro, vencedor.
É um desrespeito, acima de tudo, com o povo brasileiro.
O Brasil não precisa de árbitro para ganhar competição, para ganhar título.
E vocês deveriam respeitar um pouquinho mais o povo brasileiro e a seleção brasileira”.
Ao confundir alhos com bugalhos, Rodrigo escancarou um sentimento que também é meu e, certamente, seu: nossa Seleção mostrou ser inconfiável até aqui nesta Copa do Mundo.
Estivesse voando em campo e a pergunta passaria batida.
Estamos com medo de que a arbitragem entre em campo condicionada pelo jogo contra a Croácia.
Estamos com medo do Chile e os chilenos estão sendo espertos ao tentar tirar todo proveito possível do erro do árbitro japonês Yuichi Nishimura.
Teremos que driblar dois rivais neste sábado: o nosso medo e o Chile.
E vamos driblar!