Hiltor Mombach

TORCEDOR SOFRE / UM DEPOIMENTO

TORCEDOR SOFRE / UM DEPOIMENTO

Caro Hiltor,
Sou advogado e também atuo no jornalismo como colaborador, resido na cidade de Santo Cristo, região noroeste do Rio Grande do Sul. Vim sozinho para a África do Sul para assistir à Copa do Mundo de Futebol.
Faço um apelo ao senhor para publicar um resumo desta carta para manifestar minha indignação com os dirigentes da FIFA. Sabemos que a entidade que comanda o futebol faz mil e uma exigências aos clubes e às autoridades brasileiras com relação às condições dos estádios e à infraestrutura que as cidades-sedes devem oferecer.
Mas a FIFA não foi exigente com as autoridades da África do Sul. O maior problema aqui é o transporte público, um verdadeiro caos. Em primeiro lugar, porque o modelo adotado é equivocado. Dá-se preferência ao transporte com caminhonetes que levam 15 passageiros em vez de ônibus com capacidade para 50 ou mais pessoas. Em segundo lugar, porque nem as caminhonetes e nem os poucos ônibus que fazem o transporte coletivo têm qualquer inscrição indicando o roteiro percorrido, o destino ou pelo menos o número da linha.



Para exemplificar melhor o drama vivido principalmente pelos estrangeiros, e em especial aqueles com pouco domínio da língua inglesa, como eu, no último sábado à tarde assisti Argentina x Argélia, no estádio Ellis Park, em Johannesburgo. Pois bem, terminado o jogo, fui até a principal avenida próxima ao estádio e perguntei aos policiais sobre ônibus ou caminhonete para o bairro Rodhesfiel, próximo ao aeroporto de Johannesburgo. Informaram que não há transporte com vans ou ônibus para aquele bairro à noite. E isso que eram somente 18h30min.
Sem outra opção a não ser um táxi (o primeiro motorista consultado queria 350 rands e o último que encontrei, 250,00 rands – cerca de R$ 95,00 e R$ 68,00, respectivamente). Como não estava disposto a gastar esta quantia, fui me deslocando a pé por uma avenida e uma auto-estrada como forma de protestar pela falta de transporte coletivo para o bairro.
Depois de caminhar durante cerca de duas horas e meia e percorrer em torno de 11 dos 22 km do trajeto, um sul-africano negro parou seu carro na auto-estrada e me ofereceu carona. Gentilmente, deixou-me em frente ao albergue onde eu estava hospedado.
Desta forma, deixo aqui o meu protesto contra os dirigentes da FIFA por organizarem a Copa do Mundo em um país onde a principal cidade não oferece as mínimas condições para um transporte público condizente.
Atenciosamente, Donato Heinen
Hiltor escreve. A reclamação fecha integralmente com a reportagem O SOFRIMENTO DO TORCEDOR, de Luiz Fara Monteiro, publicada aqui mesmo.