Hiltor Mombach

Transparência oficial

Em 25/05/2015 o Internacional lançava com pompa o Portal da Transparência. Durante evento de apresentação, o responsável pela Controladoria e Transparência, Sandro Farias, afirmou entusiasmado: "O Inter tem tradição de ser um clube organizado e pioneiro. Ao atingir 110 mil sócios, passamos a estabelecer, a partir do Portal, uma nova dinâmica de diálogo com o sócio e torcedor, que é interessado nas informações detalhadas sobre o clube. É um avanço no caminho da profissionalização, pois as grande empresas têm políticas bem claras em relação a isso. É o primeiro passo de um projeto pioneiro, que tem tudo para ser referência na nacional e, inclusive, mundial”.
O primeiro passo foi dado. E espera-se mais. Por enquanto estamos diante da transparência oficial. Isto nada tem a ver com Sandro Farias, que segue regras da instituição. Qualquer portal que pretenda ser verdadeiramente de transparência não pode ter ligação alguma com a diretoria.
Que tipo de transparência o sócio colorado gostaria de ver no Portal? Os números atuais, atualizados, que quase nada dizem da realidade do clube, ou aqueles publicados no Correio do Povo?
Estou falando sobre o “relatório circunstanciado de controle internos” elaborado pela Baker Tilly Brasil Auditores Independentes e que era para ser de uso exclusivo do Inter “não devendo ser utilizado para qualquer fim”.
Tal relatório foi solicitado pelo Conselho Fiscal. Aponta não haver “formalidades para a elaboração e entrega da prestação de contas, assinaturas dos responsáveis das áreas envolvidas, aprovação por parte da vice-presidência responsável e demonstrativo do valor a devolver ou ressarcir… Diz ainda que “diversas notas fiscais não apresentam nome do cliente e/ou destinatário”.
O site criado pela Controladoria e Transparência do Internacional prometia divulgar “pareceres de auditores independentes e do Conselho Fiscal; análises gerenciais, que trazem o comportamento evolutivo da situação financeira e econômica do Inter; o plano orçamentário...”


O relatório encomendado pelo Conselho Fiscal não deveria parar também no site? Ou estamos diante de uma forma de transparência que não serve ao clube?
Em outubro de 2014, após as inscrições das chapas para a eleição do Inter, o candidato Vitório Piffero afirmou, ao fazer o lançamento oficial de sua candidatura, que “o clube tem que ser cada vez mais profissional e transparente. Temos que ter uma gestão transparente. Vamos ampliar essa questão da transparência de forma significativa, que vai ajudar não apenas os conselheiros, mas também a imprensa e, através disso, a torcida. O clube é privado, mas tem um caráter público”.
Seguindo a afirmação do presidente de que o clube tem um caráter público, o presidente do Conselho Fiscal, Geraldo Costa da Camino, e o secretário, Paulo Rogério Martinez Nunes, não precisavam assinar nota lamentando o “vazamento de relatório emitido pela empresa de auditoria independente contratada para assessoramento do Conselho Fiscal tem levado a distorções sobre o referido opinativo...Lamentamos o ocorrido, que será objeto da devida apuração de responsabilidades.”
O São Paulo, por exemplo, publica um “resumo de atletas vinculados ao clube (profissionais e formados)”. Em 31 de dezembro de 2014, o São Paulo mantinha vinculo com 74 atletas profissionais entre contratados, atletas formados e atletas emprestados. O clube apontava o percentual de participação nos direitos econômicos de cada atleta. Sobre Rafael Toloi, por exemplo, o clube tinha 25% dos direitos. A transparência seria completa se fossem divulgados os empresários donos dos percentuais. O Inter prometeu fazer isto. Não fez. Ainda.
Mais. Os dirigentes continuam acreditando que os relatórios que eles não querem ver divulgados não vazarão. Nos últimos anos divulguei uma dezena deste tipo de relatórios reservados. Alguns provocaram o constrangimento e um deles até acabou num processo que lembrou os tempos da Inquisição contra um conselheiro.
Há anos bato na mesma tecla: quanto maior a transparência, menos suspeitas. Mas não vale apenas a transparência oficial, aquela que atende ao desejo da gestão. Tem que ser ampla e irrestrita.