O lançamento de “G.E. Tupi, sonho de guris & outras histórias de Petropolis” será na próxima terça-feira, dia 23, no Bar e Restaurante São Rafael, na avenida Protásio Alves, 2720.
Os autores ficarão à disposição a partir das 17 h e até o último autógrafo.
No local haverá um ponto de recolhimento de cobertores, produtos de higiene pessoal e alimentos, em parceria com o Gabinete da Primeira-Dama de Porto Alegre.
Confira o primeiro capítulo.
"Em 27/06/1961, uma terça-feira, alheios à efervescência político-militar em Brasília na fase final de um breve mandato de Jânio Quadros, três amigospré-adolescentes, Flávio Dutra, Tadeu Dutra e Piero D’Alascio, frequentadores da Praça Tamandaré, no Bairro Petrópolis, em Porto Alegre, fundaram um time de futebol, o Grêmio Esportivo Tupi.
Sua primeira sede ficava na Av. Montenegro, 82, residência da família Dutra, que tinha dois de seus membros, Flávio e Tadeu, como fundadores, além de atletas e cartolas do clube.
Posteriormente, a família Dutra atravessou a Protásio, mudando-se para a Rua Ivo Corseuil, 71, e o Tupi foi junto. No novo endereço havia casa maior, pátio maior, tudo melhor e maior, e, desativado, um velho galinheiro, que foi gentilmente cedido pelo Cel. Dastro e D. Thélia para sediar o clube.
Abstraindo o cheiro de galinhas que ali viveram, e alguma pena que restara aqui e ali, a sede serviu muito bem às necessidades do Tupi, por longo tempo. Grandes planos foram pensados, e decisões estratégicas foram ali tomadas.
Mas nem tudo era consenso entre os jovens dirigentes. A certa altura da trajetória inicial do clube, seu co-fundador Tadeu Dutra abriu uma incontornável dissidência por não aceitar a palavra “Grêmio” na denominação do Tupi. Colorado doente, queria trocá-la por outra qualquer, que não lembrasse o tricolor do Olímpico. Como não houve consenso na diretoria formada por dois gremistas e um colorado, Tadeu retirou-se da direção, mantendo apenas suas atividades de jogador.
A partir de então, nos campeonatos disputados nos canteiros gramados da Praça Tamandaré ele passou a comandar um quinteto que batizou como Internacional Esportivo São José, para contrapor ao Grêmio Esportivo Tupi. Quem conhece o Tadeu sabe que fazia isso por pura birra e se divertia com isso. Talvez não quisesse ser cartola, mesmo.
O sonho dos guris que fundaram o Tupi era crescer e jogar num campo oficial, mas não em qualquer campo oficial, e sim no campo da Praça Tamandaré.
Antes de chegar aos campos oficiais, como o da Praça Tamandaré, do Ararigbóia e outros, o Tupi iniciou jogando nas calçadas, nos paralelepípedos das ruas e nos gramados das praças.
A fase seguinte foram os campinhos relativamente gramados, que eram terrenos baldios. O mais famoso e pitoresco deles era o Triângulo cujo formato era esse mesmo, um triângulo com lados desiguais, que a escola nos ensinou que se chamava de triângulo escaleno. O problema é que, com as goleiras nas pontas do triângulo, o jogo sempre afunilava pelo meio; nem precisava ponteiro.
O “Triângulo” estava localizado na confluência da Av. Montenegro com a Av. Bagé, reduto dos irmãos D’Avila, o Nelson e o Newerton (Budi).
O desejo da gurizada concretizou-se mais rapidamente do que eles imaginavam: com três anos de existência o Tupi já jogava no campo oficial da Praça Tamandaré, também conhecido
como campo do Bagé1. Isso criou um espécie de euforia nos jogadores, torcedores e dirigentes, levando a auto-estima e o orgulho às alturas.
O ponto principal de encontro e dos jogos do Tupi passou a ser a Tamandaré, em Petrópolis. O time, entretanto, jogava também nos inúmeros campos de várzea existentes à época, em Porto Alegre, muitos deles carecas de grama, alguns com tufos de gramado apenas nos quatro cantos.
Com a situação consolidada e plenamente reconhecido em Petrópolis, o Tupi logo se aventurou também em excursões pelo interior do Estado, em diversas cidades como Gravataí, Camaquã, Santo Antônio da Patrulha e outras. Dessas, a mais espetacular, foi a “Excursão a Santa Rita”, que ficou gravada no floclore de Petrópolis, e será relatada mais adiante.
Também jogávamos, volta e meia, no Parque Ararigbóia, que ficava bem próximo, do outro lado da Av. Protásio Alves, atrás do Cine Ritz. Ali vencemos muitas batalhas, sendo a maior — e mais brilhante —, a vitória por 2x1 sobre o até então imbatível time infantil do S. C. Internacional. O treinador do Inter era o lendário Jofre Funchal, que,juntamente com o não menos lendário Abílio dos Reis, descobriu e lapidou centenas de craques na várzea, a partir das categorias “mirim” e “infantil”, os termos da época para as equipes sub de hoje.Mais adiante tratamos deste jogo com detalhes.
Mas o ápice, o ponto mais alto, inimaginável mesmo para os mais sonhadores, foi o inesquecível jogo contra os infanto-juvenis do Grêmio, numa pré-preliminar em pleno Estádio Olímpico, antes de um Grêmio X Palmeiras. Esse evento foi eternizado na crônica “Vaias no Olímpico” do Flávio Dutra.
Em relação aos clubes que disputavam campeonatos da Federação Gaúcha de Futebol e ligas independentes, acima referidos, a situação de times como o Tupi era precária. Vivíamos de rifas, colaborações, buquemeques e outros quetais. Mas o principal, o que empurrava o barco, era o nosso apaixonado trabalho voluntário.
No início da vida do Tupi só conseguíamos comprar camisetas brancas com gola “V”. Para colori-las, fervíamos essas camisetas por um bom tempo com o corante Guarany. Os números, quando tínhamos, eram desenhados em plástico, recortados e costurados à mão. Quase sempre pelas nossas mães. Desnecessário dizer que a cada lavagem depois dos jogos as camisetas iam desbotando, umas mais, outras menos, o que dava um efeito surreal quando estávamos em campo.
Uma das nossas maiores alegrias foi quando pudemos comprar o primeiro terno de camisetas do Tupi na Loja Cauduro e as meias na Sparta, que eram especializadas em artigos esportivos. As camisetas eram verdes com golas e borda das mangas brancas, mas apenas 10 mais a do goleiro.
As dificuldades,na época, não eram poucas. Uma delas eram as “butinas”, as chuteiras daquele período. Além de serem de couro duro e pesadas, tinham travas fixadas com pregos. À medida que as travas iam ficando gastas os pregos entravam na sola das chuteiras, furavam as meias e os pés dos atletas. Também representavam perigo para as canelas dos adversários. Virou praxe antes dos jogos ver os atletas batendo os pregos com um martelo ou, na falta, até com pedras.
Depois surgiram as “Gaeta”, chuteiras de luxo para a época. Só que nenhum de nós tinha “bala na agulha” para comprá-las.
Uma especial curiosidade é que o Tupi e alguns outros times do nosso padrão tinham tão somente 10 camisetas. Assim, quando havia substituição o atleta que entrava era obrigado a abraçar todo o suor e a catinga do substituído.
As bolas também eram um capítulo a parte. Feitas com couro grosso, pesadas quando secas e mais ainda quando chovia. Times como o Tupi geralmente tinham uma só bola, bem gasta (às vezes faltava o revestimento de couro em quase todos os gomos), e para aumentar sua vida últil, o Beto — muito zeloso — conseguia um naco de gordura animal no açougue, para “engraxá-la”.
Os vestiários da Praça Tamandaré eram por demais espartanos. Acanhados, mal comportavam os jogadores. O chuveiro — um único para todo o time — era um cano de meia polegada que saía da parede e jorrava água fria fosse inverno, fosse verão.
No inverno, era um convite a ”matar” o banho! Mas, no verão, depois de um jogo debaixo do sol das duas da tarde ou no campo embarrado aquele “chuveiro” era muito bem-vindo.
UM SUSTO NOS JOGADORES DO INTER
Nos campeonatos municipais promovidos pelo Serviço de Recreação Pública da Prefeitura era comum jogarmos contra times das categorias inferiores, infantis e infanto-juvenis, da dupla Grenal. Um dos enfrentamentos contra o Inter, treinado pelo grande descobridor de talentos Jofre Funchal, foi em novembro de 1967, no campo do Parque 1º de Maio, no IAPI.
Foi um jogo duríssimo, que terminou empatado em 1 x 1 no tempo normal, com vitória colorada nos pênaltis, por 5 x 4. A partida valia uma vaga para a fase seguinte e o Tupi acabou desclassificado. Mas empatar contra o Inter era uma façanha que mereceu muitas comemorações da grande e ruidosa torcida que levamos ao IAPI. Na época a gurizada do Tupi fazia uma coleta entre todos os simpatizantes e alugávamos um microônibus da Transportes Sentinela para conduzir a delegação e parte da torcida, aí incluída uma banda e seus instrumentos de percussão. E assim chegávamos cheios de bossa, altivos e motivados, nos campos adversários. Pois ocorre que após o embate contra o Inter, no retorno para Petrópolis, encontramos seu Jofre, humildemente cuidando do saco do uniforme, e mais alguns jogadores colorados à espera do ônibus numa parada do IAPI.
— Para! Para! Para o ônibus que nós vamos dar uma carona para esses maloqueiros do Inter, alguém gritou.
O microônibus já estava lotado de jogadores e torcedores, a batucada e as bebidas corriam soltas, mesmo assim abrimos espaço para os caronas, que entraram sestrosos. Era a hora da desforra. Logo começaram as provocações: — Agora vocês vão levar um pau, ouviu-se lá do fundo. — Vocês não vão sair vivos desta, ameaçou outro. — Ganharam no jogo, mas vão perder na briga, prometeu mais alguém.
Seu Jofre sorria amarelo e os guris colorados arregalavam os olhos, assustados, cada vez que um dos nossos gritava alguma coisa ou ameaçava partir para a agressão. Na verdade, tudo não passou de uma brincadeira agressiva, de muitas ameaças e nenhuma ação. E a delegação colorada foi levada até seu destino sem maiores percalços. Estávamos por demais eufóricos com o resultado para provocar confusões. A carona, com toques de humilhação ao grande Inter, era a melhor revanche para os brancaleones de Petrópolis.
CLASSIFICADO PELO FARDAMENTO
A carência dos times do padrão do Tupi era tão grande que, certa vez, num campeonato administrado pelo SRP — Serviço de Recreação Pública da Prefeitura, chegou-se a um impasse. Havia 4 times disputando a competição, no sistema mata-mata, em 2 partidas, uma no campo de cada um. Ao término da rodada de ida, aconteceu que um dos times teve seu fardamento roubado e assim não poderia entrar em campo. A solução da Prefeitura foi classificar o Tupi que na fase anterior não tinha se classificado, mas tinha o melhor fardamento dentre os desclassificados. De nada adiantou, pois fardamento não ganha jogo e acabamos desclassificados nessa fase.
TAMANDARÉ X ARARIGBÓIA, A GRANDE RIVALIDADE
O grande rivaI do Tupi e dos times baseados na praça Tamandaré eram as equipes que gravitacam em torno do Parque Ararigbóia, um campo em cada lado da avenida Protásio Alves, que cortava o bairro Petrópois. Originalmente o Ararigbóia era o campo do Sul Brasil, o mais antigo usuário do local. O equivalente ao Tupi era o Intervalo, que tinha a liderança do Cláudio Furtado, de tradicional família de políticos e gente da comunicação.
O Intervalo era constituído de uma gurizada de boa formação, educada, “bundinhas” como nós desdenhávamos, em contraste com a turma da Tamandaré, um bando de briguentos e arruaceiros, no limite da marginalidade, com exceções, entre as quais se incluem os fundadores e dirigentes do Tupi, embora haja controvérsias.
Jogo entre os times das duas praças era um clássico, cheio de provocações, lances ríspidos, torcidas incentivando a violência e muito trabalho para o coitado do sujeito que se aventurasse a apitar aquela verdadeira guerra. Entretanto, sobrevivemos todos, apesar de alguns jogos terem descambado para a pancadaria, dentro e fora do campo, durante e depois dos jogos, episódios hoje relembrados como folclore e próprios daquela época.
“BRIZOLA VAI VORTÁ!!”
Na Praça Tamandaré aparecia de quando em vez uma figura singular. Era um misto de treinador, massagista, roupeiro e cartola.
Era o Sílvio Carroceiro. Um figuraço que sempre chegava pilotando sua carroça e, murmurando instruções para o cavalo, estacionava cuidadosamente junto ao meio-fio.
Era mais assíduo no campo do Concórdia, mas transitava bem entre o pessoal da Tamandaré, e fazia sucesso com suas tiradas, que se incorporaram ao folclore sobre ele.
Como treinador suas orientações eram claras e pragmáticas:
— “baque tem que sê vir” (tradução: zagueiro tem que ser viril, chegar junto);
— “os arfe tem que apoiá mas tem que vortá” (os laterais tem que apoiar, mas tem que voltar).
— “Esprora as ponta e esprode!” ou “Crareia e esprode!”, eram as orientações aos ponteiros e ao centro-avante, para que, explorando as pontas, ou clareando a jogada, chutassem a gol.
Na política não deixava por menos, e profetizava:
— “O Brizola vai vortá e se os puliça vié nóis vamo metê bala neles!”
Só que, nessa época da então chamada Revolução o Brizola estava exilado no Uruguai e era proibido citar o nome dele aqui no Brasil, sob pena de ser detido para “esclarecimentos” no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Por isso, nós, os “esclarecidos”, achávamos que era um delírio do Sílvio, pois não havia a menor chance de o Brizola voltar ao Brasil.Pois não é que, em 06/09/1979, Leonel de Moura Brizola, voltou do exílio e retomou a política!
Cumpria-se a primeira parte da profecia do Sílvio Carroceiro! Nós todos, “os esclarecidos”, botamos o rabo entre as pernas, demos nosso prefixo e saímos do ar. Não ficamos para saber da segunda parte da profecia, pois caso houvesse tiroteio com a “puliça”, correríamos o risco de ir para o exílio, no caso, eterno.
SAUDADES DO PASSADO
Em determinado período o Tupi investiu também na formação de um time de veteranos, reunindo trintões e quarentões, como era comum entre a maioria das equipes varzeanas da época. A idéia continha uma estratégia maliciosa: como não tínhamos dinheiro para renovar nossos fardamentos, imaginávamos que os mais velhos poderiam de alguma forma contribuir generosamente para manter o time da gurizada. Um detalhe é que os nossos “veteranos” estavam na faixa dos 25, no máximo 30 anos, mas todos trabalhavam, alguns ganhavam bem e eram potenciais mecenas.
Marcamos o jogo de estréia dos veteranos para um domingo pela manhã. Disciplinados e motivados, todos chegaram no horário e o que se viu, quando o t
Tamandaré, foi de dar dó. Os veteranos simplesmente não sabiam se posicionar em campo e, tal como em jogo de crianças, corriam todos atrás da bola. Naquele dia foi criado o esquema 10-1. A simples cobrança de um lateral virava uma ação dramática. Troca de passes, nem pensar. Saída de bola representava perigo de gol. Tentativas de parar os adversários com faltas era tiro pela culatra: nossos atletas é que ficavam prostrados no chão depois de quedas espetaculares, senão risíveis. O goleiro soltava todas as bolas que vinham a gol, pulava antes ou depois de a bola passar, uma trapalhada atrás da outra.
O almirante Tamandaré, que empresta seu honrado e glorioso nome à praça, deve ter se revirado na cova com as cenas patéticas que se desenrolaram no gramado. O adversário, formado por gente mais nova, não entendia bem o que estava acontecendo, mas começou a empilhar gols aproveitando a fragilidade da nossa defesa, a desarticulação do nosso meio campo e a inoperância do nosso ataque.
O mais difícil era fazer os veteranos reagirem. Havia uma inversão de papéis, porque o time estava sendo comandado fora do campo pelos jovens, enquanto os mais velhos simplesmente não atendiam às ordens e orientações. Foi impossível evitar algumas cenas dignas de comédia pastelão.
O pior estava reservado para o final. Num ataque do adversário, a bola foi alçada para a área, subiu, descreveu uma trajetória em arco e começou a descer. Foi quando o Telmo Dutra, irmão mais velho do Flávio e do Tadeu e teoricamente zagueiro central, berrou para os companheiros:
— Pode deixar, que esta é comigo!
A maldita da pelota caiu exatamente onde estava o beque, na entrada da área, só que bateu na canela dele, quando fazia um movimento de meia puxeta. Com isso, a bola subiu novamente, desviou em direção ao gol numa trajetória caprichosa, encobriu o atarantado goleiro Chico e morreu nas redes. Foi um dos mais belos gols já marcados em toda a história da Praça Tamandaré. Um gol de placa, só que gol contra
