Eis aqui uma conclusão: sou um profícuo criador de teses.
Dias atrás, numa transmissão ao vivo via Facebook do Correio do Povo, cometi uma confissão para espanto dos companheiros Carlos Corrêa e Amaury Knevitz Jr: o Brasil não nos ama.
Obviamente o assunto era a Seleção.
A conclusão tão arrasadora seguia uma linha lógica de raciocínio.
Disse, e provei, que quando o assunto é futebol os clichês seguem os mesmos do tempo da Idade da Pedra.
Nada mudou não mudando, se é que me faço entender.
Vejam uma crônica de Nelson Rodrigues em 1966.
Ali já jorrava o conspiracionismo que hoje me contagia:
“Vocês pensam que há algum disfarce, ou escrúpulo, ou mistério?
Absolutamente.
Tudo se fez e se faz com uma premeditação deslavada e na cara das vítimas.
A serviço da Inglaterra, a FIFA escalou oito juízes ingleses para os jogos do Brasil. A arbitragem foi manipulada para liquidar primeiro os bicampeões e, em seguida, os outros países sul-americanos. O jogo Inglaterra x Argentina foi um roubo. Uruguai x Alemanha, outro escândalo.”
Este futebol mercantil de hoje está assinalado numa coluna do magistral dramaturgo em 1958:
“Neste momento, o mundo todo está de olho no fabuloso escrete brasileiro. A toda hora e em toda a parte, há quem chegue e rosne ao nosso ouvido: — “Ofereceram tanto por fulano, tanto por cicrano, tanto por beltrano!” São os grandes clubes de fora, da Espanha, da Itália, da França, de não sei onde que acenam os seus milhões para os campeões do mundo. Mazzola já foi pescado. E há ofertas nababescas para Pelé, Vavá, Didi, Garrincha, etc. etc.”
Eis que chego onde quero chegar: precisamos de um outro olhar sobre o futebol.
Alguma coisa importante está acontecendo debaixo do nosso nariz. Estou inclinado a afirmar que esta revolução reside numa traição: amamos o Brasil, sofremos com a Seleção, mas somos traídos por ela com um desdém repugnante.
Vou tomar como exemplo Neymar.
Alguém retrucará ao final dizendo que estou generalizando.
Sim, estou, mas a essência da tese não perde com a generalização.
Conheço brasileiros que jejuaram antes da estreia do Brasil na Copa da Rússia.
Outros, numa concentração de penitente, memorizaram jogadas geniais do nosso craque tupiniquim. Do bairro mais chique ao arrabalde o brasileiro incorporou devotamente a Seleção.
Eis que a Seleção entra em campo e os olhos do aflito torcedor não se fixaram nas chuteiras, camisetas ou na bola: o cabelo de Neymar reluzia espalhafatosamente roubando a cena. No jogo seguinte, outra melena surgia denunciando um excesso de preocupação com a jubinha.
Diz o ditado que "à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.
Ao divinizar a melena Neymar surgiu disperso, separado deste outro Brasil que ficou no Brasil entre rezas e promessas.
Confesso que me senti traído em depositar tantos anseios deslavados num jogador que representou melhor o seu cabeleireiro que a mim.
Eu e milhões de brasileiros.
Mas, mesmo enganado, sigo condescendente.
