Hiltor Mombach

Um título e seus personagens

Um título e seus personagens

Dias atrás escrevi uma coluna que levou o nome de “Fim do Mundo”. A última frase dizia assim: “Mas, e há sempre um mas em tudo, o mundo que terminou anteontem recomeça domingo. Isto, amigos, é o futebol!”.
Tratava da moribundez dos colorados após a derrota por 3 a 2 no Beira-Rio. Para eles, o mundo acabara ali. Conto hoje a história de como se deu a ressurreição, que culminou com o título do Gauchão, este que parecia perdido, através de personagens.
                                                                      xxxx

Falcão escalou o Inter no sistema chama-derrota. Precisava ganhar e entrou para perder. Está bem, serei condescendente: para empatar. Eram 28 minutos e o Grêmio já havia marcado, com os gremistas cantando “olé, olé”. Antecipava-se uma goleada. Em campo, o Inter lembrava um ditado do Barão de Itararé: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”. Neste exato momento, Falcão sacou do banco Zé Roberto, trocou de esquema e começou a ganhar. Três minutos depois, Zé Roberto serviu Damião, que empatou. Andrezinho viraria ao final dos 45 minutos e Zé Roberto, o fiador do título, o homem que saiu do banco para consagrar-se, sofreria penalidade aos 27 minutos do segundo, que D’Alessandro converteria.
                                                                 xxx

Não havia Sobis nem Cavenaghi no banco. Mas lá estava Zé Roberto, o predestinado. Eram 28 minutos quando o Inter sucumbia, os gremistas cantavam “olé, olé”, quando os narradores gritavam que o Grêmio estava com a mão na taça, quando um arco-íris coloriu o céu de Porto Alegre e o meia-atacante pisou no gramado do Olímpico. Eram 31 minutos quando Zé Roberto serviu Damião, que empatou. O empate desencadearia a reviravolta. Zé sofreria a penalidade que D’Alessandro converteria. Zé Roberto vergaria o Grêmio, desmontaria com o valente rival. O Zé fez a diferença.
                                                                 xxx

Foram três Gre-Nais eletrizantes. Um empate e uma vitória para cada lado. Com a bola rolando, 6 a 6. Nos dois clássicos decisivos, 5 a 5 e, nestes confrontos, Renan falhou em três gols. Levou cinco e falhou feio em três. Aos 35 minutos finais de ontem, quando os colorados festejavam num Olímpico de gremistas silenciosos, Renan cometeu uma falha que seria inexplicável não fosse Renan seu autor, ele, useiro e vezeiro em comprometer. Ao entregar o segundo gol ao Grêmio, encaminhou a decisão para os cardiologistas, da marca do pênalti. Ali, garantiu a taça, com três defesas em sete chutes. De vilão a herói em minguados minutos.
                                                                     xxx

Os colorados lotaram seu espaço. Falcão afirmou que eles fizeram a diferença e agradeceu o incentivo. O que estava quase perdido, após os 3 a 2 do Beira-Rio, pareceu irremediavelmente perdido com o Grêmio inaugurando o placar no Olímpico. Mas os colorados berraram, gritaram e foram premiados. Resistiram ao “olé, olé” do rival, transformado no final num tiro pela culatra.
                                                                       xxx

Mumificado por muitos, e veterano Índio foi o xerifão da zaga colorada. Bateu, apanhou, comandou e mostrou que, aos 36 anos, ainda está para nascer o seu substituto, que está longe a sua aposentadoria por falta de futebol e fôlego. Índio, até ontem um dos relegados de Falcão, chegou ao seu 11º título no Inter.