Virgílio Elísio: "Preciso de que o ano tenha 13 meses. Só assim paro o Brasileiro nas datas Fifa. A solução para 2013 com mais jogos ainda é uma só: o suicídio”í
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Do blogue de COSME RÍMOLI
Havia muito tempo que eu buscava a chance... E ela surgiu na minha frente em Recife. De terno, gravata e cara de poucos amigos. Surgia o diretor de competições da CBF, Virgílio Elísio. O homem responsável pelo caótico calendário do futebol brasileiro. Mesmo com tanta confusão, é considerado um gênio. Já era assim com Ricardo Teixeira e agora com José Maria Marin. De acordo com esses presidentes da CBF, só Elísio para encaixar tantos jogos. Principalmente os da elite do futebol brasileiro, os da Série A e os da seleção, por exemplo. É graças a ele que só na segunda-feira não há futebol no País. Virgílio dá raríssimas entrevistas. Sabe que há motivos de sobra para questionamentos. As poucas que já deu mereceram declarações históricas. Como essas em 2008. "Não é correto dizer que a Globo manda no futebol. Ela tem um acordo, que está ligado ao retorno dos anunciantes. É preciso entender." Questionado na mesma entrevista sobre o porquê de tantos jogos do Flamengo ao vivo, explicou. Foi direto ao jornal A Tarde, da Bahia. "É pule de dez’ (audiência garantida para a Globo). Agora, o que nós fazemos é analisar, criticar. E em alguns casos, sugerir mudanças quando achamos que há exagero." Ou seja: Virgílio deixa claro há anos que o calendário é feito em função da Globo. Por isso que o brasileiro não é adaptado ao europeu. O que tornaria tudo melhor para os grandes clubes. Abrindo inclusive a possibilidade de excursões, amistosos e mais dinheiro em caixa. Só que a Globo não permite por causa de sua grade de programação. Seu calendário para os anunciantes vai de janeiro a dezembro. Teria de mudar de julho para julho só no futebol. Isso seria muito complicado. Os executivos da emissora não querem e travam a CBF. Isso é o principal. Mas há ainda outros aspectos importantes para Virgílio responder. Avesso a repórteres, ele se viu encurralado no corredor do hotel Transamérica. Foi essa a rápida conversa que aceitou travar comigo. Mas bastou. "Senhor Virgílio, por favor, pode responder algumas perguntas sobre o calendário?" Ele se vira para mim entre assustado, irritado, indignado. Surpreso, aceita falar. Mas deixa claro que não será simpático. Finjo que não percebo. "Tudo bem, me diga. Olhe que estou com pressa." "Tudo bem, é rápido. Vou direto ao assunto. Por que o Campeonato Brasileiro não para durante as datas Fifa? O mundo inteiro para. Os nossos clubes não são sacrificados? Os jogadores da seleção também?" Ele me olhar como se tivesse xingado a sua família. "Olhe, é muito simples. Se a Record me conceder a graça de que o ano passe a ter treze meses, eu paro o Brasileiro. Basta isso. Vamos combinar assim? Me dê um ano com treze meses e os clubes não jogam em data Fifa." "Desculpe, Virgílio. Estou falando sério..." "Eu também. Não há a menor condição de parar o Brasileiro. As datas estão todas preenchidas. Tenha ou não tenha jogos da seleção brasileira. Esta é a realidade." "Mas Virgílio, como chegamos a essa situação? A CBF não vê que são jogos demais no ano? O calendário está inchado demais por causa da tevê. É preciso partidas quase todos os dias para preencher sua programação." "Veja bem, é você quem está falando isso, não me comprometa, por favor. O calendário da CBF é aprovado pelos clubes brasileiros. Ninguém toma decisão sozinho, de cima para baixo. Se há tantos jogos, como você diz, os clubes também querem. Reclamar depois é fácil. Culpar a CBF. Estamos fazendo o que dá para fazer." "Outro grande culpado por esse caos não é o campeonato estadual? Nenhum país do mundo tem esses torneios que não levam a nada. E o pior é que as federações querem que eles durem o máximo que puder. Que tal diminuir as datas para esses estaduais sem sentido? Será melhor para o futebol do Brasil..." "Olhe, peço de novo para não me comprometer. Essas palavras são suas. Não vou falar nada sobre campeonato estadual, não. Tenho as minhas ideias, minhas convicções. Mas não vou tornar públicas. Porque não me interessa, me desculpe. As coisas são como são." "Pode ficar tranquilo, não vou lhe comprometer. Quem considera os campeonatos estaduais longos e insanos sou eu. Virgílio, mas o que é ruim agora vai ficar desesperador em 2013. A Copa do Brasil foi esticada até o final do ano. Clubes desclassificados da Libertadores vão disputá-la também. No segundo semestre do próximo ano só há uma quarta-feira sem futebol. Será uma loucura. Qual a solução para tantos jogos a mais?" "Sinceramente? O suicídio. Não há o que fazer. Agora você me desculpe. Tenho de ir embora. Só não me comprometa." O deixo subir no elevador. Chego a uma importante conclusão. Virgílio não tem o menor poder neste jogo de interesses. A TV Globo precisa de o máximo de jogos na sua tela. Quase sempre com partidas de Flamengo e Corinthians, por causa da audiência. O calendário foi inchado por causa da Fox Sports. A emissora tem o direito de transmitir a Libertadores e a Sul-Americana. A SporTV não pode ficar mostrando só o Brasileiro. Sua grade é muito grande. Não tem cabimento ficar insistindo com showbol. Então a Copa do Brasil foi esticada até o final do ano. 2013 passa a ter os longos estaduais, Libertadores, a esticada Copa do Brasil, Brasileiros. Mais amistosos da seleção e Copa das Confederações. E talvez Mundial de Clubes, caso uma equipe brasileira vença a Libertadores. Tudo precisa se encaixar. Não desagradar à Globo, à CBF, aos clubes e aos sindicatos dos jogadores. São muitos patrões. É compreensível que Virgílio Elísio pense em suicídio...