Hiltor Mombach

Voy a te mastigar en la cancha!

Voy a te mastigar en la cancha!

Do blog do Nake  esporteonline.com/blogdonake/
Voy a te mastigar en la cancha!
Me mandaram esta ficção envolvendo o Guiñazu e achei fantástico, só não sei quem é o autor. Se souberem me enviem o nome do cidadão, confiram.

"Voy a te mastigar en la cancha!"

Por Andreas Müller

04/08/2008

Já contei como Guiñazu se concentra para as partidas do Inter?

O processo ocorre em um porão do Beira Rio. Todas as segundas-feiras, El Cholo é levado para uma sala escura que fica embaixo do almoxarifado do estádio. A única luz é de uma lâmpada febril que agoniza num canto, pendurada num par de fios que saem do teto. O ar é úmido como o de um frigorífico e nas paredes há rachaduras das quais verte uma água turva. Pois no meio dessa sala fétida há uma jaula. Uma jaula de canil, suficiente para prender um rottweiler. É lá que começa a concentração de Guiñazu.

O ídolo colorado chega à sala numa maca, ainda desacordado, recuperando-se da correria da última partida. É trancado dentro da jaula com as pernas comprimidas contra o peito, a cabeça mal apoiada nas grades. Poucos minutos depois, ele desperta. Ao seu redor, o cenário é digno de um filme de terror: dois sujeitos encapuzados, ambos vestindo a camiseta do próximo adversário do Inter, caminham em torno da jaula carregando instrumentos ameaçadores. Sem perder tempo, um deles dá uma marretada nas grades. Guiñazu sente o impacto do golpe nas pernas e nos braços. O outro sujeito se aproxima e joga água gelada no volante colorado, que retesa os músculos num susto – antes de sentir mais uma marretada.

Assim prossegue a sessão de maus tratos, sem tréguas, dias a fio.

Pouco antes de começar a partida, Guiñazu já está babando de raiva. Ignora as marretadas e apenas rosna quando sente a água gelada se esparramando em suas costas. Até que a porta da sala se abre: é a comissão técnica – toda ela, do técnico Tite ao roupeiro Gentil Passos. O médico Luciano Ramires é o primeiro a se aproximar. Ele observa Guiñazu de longe, tentando monitorar seu estado de saúde. Faz-lhe uma única pergunta:

– Quer algum remédio para a dor ou algo assim?

El Cholo responde:

– No, no.

Ramires então sorri. Está tudo dentro da normalidade.

O grupo ergue a jaula e começa a transportá-la até o vestiário. Na saída, Guiñazu aproveita um momento de distração e cospe nos encapuzados. E então berra, com olhos famintos:

– Voy a te mastigar en la cancha!

Ao chegar no vestiário, El Cholo permanece preso. Ninguém ousa chegar perto. Gentil Passos alcança-lhe o fardamento à distância. Camiseta, calção, meias, caneleiras... Uma a uma, as peças chegam até a jaula penduradas num cabo de vassoura. Guiñazu se contorce, arranha joelhos e braços, mas consegue vestir o uniforme colorado.

Já na sala da preleção, os jogadores do Inter batem bola em torno da jaula. Alguns deles se aproximam e tentam puxar conversa com Guiñazu, sempre muito amáveis. Magrão, por exemplo, comenta que sentiu falta do amigo durante os treinos. Clemer faz algumas brincadeiras e arrisca a se recostar nas grades, como se fosse um velho parceiro de jaula. Edinho diz que está ansioso para ver Guiñazu rasgando a bola. "E os adversários também!", brinca ele, sorrindo. Por entre as grades, é possível perceber que o argentino também ri.

Eis que chega o motivador Evandro Motta. Só ele tem a chave da jaula. Pudera: ele é o único profissional capaz de determinar o exato momento em que Guiñazu pode ser solto com segurança. Geralmente, esse momento ocorre um minuto antes de o Inter entrar em campo. É quando os jogadores já estão enfileirados no túnel, esperando o sinal para subir as escadas e entrar no gramado. A jaula de Guiñazu permanece no fundo do corredor, no final da fila. Evandro Motta caminha até lá, agacha-se ao lado do jogador e sussurra-lhe algo mais ou menos assim:

– Guina, lá dentro do campo tem 11 pessoas iguaizinhas àquelas que passaram a semana inteira te fazendo mal. Até vestem a mesma camiseta!

Guiñazu rosna, a jaula treme.

– Em compensação, tem outras 50 mil nas arquibancadas que te amam, te idolatram e te têm como um exemplo de vida. Essas 50 mil pessoas te querem tão bem quanto os teus companheiros de time...

Guiñazu arregala os olhos, excitado.

– Tu sabe o que precisa fazer, né?

– Si, si...

Então Guiñazu é solto.