Há um Século no CP

A polícia paulista enfim captura o célebre Gino Meneghetti

Da edição de 15 de junho de 1926, terça-feira, n. 139

O bandido italiano protagonizou roubos ousados e fugas espetaculares e sua carreira criminosa atraía a atenção da mídia
O bandido italiano protagonizou roubos ousados e fugas espetaculares e sua carreira criminosa atraía a atenção da mídia Foto : CP Memória

“S. Paulo acaba de ser agitada por um acontecimento verdadeiramente rocambolesco. Já o serviço telegráfico dos jornais noticiou amplamente a prisão do temível bandido Gino Meneghetti, que trouxe durante algum tempo a população da capital paulista em contínuo sobressalto. Foram tais as façanhas praticadas pelo famigerado ladrão e de tal quilate a sua audácia, que a polícia daqui, determinado momento houve, que se viu quase impotente para dar-lhe caça. O espírito público andou, durante vários dias, vivamente preocupado com a teatral prisão de Meneghetti, que, pelas proporções assumidas, só pode ser comparada às do famoso caso Bonot, de Paris. Por todos esses motivos, enviamos mais os detalhes abaixo para que os leitores do ‘Correio do Povo’ possam avaliar o traço audacioso das façanhas praticadas pelo facínora que, em despedida à sua liberdade, assassinou o destemido comissário de polícia dr. Waldemar Doria, quando este dava ao bandido, na própria casa, voz de prisão.

A personalidade de Meneghetti e sua vida — Gino Meneghetti que, segundo informações prestadas à polícia paulista, andou vários tempos no Rio Grande do Sul e é um ladrão-demônio, de triste popularidade. Audacioso, atrevido mesmo, criminoso que fez a aprendizagem da delinquência nos grandes meios europeus, Meneghetti não podia tolerar que tão de perto o acompanhassem e mais ainda que se pudesse vir a custodiá-lo, depois dos desassombrados cartéis lançados por ele à polícia. Meneghetti é, sem dúvida alguma, um degenerado revoltado contra tudo e contra todos. E essa revolta íntima que lhe crepita no cérebro eivado de ideias anarquistas sobre o problema social, foi gerada, como ele o declara, por uma grande injustiça de que se diz vítima, que lhe amargurou os dias da existência desde a idade dos dezesseis anos — revolta que se acentuou e se expandiu em atos de verdadeira loucura, quando ao criminoso primário que era impuseram, em nome da sociedade, penalidades excessivas que julgou e que lhe tornaram inúteis quaisquer tentativas para regenerar-se. Se não o julgassem com o rigor das leis — pensa Meneghetti — ele poderia tornar-se um cidadão honrado. O seu lema: ‘roubar de todos, todos os dias…’. [...]

Meneghetti desafiou várias vezes a polícia — Meneghetti não se cansava de enviar cartas aos jornais, motivo pelo qual quase todos pensavam que o bandido assim procedia no intento de se cobrir de celebridade, principalmente pelo fato de lançar o bandido verdadeiros desafios à polícia paulista, à qual se referia em termos desabusados. [...]

Ideias de petroleiro — O criminoso, para satisfazer e amainar os sentimentos de revolta que dia a dia fervilhavam no cérebro com maior intensidade, não se limitava a praticar crimes; lia e relia, com fervoroso entusiasmo, panfletos subversivos. Tomando Lênin por farol, observava-lhe a doutrina nos pontos que lhe convinha, chegando ao extremo de acreditar virtude o que aos olhos da sociedade hodierna não passa de crime. E é assim que Meneghetti se arroga o direito de subtrair para si, exclusivamente, o que pensa dever ser repartido fraternalmente por todos que trabalham e só pelos que trabalham. ‘Sou adepto do amor livre e, aliás, não precisava dizê-lo, pois o meu ‘casamento’ com Concetta Tovani o atesta’. Diz Meneghetti que também lê livros de criminologia, que conhece as obras de [Cesare] Lombroso e [Enrico] Ferri [famosos criminologistas italianos]. Gosta de romances policiais e delicia-se por se ver a toda a hora retratado em figuras rocambolescas, pintadas quase sempre em situações que enaltecem o bandido e ridicularizam a polícia. O perigoso assaltante é também meio rábula, pois conhece disposições dos códigos e diz abertamente que a polícia, em geral, as infringe…

Está, enfim, São Paulo livre de um perigoso facínora, que trazia a população atormentada como um formidável pesadelo.”

Amleto Giotto Sabindo Forestal Menichetti nasceu na Toscana em 1878. Foi preso pela primeira vez ainda na Itália, aos 11 anos. Emigrou em 1913 para o Brasil. A polícia italiana enviou relatório à brasileira informando o passado criminoso de Meneghetti, classificando-o como “elemento perigoso”, que por diversas vezes atentou contra a propriedade e a polícia. No início da década de 1920 esteve em Porto Alegre, onde obteve das autoridades carteira de identidade nova com nome falso. Percorreu diversas cidades do Brasil, do Uruguai e da Argentina. Ficou famoso pelas fugas espetaculares e os roubos ousados. Foi preso no dia 4 de junho de 1926. Após mais diversas décadas de crimes e fugas, morreu em 1976, com 98 anos de idade. É considerado um dos maiores bandidos da história brasileira.

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Charco

“Em homenagem ao bravo almirante Barroso, foi dado o seu nome a uma das ruas do 3° distrito desta capital. Esta via pública liga, entre si, na menor distância, todo o alto ‘Caminho Novo’ [rua Voluntários da Pátria], concentração da maior parte dos estabelecimentos de depósitos de materiais para construção aos tão florescentes bairros de Higienópolis, Mont’Serrat e Moinhos de Vento. Pena é que tal rua não tenha utilidade pública devido ao lastimável estado de descuido e charco em que se encontra, impossibilitando absolutamente o trânsito de veículos de toda espécie. Já servida há mais de 2 anos pela rede de água e esgotos, possui também a nova numeração predial, mas não possui ainda o passeio para os pedestres, muito menos iluminação de qualquer espécie.”


O dia 15 de junho na história

  • 1300 A cidade basca de Bilbao é fundada.
  • 1667 A primeira transfusão de sangue conhecida é realizada pelo médico francês Jean-Baptiste Denys.
  • 1844 O químico amador americano Charles Goodyear recebe a patente da vulcanização, método de enrijecimento da borracha inventado por ele.
  • 1896 Abalo sísmico na costa do Japão ocasiona tsunami que destrói cerca de 9 mil casas e mata ao menos 22 mil pessoas.
  • 1919 Os aviadores militares britânicos John Alcock e Arthur Brown completam a primeira travessia transatlântica sem parada ao aterrizar na Irlanda.
  • 1920 Após plebiscitos populares, a região norte de Schleswig é transferida da Dinamarca à Alemanha.
  • 1920 Nasce em Roma o ator, comediante, cantor e compositor italiano Alberto Sordi.
  • 1944 O político canadense Tommy Douglas forma o primeiro governo socialista da América do Norte após vencer as eleições regionais de Saskatchewan.
  • 1962 O Acre é elevado a estado brasileiro.
  • 1964 Nasce em Frederiksberg o ex-jogador dinamarquês Michael Laudrup, um dos melhores de sua geração.
  • 1969 Nasce em Karlsruhe o ex-goleiro alemão Oliver Kahn, capitão da Alemanha na Copa de 2002.
  • 1970 Começa o julgamento de Charles Manson pelos assassinatos, entre eles o da atriz Sharon Tate, cometidos pelo seu culto no ano anterior.
  • 1972 Ulrike Meinhof, cofundadora da organização guerrilheira alemã Facção do Exército Vermelho, é capturada pela polícia em Langenhagen.
  • 1977 Realizadas as primeiras eleições democráticas na Espanha após a morte do ditador Francisco Franco.
  • 1985 O quadro “Danaë”, do pintor holandês Rembrandt, é atacado com ácido sulfúrico e sofre dois cortes a faca realizados por um homem posteriormente julgado insano.
  • 1992 Nasce em Nagrig o jogador egípcio Mohamed Salah, um dos melhores da atual geração.
  • 1996 O Exército Republicano Irlandês (IRA) explode caminhão-bomba no centro de Manchester, na Inglaterra, causando grande destruição e ferindo 200 pessoas.
  • 2019 Morre em Roma o diretor, produtor e político italiano Franco Zefirelli.
  • 2022 A Microsoft aposenta o Internet Explorer após 26 anos em favor de seu novo navegador, Microsoft Edge.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios