Há um Século no CP

Argumentos para o debate sobre o profissionalismo no futebol brasileiro

Da edição de 3 de setembro de 1926, sexta-feira, n. 208

Artigo do Diário da Noite, de São Paulo, trazia a manifestação de cronista favorável ao profissionalismo
Artigo do Diário da Noite, de São Paulo, trazia a manifestação de cronista favorável ao profissionalismo Foto : CP Memória

“O ‘Diário da Noite’, de São Paulo, está fazendo uma original reportagem sobre as possibilidades da introdução do profissionalismo no Brasil e da fundação de um clube de profissionais. Com respeito a esse inquérito, escreveu o antigo cronista dr. Américo Netto uma carta que, pelo modo por que está explanada, merece sua transcrição, o que fazemos.

‘Sr. redator do ‘Diário da Noite’. Estou acompanhando com muito interesse o debate suscitado nas colunas desse atraente jornal sobre a conveniência de se adotar o profissionalismo em S. Paulo, principalmente para o foot-ball, escolha que se explica, decerto, por ser este o único esporte capaz de garantir aos seus praticantes ordenados realmente compensadores. Permita-me assim que traga o concurso da minha desvaliosa opinião para esse palpitante assunto, que julgo será melhor entendido se fizermos uma excursão pelo tempo, no passado, procurando a origem da distinção entre amadorismo e profissionalismo. Façamo-la, pois. Essa distinção criaram-na os ingleses, inspirados exclusivamente pela sua tendência aristocrática, resquício ainda de uma sociedade onde predominam, visíveis, os fundamentos da organização medieval. Fizeram-na alguns universitários, filhos de ricos, ociosos, portanto, para se apartarem dos esportistas mais pobres, que não tinham meios de praticar as atividades físicas sem receberem pelo menos algumas compensações mais simples, como despesas de viagem e estada para fins esportivos, indenização por ausência no emprego, etc. Foi, portanto, uma classificação feita por uma minoria privilegiada para satisfazer capricho passageiro. E isto numa época em que o esporte não se popularizara ainda, não se tinha tornado, como agora, a normalidade ativa das democracias modernas. Hoje, depois da grande guerra, que acentuou terrivelmente o valor de toda e qualquer especialização ao mesmo tempo que criou o senso das retribuições justas e proporcionadas, o amadorismo representa apenas uma relíquia. É um estado ideal que se opõe às condições e às exigências da realidade. Escrevemos, por exemplo, 13, 15 e 22 horas, mas ao falarmos nunca dizemos, porém, senão 1, 3 e 10 horas. Assim os amadores nominais. Falam que os profissionais são exigentes, fazem questão de ser bem pagos. O exemplo, entretanto, vem de cima. São os próprios dirigentes que, cobrando do público taxas cada vez mais altas pelos espetáculos em que os esportistas são elementos predominantes, dão a estes a ideia de participar dos lucros, pois ninguém quer trabalhar de graça! O apurado treino mesmo que se exige dos esportistas de mais destaque na sua especialidade é ainda um motivo para que eles tenham o direito de pretender e pedir compensações. Constitui uma série de esforços que por vezes se tornam sacrifícios, não se podendo, não se devendo, logicamente esperar que não sejam devidamente retribuídos. De momento a momento, a vida em geral vai se tornando mais difícil ou, por outra, a crescente elevação do padrão de existência cria necessidades e aspirações que precisam ser satisfeitas. Um bom esportista, pois, como homem de excelente inervação, de alguma cultura (no mínimo) e de certa sensibilidade, naturalmente tem ambições e muitas. Nada mais natural, portanto, do que procurar satisfazê-las no esporte como satisfaria no comércio, na indústria, na agricultura. Dar-lhe as oportunidades, portanto, de se valorizar, ao mesmo tempo que faz progredir o esporte em geral pela sua eficiência moral — o profissional verdadeiro é sempre um homem de responsabilidades — e técnica — o profissional é sempre um estudioso — é agir racionalmente, é compreender a natureza humana, dando-lhe o rumo que naturalmente tende a seguir. Nesta questão de amadorismo e profissionalismo, aliás, penso que o melhor caminho é o da despreocupação. Seja profissional quem puder, fique amador quem quiser. Assim sucede já entre nós, em São Paulo, quando ao esporte do tiro, em cujas leis e regulamentos nem sequer aparecem os termos profissional e amador. Ignoramo-los, simplesmente, evitando assim quaisquer distinções. Se um atirador encontrar quem lhe pague, melhor para ele, melhor também para o esporte do tiro. Não procuraremos saber como se arranjou para isso; é-nos indiferente conhecer que vantagens obtém ou deixa de obter. Profissional, meio-profissional ou amador, trata-se simplesmente de um caso de consciência, puramente íntimo, personalíssimo. Paro aqui, sr. redator, à espera de outros comentários e opiniões. O assunto é vastíssimo, comporta o desenvolvimento extraordinário. Quiçá possam as colunas do ‘Diário da Noite’ registrar outras opiniões, externadas com toda a franqueza como a minha, e teremos dado decerto um grande passo para a solução da questão. Creia-me, caro colega, seu dedicado. (a) Américo R. Netto’”

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Dia de pagamento

“Um telegrama ontem publicado neste jornal dizia que os senhores representantes da Nação no dia trinta compareceram em massa à Câmara... para receber o subsídio. Apesar de a tesouraria ter registrado número mais que suficiente para a sessão, a lista da porta não acusou ‘quórum’. A Câmara baixa não funcionou no último dia do mês. Com as carteiras recheadas, os ilustres paredros se espalharam pelos salões de cinemas, pelas portas das confeitarias e casas de chá, pelas calçadas da Avenida, a ver passar as legítimas representantes da elegância carioca, desfrutando de alma regalada e coração palpitante as delícias do ‘flirt’. Não há nada que disponha mais favoravelmente o espírito do homem para a alegria e o bom humor do que uma ‘bolada’ boa no fim do mês. Dissipam-se as tristezas, as apreensões desaparecem, a tristeza se muda em alacridade. Os pais da pátria tinham razões para fugir do recinto carregado de problemas graves, de questões a discutir. Um outro telegrama, do interior, publicado há poucos dias, informava que as forças aquarteladas numa cidade do Estado tinham recebido os soldos correspondentes ao mês de... fevereiro. É o eterno desacordo dos destinos humanos: os deputados, com o subsídio em dia, flanam alegremente ao sol da Avenida. Os soldados, que não dispõem dos mesmos recursos, que não recebem num mês o que ganha o deputado num dia de ‘sueto’, têm os seus soldos num atraso de seis meses. Como prova de equidade, como afirmação de princípios democráticos, não se pode exigir nada mais eloquente.”

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O dia 3 de setembro na história

  • 301 O microestado de San Marino, uma das menores nações do mundo e a mais antiga república ainda existente, é fundado na Península Itálica.
  • 1189 Ricardo “Coração de Leão” é coroado rei da Inglaterra na abadia de Westminster, em Londres.
  • 1260 Os Mamelucos derrotam os mongóis na Palestina, marcando a primeira derrota e a máxima expansão do Império Mongol.
  • 1658 Morre em Londres o estadista Oliver Cromwell, “lorde protetor” da Inglaterra e figura destacada na Guerra Civil Inglesa.
  • 1783 O Tratado de Paris encerra a guerra de independência americana entre a Grã-Bretanha e os EUA.
  • 1832 Escravos rebeldes colocam fogo na cidade de Paramaribo, capital do Suriname.
  • 1883 Morre em Bougival, na França, o escritor russo Ivan Turguêniev, autor de “Pais e Filhos”.
  • 1937 Fundada por Assis Chateaubriand em São Paulo a Rádio Tupi.
  • 1939 França, Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália declaram guerra à Alemanha após a invasão da Polônia.
  • 1940 Nasce em Montevidéu o escritor uruguaio Eduardo Galeano, autor de “Veias Abertas da América Latina”.
  • 1941 Nasce em Ufa o jornalista e escritor soviético Serguei Dovlátov.
  • 1943 Assinado na Sicília o Armistício de Cassabile, cessando as hostilidades entre a Itália e os Aliados na Segunda Guerra.
  • 1944 Anne Frank e sua família são embarcados da Holanda para o campo de concentração de Auschwitz.
  • 1950 Giuseppe “Nino” Farina se torna o primeiro campeão mundial de Fórmula 1 após vencer o GP da Itália, em Monza.
  • 1965 Nasce em Nova Iorque o ator americano Charlie Sheen.
  • 1971 O Catar obtém a independência da Grã-Bretanha.
  • 1976 A sonda Viking 2 aterriza em Marte e envia as primeiras imagens coloridas do planeta.
  • 1987 O presidente do Burundi, Jean-Baptiste Bagaza, é deposto pelo major Pierre Buyoya em golpe de Estado.
  • 1989 Morre em acidente automobilístico na Polônia o jogador italiano Gaetano Scirea, ícone da Juventus e um dos maiores defensores da história.
  • 1995 A multinacional de e-commerce eBay é fundada na Califórnia.
  • 2004 O cerco à escola de Beslan, na Rússia, após 31 terroristas manterem reféns termina com a morte de 334 pessoas, incluindo 186 crianças.
  • 2017 A Coréia do Norte realiza o seu sexto e mais poderoso teste nuclear.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios