“O alagamento do bairro de S. João [como se verá, o texto descreve área atualmente correspondente ao bairro São Geraldo, que há um século teve o seu desenvolvimento atrelado ao do bairro São João propriamente dito; apenas em 1949 a zona adquire sua denominação atual, centrada na paróquia São Geraldo, na avenida Farrapos, e em 1959 é oficializado por lei] em dias de chuva é um dos mais sérios problemas da administração local. Não é que a municipalidade não lhe tenha prestado atenção. Muito pelo contrário, despendeu ali várias dezenas de contos em escoadouros de águas. E foi justamente isso que piorou a situação daquelas ruas, chegando a interromper-lhe completamente o trânsito...
A incapacidade que orienta grande parte dos serviços municipais tem destas surpresas dolorosas.
A longa reportagem que hoje publicamos ilustrada de fotografias documenta o lastimável estado em que se encontram as ruas principais de S. João. O trânsito de pedestres realiza-se ali com grandes dificuldades, em certos trechos está interrompido o tráfego de veículos; o comércio, impossibilitado de efetuar as suas transações porque não há meios de comunicação e pela mesma razão grande número de famílias irremediavelmente encerradas dentro de suas casas; e por fim até uma casa de diversões foi obrigada a suspender os seus espetáculos porque as águas não lhe deixaram acesso possível.
Entretanto, o bairro de S. João, que conhece todas essas calamidades, concentra em suas artérias uma população laboriosa, de uma atividade febril, diligente e produtiva. Habita-o a grande maioria do operariado que faz a opulência da nossa indústria. A densidade de população criou-lhe a condição privilegiada, comum em tantas outras cidades, de uma vida à parte dentro da capital.
A paralisação prolongada de todas as atividades motivada pelas chuvas acarreta em tais condições prejuízos que são fáceis de avaliar. A municipalidade tem a obrigação de prestar ao florescente bairro o cuidado a que lhe dá direito a sua real importância.
À procura de um repórter — Ontem, cerca das 18 horas, dois cavalheiros elegantemente trajados entram pela nossa redação pedindo a presença urgente de um ‘repórter’ no arrabalde de S. João.
Perguntamo-lhes então para que era necessitada a comparecência.
— Um crime? Um desastre impressionante? — inquirimos.
— Não, não se trata de nada disso — responderam-nos ambos imediatamente.
— Então, de que se trata?
— De um assunto que entende com uma grande parte da população de um dos mais importantes bairros da nossa capital. Em poucas palavras e para não perder mais tempo: viemos convidá-los para verificarem o estado em que ficam várias ruas do arrabalde de S. João, onde habitamos, quando dá qualquer chuva como a de hoje.
Acedendo ao convite, partimos com os dois cavalheiros referidos.
Em demanda de S. João — Na viagem, ambos nos contaram os suplícios por que têm passado ultimamente, com as suas casas cercadas pelas águas desde que se manifesta a chuva. São fatos que se vêm repetindo constantemente, trazendo também alarmados os moradores desta ou daquela rua inundada.
Depois de uma excursão de quinze minutos em automóvel, chegamos à rua Visconde do Rio Branco, que, partindo da rua Cristóvão Colombo, vai encontrar-se com a avenida Eduardo [atual avenida Presidente Franklin Roosevelt]. Logo na frente da sede da Sociedade Humberto I, nela localizada, havia um grande lençol d'água que chegava a cobrir a calçada. Era a primeira dificuldade que encontrávamos no bairro de S. João.
Nunca, porém, imaginávamos que verdadeiras lagoas iríamos encontrar dali a pouco. Continuando a rodar o automóvel, chegamos a ver coberta de água a rua Quintino Bandeira, a avenida Eduardo na extensão de mais de uma quadra e a rua Moura Azevedo em mais de duas quadras.
Na frente da Sociedade Gondoleiros — A sede da Sociedade Carnavalesca Gondoleiros fica, como se sabe, à avenida Eduardo, esquina da rua Moura Azevedo. No cruzamento destas ruas a água já subiu até a calçada, ameaçando invadir as casas comerciais de cada uma das esquinas.
As quatro casas têm tido, como é natural, prejuízos nos dias de chuva, pois ninguém pode atingi-las.
Expediente rendoso e oportuno — A água, além de cobrir a linha de bondes que corre pela avenida Eduardo em mais de uma quadra, impedia ontem o trânsito por ali de qualquer pessoa. Entretanto, vários menores souberam tirar proveito dessa situação difícil para os que tinham necessidade da passagem. Armaram, assentadas em caixotes vazios, diversas pontes e cobrando pela ‘passagem’ de qualquer pessoa 100 réis. Com esse expediente proveitoso, fizeram eles uma boa féria, graças à alagação do cruzamento das duas referidas ruas.
Duas canoas navegando na rua! — No mesmo automóvel, em companhia dos cavalheiros que nos convidaram para fazer o passeio aquático, entramos na rua Moura Azevedo. Ali a água já alcançava a soleira das portas das casas, sendo que as mais cercadas eram os negócios de Alberto Rapone e Guilherme Bomm, os quais há dois dias estavam com o seu movimento paralisado porque nenhuma pessoa podia atingi-los.
Mas o que mais nos chamou a atenção foram duas canoas que navegavam livremente, como no rio, e que eram tripuladas pelos menores Alfredo Roque e João Vieira. Não deixava de ser pitoresco o espetáculo a que se assistia, de duas frágeis embarcações construídas com poucas tábuas pelos moradores a fim de utilizá-las para sair de suas residências.
Em plena Veneza… — Estávamos admirados do que se observava. Era, de fato, lastimável a situação em que se encontravam os moradores das ruas já visitadas. Os cavalheiros que nos acompanhavam, sempre solícitos em informar-nos sobre o estado de abandono a que se tem votado nos últimos tempos o bairro de S. João, disseram-nos a ‘una voce’:
— Vamos ver Veneza, em ponto menor...
Realmente, dali a pouco chegávamos à avenida Minas Gerais, com três quadras completamente alagadas, à avenida Berlim com duas, como as avenidas Veneza e Pernambuco. Todas essas vias públicas formavam, de fato, uma Veneza constituída de quarteirões completamente alagados.
Casas de famílias e de negócios tinham água até às soleiras das portas, sendo que entre as mais cercadas pela inundação se encontravam as fábricas de massas dos srs. Damiani Irmãos e Domingos Liqueri, o armazém do sr. Júlio Bibel Filho e o açougue do sr. Alexandre Nitzke. Cada um desses estabelecimentos achava-se impossibilitado de atender aos seus fregueses, sendo que o açougue Nitzke se viu obrigado a contratar uma carroça para fazer a entrega da carne aos fregueses a fim de não deixá-los sem este alimento.
Um quadro triste — Por todas as ruas percorridas encontramos homens, mulheres e crianças descalços, caminhando com água até quase o joelho. O que, porém, nos impressionou foi ver um operário, residente à avenida Minas Gerais, descalço e levando nos braços um seu filho de uns dez anos presumíveis até uma farmácia a fim de fazer um curativo.
O pobre homem queria sair da sua casa, mas não podia. E o único meio foi carregar o filho às costas até a farmácia, distante duas quadras.
Humorismo, ‘quand même…’ — Alguns moradores das ruas alagadas não perderam, contudo, a sua veia humorística. Cansados de reclamar e não tendo nunca sido atendidos em suas queixas, resolveram então afixar pelas ruas inundadas cartazes com os seguintes dizeres:
‘É proibido pescar’; ‘Abram os olhos com os submarinos’; ‘Não se permite a caça de marrecos’; ‘É proibido atracar neste porto’; ‘Estão expressamente proibidos os banhos’.
Queixas e mais queixas — Ao passar o automóvel por esta ou aquela rua, os respetivos moradores, reconhecendo o nosso ‘repórter’, bradavam pedidos de que fossemos intérpretes das suas queixas. Das casas de comércio, como das casas de famílias, choviam a cada instante brados irritantes contra as contínuas inundações do arrabalde de S. João.
Cinema impedido de funcionar — Uma das firmas que tem sofrido mais com os constantes alagamentos de S. João é a dos srs. Esperança e Cia., proprietária do Cinema-Teatro Thalia, situado à avenida Eduardo.
A água chega também ali até a soleira da porta, impedindo o acesso de qualquer pessoa àquele centro de diversões que, por esse motivo, mais de uma vez se viu obrigado a não realizar suas anunciadas funções.
Na corrente semana, duas noites já não deu espetáculos aquele cinema.
Falando com diversos moradores — Depois de percorridas de automóvel as ruas alagadas, fomos procurar alguns moradores para ver como eles se manifestavam sobre aquelas inundações.
Todos eles nos disseram que o fato se vem registrando depois que a Intendência Municipal mandou colocar canos a fim de receberem águas pluviais na rua Moura Azevedo e na avenida Eduardo. Esses canos, que são de pequeno diâmetro, vão depois encontrar-se com o cano geral que corre pela avenida S. Pedro e vai até ao Guaíba.
Mas, devido ao pequeno diâmetro desses canos, as grelhas coletoras das águas em pouco tempo ficam entupidas. E, não podendo sair, espalham-se elas, primeiramente pela avenida Eduardo e rua Moura Azevedo e depois pelas outras ruas adjacentes, as quais ficam totalmente alagadas em pouco tempo.
Antes da execução desse ‘melhoramento’ — acrescentaram-nos os moradores do bairro de S. João — tal não se dava porque, existindo valos em todas as vias públicas, as águas facilmente corriam em demanda do Guaíba.
O que se faz necessário é que os atuais canos sejam substituídos por outros de maior diâmetro para coletar toda a água que vem das ruas que dão para o lado da Benjamin Constant. Feita essa substituição, não haverá mais inundações e os moradores de S. João não passarão mais por momentos desagradáveis como nos últimos tempos.
Com estas últimas declarações que nos fizeram os habitantes de S. João demos por terminada a nossa reportagem que, a convite dos dois cavalheiros, fizemos ao escurecer de ontem.
No 2° distrito — A zona compreendida pela ‘Ilhota’ apresentava-se ontem à tarde banhada d'água em virtude das chuvas que produziram o crescimento das águas do Riacho.
Até as últimas horas de ontem, entretanto, não havia a polícia do 2º distrito recebido pedido algum de socorro. Na repartição policial, por determinação do respectivo subintendente, sr. Freitas Lima, achava-se destacado um grupo de empregados da Limpeza Pública para atender a algum possível alarme.”
_
Vandalismo
“No trecho da rua Duque de Caxias que medeia entre as ruas General Auto e General Portinho, a Intendência Municipal mandou plantar pequenas árvores para embelezamento daquela via pública. Esse intuito da edilidade vem sendo, entretanto, frustrado por quem demonstra ignorar simples noções de boa educação social, pois raro é o dia em que não aparece um desses arbustos quebrado ou arrancado. De tal maneira se vem repetindo esse condenável ato que em breve tempo ficará inutilizado o referido serviço de arborização, em prejuízo da cidade.”
_
O dia 18 de setembro na história
- 1066 O rei norueguês Harald Hardrada lidera invasão viking à Inglaterra.
- 1739 Turquia e Áustria assinam o Tratado de Belgrado e a capital sérvia, juntamente com o território ao sul do Danúbio, é cedida aos otomanos.
- 1793 Começa a construção do Capitólio em Washington, EUA.
- 1809 Abertura da Royal Opera House, em Londres.
- 1810 O Chile declara independência da Espanha.
- 1812 O Grande Incêndio de Moscou se extingue após destruir cerca de três quartos da cidade.
- 1850 O imperador D. Pedro II sanciona a Lei de Terras, marco na organização da propriedade privada no Brasil.
- 1851 Primeira publicação do jornal The New York Daily Times, que se tornaria o The New York Times.
- 1865 Guerra do Paraguai: as tropas paraguaias se rendem no Cerco de Uruguaiana.
- 1905 Nasce em Estocolmo a atriz sueco-americana Greta Garbo.
- 1906 Ciclone tropical atinge Hong Kong e causa a morte de cerca de 10 mil pessoas.
- 1931 O Japão instiga o Incidente Mukden como pretexto para a invasão e ocupação da Manchúria.
- 1939 O governo polonês de Ignacy Moscicki foge para a Romênia após a invasão alemã.
- 1947 A CIA (agência central de inteligência dos EUA) é criada pelo governo americano.
- 1950 A TV Tupi de São Paulo é fundada por Assis Chateaubriand, a primeira emissora do Brasil e da América Latina.
- 1951 Nasce na Virginia o músico americano Dee Dee Ramone, baixista e fundador da banda Ramones.
- 1960 O líder Fidel Castro chega a Nova Iorque como chefe da delegação cubana nas Nações Unidas.
- 1970 Morre em Londres o guitarrista americano Jimi Hendrix.
- 1971 Nasce no Texas o ex-ciclista americano Lance Armstrong, multicampeão do Tour de France, posteriormente banido do esporte por doping.
- 1973 Nasce em Fortaleza o ex-jogador Mário Jardel, multicampeão com o Grêmio na década de 1990.
- 1976 Nasce em Itaguaí, no interior fluminense o ex-jogador e empresário Ronaldo Nazário, três vezes melhor do mundo.
- 1977 Leonel Brizola é expulso do Uruguai por supostas “violações das normas de asilo político”; viaja para os EUA.
- 1981 O presidente João Baptista Figueiredo sofre ataque cardíaco e se afasta do cargo; o vice civil Antônio Aureliano Chaves de Mendonça assume.
- 1988 O general Henri Namphy é afastado da presidência do Haiti em golpe liderado pelo general Prosper Avril.
- 2001 A primeira de uma série de cartas contendo bactérias causadoras da infecção antraz é postada em Nova Jersey para senadores americanos.
- 2014 A população escocesa decide por 55 a 45% em plebiscito contra a independência do Reino Unido.
- 2024 Morre em Palermo o ex-jogador italiano Salvatore “Totò” Schillaci, artilheiro e melhor jogador da Copa do Mundo de 1990.
* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios
