Há um Século no CP

Considerações sobre saúde pública no Congresso Médico

Da edição de 29 de outubro de 1926, sexta-feira, n. 256

Os palestrantes utilizaram o caso do município de Rio Grande para discutir políticas de saúde
Os palestrantes utilizaram o caso do município de Rio Grande para discutir políticas de saúde Foto : CP Memória

“Os drs. Miro Alves e A. Duprat, respectivamente diretor de higiene e subinspetor de saúde dos Portos, apresentaram ao Congresso Médico um interessante trabalho sobre a organização da higiene e assistência pública do município do Rio Grande que causou excelente impressão entre os congressistas. Obrigados a resumir a sua tese, começam dizendo que se limitam a assinalar como principais causas de muitos insucessos ou de soluções incompletas os encargos orçamentários e a dispersão de esforços administrativos. ‘Tudo bem pesado, o moderno problema da saúde pública deve antes consistir numa organização coordenativa e articuladora dos elementos aproveitáveis, públicos e particulares, já existentes, que numa verdadeira criação de novos elementos. Cabe ao poder sanitário, como principal escopo, exercer uma jurisdição e de nenhum modo impor subordinações redundantes na substituição de exercício profissional da medicina por uma medicina de estado a que invariavelmente faltaria a confiança que o interessado deposita no seu assistente ainda quando em emergência epidêmica. Acorde com o nosso regime, cada uma das unidades políticas que o compõem — federação, estado e município — tem uma parcela de autonomia nas coisas urgentes à saúde pública.’ Depois de outras considerações, dizem os drs. Miro Alves e A. Duprat que no Rio Grande, que por sua situação geográfica é o porto de entrada do Estado, encontra-se representada a higiene de cada uma das unidades componentes do nosso regime político. ‘A defesa sanitária marítima e fluvial compete à Federação, que a detém no Departamento Nacional de Saúde Pública e a exercita mediante as suas Inspeções de Saúde dos Portos. Além da higiene de bordo, o aludido serviço tem principalmente a seu cargo tolher a intercontaminação dos portos, isto é, a eventual importação das moléstias de caráter epidêmico, seja de procedência nacional ou estrangeira.’ Uma parte especial é dedicada à Carta de Saúde e à sua reforma nos Estados Unidos, tendo o Brasil imitado essa iniciativa em 1925. ‘A Carta de Saúde do tipo norte-americano, como é a nossa, justamente proporciona inestimável vantagem de se tirar o máximo aproveitamento das citadas noções dos períodos de incubação e dos portadores de germens. Seria para desejar que tão valioso recurso não continuasse ignorado pela higiene da terra, redundando isso na cessação duma profunda lacuna na defesa sanitária comum. A importação das sementes, a importação e a exportação de plantas e animais vivos, a fiscalização sanitária dos frigoríficos são ‘retalhos de higiene’ detidos pelo Ministério da Agricultura, que nenhum prejuízo causariam à higiene municipal deixando de lhe continuar estranho. Cometendo os serviços estaduais de higiene à Intendência do Rio Grande, no tocante a esse município, o governo do Estado permitiu-lhe solucionar o momentoso problema da saúde pública, até ali de existência incompleta. Já provido — acrescenta a tese — de abastecimento de água potável, de rede de esgotos, de progressivo código de edificação, de bem atendida remoção dos lixos domiciliário e da viação pública, de rigorosa fiscalização do comércio do leite, etc., etc., era a defesa sanitária que incumbia ao Rio Grande inaugurar. Ficou para logo assentado que essa defesa giraria em torno do médico assistente e do hospital. A epidemia de alastrim, coetânea do início dos trabalhos, proporcionou ensejo à Intendência de solicitar a incorporação do Lazareto estadual Santa Casa, ainda que a título precário. No Ginásio Municipal Lemos Junior instituiu-se a inspeção médica sistemática dos alunos e um serviço dentário interno, permanente e gratuito. A inspeção médica abrange o exame das fezes. O resultado desse exame, bem como das inspeções, é comunicado por escrito pelo reitor aos interessados para que sejam tomadas as providências cabíveis em cada caso. Nenhuma intervenção odontológica é levada a efeito sem prévia autorização dos pais ou pessoas responsáveis pelo aluno. ‘O serviço de combate à verminose estriba na propaganda. Dirigindo-se à Diretoria de Higiene, o interessado recebe uma latinha, a devolver com o material para exame, que é sempre gratuito.’ Termina a tese dizendo que está no programa da Santa Casa contratar o chefe do laboratório clínico com o Instituto de Manguinhos, o que reverterá em mais um elo entre o Departamento Nacional de Saúde Pública e a defesa sanitária do porto do Rio Grande. Propaganda pública e nas escolas; efetiva e crescente valorização do concurso do médico assistente; aproveitamento e intercoordenação das atividades das agências voluntárias locais dizendo respeito, de perto ou de longe, às coisas da saúde; associação técnica com os estabelecimentos hospitalares e os serviços médicos industriais e das públicas administrações íntima ligação com as repartições sanitárias federais e estaduais congêneres. É essa a orientação em que a Intendência do Rio Grande procurou arrimar a contextura do seu Departamento de Higiene e Assistência Pública. [...]”

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Morto por um bonde

“Ontem, às 19 horas, registrou-se um acidente de bonde do qual resultou a morte de um homem, cuja identidade até a hora de registrarmos a ocorrência não tinha sido averiguada. Eis como se desenrolou o doloroso fato. À hora referida descia pela rua Marechal Floriano o bonde nº 56, da Carris Porto-Alegrense, tendo como motorneiro Manoel Ramos Cantara, chapa 467 e como condutor Alfredo Santos Pinto, chapa 304. À sua frente corria um auto-ônibus que, ao chegar à esquina da rua 24 de Maio [trecho da atual avenida Otávio Rocha] parou, dele descendo um passageiro que, segundo dizem as testemunhas do fato, não tomou precauções ao descer num ponto em que o tráfego é sempre avultado como aquele, saltando exatamente sobre a linha de bondes, à pequena distância do nº 56, que descia na ocasião como acima dissemos. O motorneiro deste último veículo imediatamente travou-o, apelando para o ‘break’, mas sem resultado, visto a pequena distância que mediava entre o bonde e o imprudente transeunte que foi apanhado ficando sob as rodas dianteiras do mesmo. Produzido o natural alarme e tendo enfim parado o bonde, passageiros e transeuntes testemunhas do desastre procuram tirar a vítima de sob as rodas, o que a muito custo foi conseguido com o auxílio de empregados da Carris Porto-Alegrense. Chamada a Assistência, ali compareceu o dr. Bonifácio Borba, que nada mais pôde fazer, visto ter morrido já a vítima do acidente. Esta apresentava três fraturas diferentes em ambas as pernas, esmagamento do tórax e deslocamento total da nuca. [...] não foi ele reconhecido por nenhuma das testemunhas do fato, nem pelos curiosos que ali estacionavam. [...] Várias testemunhas do desastre, ouvidas por nós, afirmaram que essa ocorrência se registrou devido unicamente à imprudência da vítima, que foi descer do ônibus que o conduzia sobre o leito da linha de bondes, como acima narramos.”

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Homenagem ao herói

“A nossa capital reviveu anteontem um desses dias de ‘vida acadêmica’. Vida acadêmica pelo fato que motivou a expansão dos nossos estudantes e ainda pela maneira, verdadeiramente característica, como essa expansão transcorreu. O motivo nasceu de um ‘direito’ que tinham os estudantes de Direito e que a ‘justiça’, menosprezando esse ‘direito’, o negara. Esse direito era a frequência livre que, apesar da nova lei do ensino, ficara prevalecendo para os matriculados antes dessa lei. A Congregação da Faculdade de Direito não atendera a esse dispositivo e os estudantes reclamaram para o Departamento Nacional de Ensino, cujo diretor, dr. Juvenil da Rocha Vaz, embora anteriormente apoiasse o direito dos estudantes, estribado na lei, negou-o, depois. Essa medida, que vinha prejudicar a inúmeros acadêmicos que, por motivos vários, não podiam ter frequência assídua às aulas principalmente por muitos deles exercerem cargos públicos fora desta capital, sofreu forte oposição. Penetrando na Faculdade sem que ninguém saiba quando, nem como, ‘alguém’ retirou as cadernetas assinaladoras da frequência dos alunos. E o humorismo dos estudantes criou o ‘herói desconhecido’.

Os estudantes, após realizarem vários ‘conclaves’ na Confeitaria Colombo, cheios de ruído, verve e alegria, como em tempo noticiamos, resolveram glorificar o ‘herói desconhecido’. Para isso, os acadêmicos de Direito convidaram a classe acadêmica em geral. Atendendo a esse convite, a nossa mocidade estudiosa reuniu-se anteontem ao lado da Faculdade de Medicina, onde graças à generosidade de um dos maiores amigos dos estudantes, a firma Bopp, Sassen, Ritter e Cia. Ltd. [a célebre Cervejaria Continental], a alegria aumentou, cresceu de vulto e se alastrou. E os estudantes reunidos, solidários e, mais que tudo isso, bem alegres e contentes, fizeram uma passeata humorística.

Partindo da Faculdade de Medicina, o cortejo estava assim formado: na frente uma carroça ‘artisticamente verde’ e enfeitada; a seguir vinham três estudantes com dominós pretos, representando o ‘herói desconhecido’; depois seguiam-se os acadêmicos formados dois a dois e trazendo belos cartazes, uns com caricaturas mostrando ‘surrupiamento’ das cadernetas que impediriam os exames em primeira época e outros com dizeres alusivos, como: ‘Quem foram que roubou as cadernetas; O herói desconhecido ainda continua incognito’, etc. Vários estudantes traziam na costas letreiros com as lavras: ‘Não fui eu’. O cortejo vinha dirigido por ‘um vasto’ e popular doutorando de medicina. Todos os estudantes, pouco mais ou menos, vinham diferenciados com casacos do avesso, aventais, máscaras, etc. O préstito, ‘fúnebre de tristeza’, vindo pela Avenida Redenção [atual avenida João Pessoa] seguiu pela Praça Conde de Porto Alegre e entrou na rua Riachuelo; baixando à rua General João Manoel, marchou pela rua dos Andradas parando em frente às redações dos jornais, onde falaram em saudação vários acadêmicos.

A passeata humorística prosseguiu depois, cheia de alegria e verve. Os estudantes, ao som de uma orquestra, entoavam várias canções, dentre as quais sobressaía uma com o seguinte estribilho: ‘Maria, Maria / Maria Antonieta / Teu ‘pai’ bate carteira / Teu ‘avô’ caderneta’. Além disso, a todo o momento ouviam-se vivas ao ‘herói desconhecido’, a classe acadêmica e ‘abaixos’ e ‘morras’ à frequência obrigatória. Seguindo pela rua dos Andradas, o cortejo subiu a rua Dr. Flores, estacionou na Confeitaria Rocco, onde seus proprietários, ‘com a gentileza habitual’, ofereceram aos estudantes doces e licores, ouvindo-se aí vários ‘discursadores’. Daí os estudantes seguiram novamente para a Avenida Redenção, de onde haviam partido, dissolvendo-se o préstito. E, desse modo alegre e cheio de verve e alacridade, terminou a glorificação do ‘herói desconhecido’.”

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O dia 29 de outubro na história

  • 1390 O primeiro julgamento por bruxaria em Paris termina com a execução de três pessoas.
  • 1711 Nasce em Bolonha a médica e acadêmica Laura Bassi, a primeira mulher a se doutorar em ciências.
  • 1807 No contexto das Guerras Napoleônicas, o exército britânico invade e toma a cidade de Montevidéu.
  • 1829 Morre em Salzburgo a pianista Maria Anna Mozart, musicista-prodígio, irmã de Wolfgang Amadeus.
  • 1863 A Cruz Vermelha Internacional é fundada em Genebra após encontro de representantes de 18 países.
  • 1910 Inaugurada a nova sede da Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro.
  • 1911 Morre na Carolina do Sul o editor e político húngaro-americano Joseph Pulitzer, criador da premiação homônima.
  • 1921 Os imigrantes italianos anarquistas Sacco e Vanzetti são submetidos a segundo julgamento em Boston.
  • 1923 A Turquia se torna uma república após a dissolução do Império Otomano.
  • 1929 “Terça-feira Negra”: a Bolsa de Nova Iorque sofre crash, iniciando o período da Grande Depressão.
  • 1941 Cerca de 10 mil judeus lituanos, a metade crianças, são assassinados em apenas um dia pelos nazistas no Massacre de Kaunas.
  • 1944 O Exército Vermelho entra na Hungria durante a Segunda Guerra.
  • 1945 O presidente Getúlio Vargas renuncia por pressão militar, encerrando o período do Estado Novo e retirando-se do cargo após 15 anos.
  • 1948 Entre 50 e 70 palestinos são executados pelas forças israelenses na vila de Safsaf, na Galiléia.
  • 1956 Israel invade a península do Sinai, avançando sobre o Egito e iniciando a Crise de Suez.
  • 1957 O primeiro-ministro israelense Ben-Gurion e cinco ministros ficam feridos após a explosão de uma granada no parlamento.
  • 1964 A República Unida de Tanganyika e Zanzibar é renomeada República Unida da Tanzânia.
  • 1964 “Murph the Surf” e sua gangue roubam a “Estrela da Índia”, uma das maiores gemas de safira do mundo, do Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque.
  • 1969 A primeira conexão entre dois computadores é realizada na Arpanet, precursora da internet.
  • 1985 O militar Samuel K. Doe vence as primeiras eleições multipartidárias da Libéria.
  • 1994 Francisco Martin Duran dispara mais de 20 tiros de rifle contra a Casa Branca, sem ferir ninguém.
  • 1998 O furacão atlântico Mitch, segundo mais mortífero da história, atinge Honduras.
  • 2004 A emissora árabe Al Jazeera exibe vídeo de Osama bin Laden admitindo responsabilidade pelos ataques de 11 de Setembro em Nova Iorque.
  • 2012 O furacão Sandy, o maior em diâmetro já registrado, atinge a costa leste dos EUA, matando centenas de pessoas.
  • 2015 A China anuncia o fim de sua política de filho único após 35 anos.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios