Há um Século no CP

Nova denúncia no caso da violência contra indígenas em Nonoai

Da edição de 18 de agosto de 1926, quarta-feira, n. 194

Agressões e assassinatos no norte do Estado não foram investigados apropriadamente, segundo denúncia
Agressões e assassinatos no norte do Estado não foram investigados apropriadamente, segundo denúncia Foto : CP Memória

“Sobre as graves ocorrências havidas em Nonoai e noticiadas pelo ‘Correio do Povo’, podemos dizer que o industrialista Alberto Berthier de Almeida as denunciou ao governo do Estado, ao qual transmitiu, ontem, o telegrama seguinte ao juiz distrital de Palmeira: ‘Na qualidade de denunciante dos crimes ocorridos em Nonoai nos termos do artigo 108 do Código de Processo Penal do Estado, levo ao conhecimento de V. S. que o oficial de justiça encarregado do cumprimento do mandado de citação de testemunhas do processo a que responde Marcílio Moura, pelo bárbaro crime de homicídio em indefesos índios do toldo Nonoai, indo na semana finda proceder às intimações, depois de confabular com José Moura, em cuja casa se hospedou, não cumpriu o mandado. Quanto às legítimas testemunhas do processo, intimou apenas as que foram arroladas pela defesa e que seguiram para aí no sábado último num auto-caminhão fornecido pela sub-intendência. Criminosamente agindo, o oficial de justiça certificou falsamente hoje, dando como intimadas ou encontradas verdadeiras e idôneas testemunhas no processo tendenciosamente instaurado, com visível intuito de obter-se mais uma imoralíssima burla da ação da justiça dessa terra, porque, quando Marcílio Moura não houvesse praticado crimes no exercício de suas funções, é inegável que existe conexão pela cumplicidade de seu pai José Moura, sub-intendente e sub-delegado, como responsável principal e mandante dos referidos crimes. Em tais condições, o processo deverá escapar à alçada desse juiz, que é incompetente para proceder à formação de culpa. Não cabe, entretanto, a V. S. a responsabilidade dessa irregularidade, mas ao representante do Ministério Público que ofereceu denúncia, a não ser que se deva acreditar, o que me repugna, que o subchefe de polícia haja deturpado seu relatório, cujas circunstâncias do fato e robusta prova testemunhável que colheu nas investigações confirmam meu asserto. O grande e ostensivo empenho do dr. Frederico Westphalen em favor dos criminosos, que são seus sócios na exploração clandestina dos matos do Estado, é talvez de molde a influir decisivamente na falência radical de medidas judiciais e na punição de hediondos bandidos que infestam Nonoai. A despeito disso e da morosidade nas providências da justiça nesse termo, julgou o mesmo haver conseguido junto ao honrado presidente do Estado no sentido de que não se fizesse completo silêncio sobre o assassinato e o espancamento de míseros índios, a exemplo de outros crimes ocorridos naquela região. Na plena consciência da responsabilidade de meus atos, esperando que V. S. não pactuará com a criminosa atuação do oficial de justiça, tendente a favorecer bárbaros autores dos massacres dos infelizes silvícolas, solicito a juntada deste aos autos do processo para fins de direito.’”

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Estado de sítio

“Os jornais de hoje publicam longo comunicado com abundantes detalhes da insurreição na ilha de Creta, já dominada pelas forças governamentais. O comunicado acrescenta que a justiça, procedendo a inquérito, está apurando as responsabilidades. Entre as personalidades envolvidas e presas estão um antigo ministro e parente do sr. [Eleftherios] Venizelos [primeiro-ministro da Grécia em diversas ocasiões] e alguns antigos deputados. Foi decretado o estado de sítio na ilha.”

“Um comunicado do governo informa ter sido declarado o estado de sítio na ilha de Creta, devido a ter sido descoberta pelo general [Georgios] Kondylis uma conspiração dirigida pelo chefe da última revolução, general Plastiras. Talvez já tenha tido fim a notícia da agitação em Creta.”

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Do palco para o consultório

“Há uns anos, figurando nos elencos dos teatros do Rio de Janeiro apareceu uma atriz, insinuante e distinta, que rapidamente se impôs mais pelos primores de sua educação e pelos dotes de sua inteligência e ilustração que propriamente pelas suas disposições para a cena. Chamava-se Guilhermina Rocha, a nova atriz. Pouco depois, essa ilustrada comediante patrícia apresentava-se como escritora teatral, obtendo sucesso algumas de suas peças. Um belo dia, com surpresa geral, desapareceu dos meios teatrais a sua figura atraente e simpática. Uns cinco anos depois, reapareceu Guilhermina Rocha, mas portadora de um diploma de médico, tendo feito com grande brilhantismo o seu curso na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Trocando a arte de Talma pelo bisturi de Esculápio, a doutora Guilhermina Rocha acaba de ser nomeada subinspetora sanitária da marinha mercante e, no desempenho de suas novas funções, já embarcou em um navio surto no porto do Rio de Janeiro. Coube-lhe a glória de ter sido a primeira mulher brasileira que alcançou a nomeação para tais funções, razão das homenagens que lhe foram prestadas antes de sua viagem. Não é, pois, à América do Norte que pertence o exclusivismo da emancipação feminina. Também a da mulher brasileira já é um fato.”

Guilhermina Rocha nasceu em Uruguaiana em 30 de março de 1879. Entre 1902 e 1918 se dedicou à carreira teatral no Rio de Janeiro. Após se formar em medicina, continuou a escrever dramaturgias até 1926. Exerceu a medicina até 1938, data de seu falecimento.

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Arborização em Bagé

“O intendente municipal de Bagé está mandando arborizar o centro das ruas transversais, a exemplo do plano executado na avenida Sete de Setembro. Já foram abertas as respectivas covas nas ruas General Netto, General Sampaio e Félix da Cunha, onde serão plantadas finas árvores. Essa medida tomada pelo intendente municipal de plantar as árvores no centro das ruas é para melhor observância do regulamento de veículos em elaboração. Além disso, a nova disposição, que o intendente municipal está dando ao plantio das árvores, é mais estética e não tira a vista da fachada dos elegantes prédios. A municipalidade está empenhada em que os moradores exerçam certa fiscalização das árvores em frente aos seus prédios.”

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População masculina da Alemanha

“Já antes da guerra mundial, havia na Alemanha excesso de mulheres, comparado o seu número com o dos homens, porque, menos debilitadas pela luta cotidiana da vida do que eles, as mulheres chegavam a uma idade mais avançada. Em todo caso, este excesso de mulheres não era muito considerável: para 1.000 habitantes masculinos havia 1.029 femininos — o que, à vista da população da Alemanha, que naquele tempo era de cerca de 70 milhões de almas, apenas equivalia a um saldo de mulheres a mais ou menos um milhão. Tendo na conflagração mundial perdido a vida na flor da idade dois milhões de combatentes alemães, já por fato o saldo das mulheres em comparação com o dos homens aumentou consideravelmente. No primeiro ano depois de terminada a guerra (1919), para 1.000 homens havia 1.101 mulheres, de maneira que, com uma população reduzida a 60 milhões de almas em virtude da cessão de territórios e dos prejuízos sofridos durante a guerra, o número das mulheres na Alemanha passara a exceder o dos homens em três milhões, conta redonda. Foi então que se deu um verdadeiro milagre da natureza e que, por já ter sido observado de forma igual depois de outras longas e penosas guerras, não deixa de ser considerado um prodígio. Nos nascimentos havidos nos últimos anos, o número das crianças do sexo masculino excede consideravelmente o das de sexo feminino. A expressão ‘milagre’ não é exagerada porque se trata aqui de um processo da natureza, para o qual nem mesmo os entendidos e peritos na matéria — ou sejam, em primeiro lugar, os médicos — encontram uma explicação bastante e que satisfaça. Só se pode dizer que a natureza, ou a Providência, se esforça por suprir, de novo, a desvantagem que para um país é em múltiplos sentidos considerado como tal um sexo exceder em número considerável o outro. O milagre da equiparação, que está começando a se fazer notar na relação numérica entre homens e mulheres, acaba de ter sido comprovado pelo recenseamento realizado no verão do ano passado. Ao passo que, conforme já foi mencionado acima, no ano de 1919, para 1.000 homens havia 1.101 mulheres, no recenseamento de 1925 vinham elas a ser apenas de 1.072 mulheres para mil homens. Isso quer dizer, em todo caso, que o excesso de mulheres baixou de três milhões para cerca de 2 milhões e 200.000. Ora, se continuarem, como se espera, a aumentar os nascimentos de rapazes nos seguintes anos, é de crer que dentro de 7 a 8 anos, mais ou menos, a relação numérica entre homens e mulheres na Alemanha venha a ser de novo, mais ou menos, a mesma de antes da guerra mundial. Provavelmente, haverá sempre e sempre poderá ser constatado um certo saldo para mais de mulheres em relação aos homens, não obstante a mulher em nossos dias partilhar mais da vida profissional do que o fazia em outros tempos. Nas profissões mais arriscadas e mais expostas, elas ainda não tomam parte, como por exemplo nos trabalhos de mineração e na navegação. O pequeno excesso de um sexo em confronto com outro pode ser suportado sem maiores desvantagens por um país qualquer, mas 10% de mulheres a mais, como na Alemanha no primeiro ano depois da guerra, redundariam em grave prejuízo para o país se esse excesso continuasse a ser registrado. Por isso, pode-se ser grato à natureza pelo milagre que está operando.”

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O dia 18 de agosto na história

  • 1492 A primeira gramática da língua espanhola é apresentada para a rainha Isabela.
  • 1541 Um navio português desembarca na província japonesa de Higo (atual prefeitura de Kumamoto).
  • 1750 Nasce em Legnago, norte da Itália, o compositor Antonio Salieri, suposto rival de Mozart.
  • 1769 Um raio atinge uma torre junto à Porta di San Nazaro, em Brescia, na Itália, causando uma forte explosão que matou entre 300 e 3 mil pessoas.
  • 1826 O major britânico Gordon Laing se torna o primeiro europeu a entrar na antiga cidade africana de Timbuctu.
  • 1850 Morre em Paris o romancista e dramaturgo francês Honoré de Balzac.
  • 1868 O astrônomo francês Pierre Janssen descobre o elemento químico hélio.
  • 1917 O Grande Incêndio de Tessalônica destrói cerca de um terço da cidade grega e desaloja mais de 70 mil pessoas.
  • 1920 A 19ª Emenda à Constituição americana garante o direito de voto às mulheres.
  • 1924 Fundado em Erechim o Ypiranga Futebol Clube.
  • 1933 Nasce em Paris o cineasta e ator franco-polonês Roman Polanski.
  • 1933 Nasce em Marrakesh o jogador francês Just Fontaine, maior artilheiro em uma única edição de Copa do Mundo, com 13 gols em 1958.
  • 1936 Nasce na Califórnia o ator e cineasta americano Robert Redford.
  • 1940 “O Dia Mais Difícil”: uma das maiores batalhas aéreas da história acontece no sul da Inglaterra entre a força aérea alemã e a britânica.
  • 1950 O presidente do Partido Comunista da Bélgica, Julien Lahaut, é assassinado por monarquistas.
  • 1952 Nasce em Houston o ator americano Patrick Swayze.
  • 1958 O controverso romance “Lolita”, do escritor russo-americano Vladimir Nabokov, é publicado nos EUA.
  • 1969 Mick Jagger, astro da banda Rolling Stones, é acidentalmente alvejado durante as filmagens do longa “Ned Kelly”, na Austrália.
  • 1969 Nasce em Boston o ator, diretor, roteirista e produtor americano Edward Norton.
  • 1971 A Austrália e a Nova Zelândia decidem retirar suas tropas do Vietnã.
  • 1977 O ativista anti-apartheid sul-africano Steve Biko é preso pela polícia durante uma barreira estradal, morrendo quase um mês mais tarde de ferimentos causados durante sua detenção.
  • 2017 O estrategista da Casa Branca, Steve Bannon, é demitido pelo presidente Donald Trump.
  • 2024 Morre o ator, produtor, cantor e empresário francês Alain Delon.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios