Há um Século no CP

Referendo aprova expropriação da realeza alemã, mas termina invalidado

Da edição de 23 de junho de 1926, quarta-feira, n. 146

Votação popular aprovou por mais de 96% a expropriação, mas não atingiu o quórum mínimo de 20 milhões de votantes
Votação popular aprovou por mais de 96% a expropriação, mas não atingiu o quórum mínimo de 20 milhões de votantes Foto : CP Memória

“O projeto de lei que foi submetido à aprovação do ‘referendum’ nacional contém os seguintes dispositivos: Primeiro — Todas as propriedades da realeza que reinou até a revolução de 1918, como as propriedades de todos os membros dessas casas reinantes, serão confiscadas sem compensação. Segundo — Os resultados do confisco das propriedades da realeza serão empregados a favor das instituições de beneficência do Estado, dos desempregados mutilados da guerra, das viúvas da guerra e órfãos, assim como das vítimas do inflacionismo do meio circulante alemão, seguro da velhice e outros fins humanitários. Terceiro — As propriedades territoriais serão subdivididas e arrendadas aos trabalhadores do campo, aos pequenos lavradores. Quarto — Os castelos e outros edifícios serão convertidos em sedes de orfanatos e em asilos para os mutilados da guerra, ou convalescentes. Quinto — Todos os decretos anteriores aos entendimentos e acordos, regulando as questões contidas no projeto acima segundo a constituição alemã, deverão ser aprovados com 20 milhões de votos.”

“A Alemanha escapou ontem por pouco de uma nova revolução, em consequência dos resultados do plebiscito para decidir-se a sorte das propriedades das antigas famílias reais. Se as urnas houvessem acusado o quorum legal de 20 milhões de notas para o ‘referendum’ nacional, não somente os Hohenzollerns, mas outras das antigas famílias reais teriam perdido cerca de 400 milhões de dólares, assim como o próprio governo alemão teria o seu prestígio grandemente minado pelo triunfo do projeto socialista e comunista relativo à expropriação dos bens, o que teria levado o governo à situação de formidáveis dificuldades. Os ‘leaders’ dos partidos governamentais haviam anunciado que a aprovação da lei teria sacudido os fundamentos do Estado. Em outras palavras, nenhum dos atuais partidos governamentais aventurar-se-ia a executar a lei, em vista da inconstitucionalidade da sua determinação. Embora a votação houvesse sido inferior aos vinte milhões exigidos, foi isso o bastante para, no entanto, demonstrar a existência na Alemanha de uma gigantesca corrente de opinião, a qual será sempre formidável fator na vida política nacional. Milhões de cidadãos demonstraram a sua absoluta ruptura com os antigos dominadores, que representam uma grande força antimonárquica. A derrota do projeto não significa que as imensas riquezas das famílias reais ser-lhe-ão entregues em sua íntegra. Parece que a solução será a aprovação do projeto com o compromisso pelo qual o governo ficará com a metade das riquezas e entregará a outra metade aos monarcas decaídos. A situação permanece extremamente delicada e perigosa. Se o governo demonstrar demasiada brandura para com os republicanos, encontrará hostilidade violenta da parte dos nacionalistas e dos monarquistas. De outro lado, se o governo tomar resolução muito grata aos nacionalistas, provocará uma tempestade reacionária nas fileiras republicanas e socialistas. Parece que o governo tentará formar uma ditadura sob a vigilância do marechal Hindenburg. Nessa base estará então o famoso parágrafo 48 da constituição, que estabelece que, em caso de emergência nacional, o presidente pode nomear um executor, o qual terá pleno ‘controle’ sobre o exército e poderes acima dos do Parlamento.”

O referendo ocorreu em 20 de junho de 1926 em todos os territórios alemães e questionava sobre a aprovação à expropriação de todas as propriedades da antiga realeza do país. 96,41% dos votantes deu o seu sim, mas o referendo não teve validade porque o universo total dos votantes atingiu quase 15,6 milhões, ao passo que eram necessários 20 milhões.

_

Falsas informações

“Os funcionários da estação radiográfica de Salinas, no Estado do Pará, foram demitidos porque prestaram informações julgadas falsas sobre o aparecimento dos aviadores argentinos. Assim tiveram nossas altas autoridades um gesto de satisfação para com o governo da república vizinha. Somos realmente impecáveis nas cortesias com o estrangeiro, embora a administração de nosso país não o seja em sentido contrário, com seus próprios jurisdicionados. No que passa às órbitas do Brasil, no que afeta nosso bom nome em face das nações do globo, as conveniências são guardadas com uma tal irrepreensibilidade que pelo menos damos as aparências de um país admiravelmente governado, sem a influência nefasta da política que nos impõe não só maus funcionários públicos, como até péssimos governantes. Os serviços nacionais deixam muito a desejar em relação ao que se fez ver lá fora, com a demissão dos encarregados da estação de Salinas. Estes — quem sabe se movidos por uma qualquer previsão, ou desejando alimentar esperanças que já pareciam fenecer — irradiaram a notícia de que os aviadores argentinos com eles se tinham posto em contato. Pouco depois, se verificou que a nova não era verdadeira, ou por outra, que era mais sutil do que as próprias ondas hertzianas. Mas também pouco depois da ‘blague’ — agora inofensiva — é assinalada a presença dos viajantes aéreos na cidade de Vigia, que não fica muito longe do posto radiográfico de Salinas. Ter-se-ia produzido o milagre de uma adivinhação? Fosse ou não produzido, o certo é que essa mentira foi a avançada de uma verdade, uma esperançosa luz longínqua. Em atenção a esse singular poder de vidência, os radiografistas deviam ser admitidos.”

_

Grupo antifascista

“Um grupo de membros da colônia italiana aqui residente, em reunião anteontem realizada, resolveu fundar um grupo antifascista. Depois de terem falado vários oradores, foi eleito o seu comitê diretor, que ficou constituído dos srs.: Amilcare Ferrari, Carlos Gatti, Antonio Campagna, Aman Piattelli, Geremia Bini, Luigi Superti, Alfonso Diquigiovanni, Eugenio Zannini, Eriberto Piovesan, Enrico Gherard, Ferrucio Piatelli e Arduino Bernardo. O grupo antifascista tomou o nome de ‘Giacomo Matteotti’ como uma homenagem à memória do deputado italiano assassinado há dois anos.”

_

Batidas nos becos

“A polícia administrativa do 1º distrito [de Porto Alegre], no intuito de sanear os famigerados ‘becos’ — aliás, muitos — existentes no centro da cidade, tem dado nestes últimos dias ‘buscas’ a várias ‘espeluncas’. O Beco do Poço [localizado na atual confluência da avenida Borges de Medeiros com a rua Jerônimo Coelho] — teatro de inúmeras cenas de desordens — foi um dos pontos para onde se dirigiu anteontem o dr. João Pompílio de Almeida, subintendente do 1º distrito, acompanhado do amanuense Mariano Dias Maya. Aquela autoridade, sob o pretexto de saber quais as bodegas que, sem terem satisfeito ao pagamento do imposto municipal, se conservam abertas depois das 22 horas, percorreu um grande número dessas casas. Nessa ocasião, foi dada também oportunidade a se proceder ao desarmamento das pessoas que nas mesmas casas se encontravam. Em várias ‘bodegas’ foi apreendida grande quantidade de cocaína e de outros tóxicos, cuja venda é exercida por malandros. A polícia prendeu três indivíduos e uma mulher, em poder dos quais foram encontrados vidros contendo aquele tóxico. Os presos foram remetidos após à Chefatura de Polícia, a fim de ser lavrado o competente auto de infração. Um dos pontos onde com mais ardor imperava a jogatina era o armazém sito à Avenida Redenção [atual avenida João Pessoa], n. 65. Felizmente, devido a um mandado de penhora requerido pela Fazenda Municipal, foi ele ontem fechado.”

. . . . . . . . . . . . . . .

O dia 23 de junho na história

  • 1861 Inaugurada pelo imperador D. Pedro II a Estrada União e Indústria entre Petrópolis e Juiz de Fora, a primeira rodovia macadamizada da América Latina.
  • 1868 O americano Christopher Latham Sholes recebe a patente do primeiro modelo comercialmente viável da máquina de escrever.
  • 1894 O Comitê Olímpico Internacional é fundado em Paris por iniciativa do barão francês Pierre de Coubertin e do empresário grego Demetrios Vikelas.
  • 1907 Nasce no interior fluminense a atriz, comediante e cantora Dercy Gonçalves.
  • 1912 Nasce em Londres o matemático, cientista da computação e filósofo inglês Alan Turing.
  • 1914 O revolucionário Pancho Villa toma o estados de Zacatecas durante a Revolução Mexicana.
  • 1940 Adolf Hitler realiza um tour arquitetônico por Paris com o arquiteto Albert Speer e o escultor Arno Breker.
  • 1956 Gamal Abdel Nasser é eleito presidente do Egito por esmagadora maioria em referendo público.
  • 1961 Entra em vigor o Tratado da Antártida, reservando o continente como área de preservação científica e limitando a atividade militar na região.
  • 1972 O presidente americano Richard Nixon e o chefe de gabinete da Casa Branca H. R. Haldeman são gravados conversando sobre a utilização da CIA para obstruir a investigação do FBI sobre o Caso Watergate.
  • 1972 Nasce em Marselha o ex-jogador e técnico francês Zinedine Zidane.
  • 1989 O filme “Batman”, do diretor Tim Burton, é lançado.
  • 2016 Brexit: a população britânica decide por 52% em referendo que o Reino Unido deve deixar de fazer parte da União Europeia.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios