Há um Século no CP

Representação indígena protesta por justiça junto ao governo do Estado

Da edição de 6 de novembro de 1926, sábado, n. 262

Pequena comissão dos indígenas do norte do Estado cobrou por justiça em caso de assassinato e violências
Pequena comissão dos indígenas do norte do Estado cobrou por justiça em caso de assassinato e violências Foto : CP Memória

“Semanas atrás, os nossos telegramas referiram-se longamente à agitação dos índios da Colônia Nonohay, no município da Palmeira, em consequência de ter sido morto um deles e outros feridos. Os silvícolas acusaram então como autor o subintendente daquela localidade e, como as suas queixas não fossem ouvidas, resolveram vir a esta capital. Assim é que há poucos dias aqui chegaram o cacique, Victorino Manoel dos Santos, e os índios Raphael de Campos e Joaquim Ignacio, trajando todos pobremente. Sua viagem teve por fim dar a conhecer ao governo do Estado a situação em que eles se encontram, com a falta de garantias, queixando-se amargamente das autoridades Nonohay. Acompanhados de um inferior da Brigada Militar, foram levados ao quartel do 1º batalhão dessa milícia, onde ficaram hospedados. Dali saíram primeiramente para se entenderem com o secretário das Obras Públicas, dr. Sergio de Oliveira, sobre interesses de suas terras. E depois foram ao palácio do governo a fim de visitar o dr. Borges de Medeiros, ‘o papai grande’, como eles chamam ao presidente do Estado. S. excia. recebeu-os carinhosamente, tendo ouvido as suas queixas e prometendo que se interessaria por que os silvícolas vivessem tranquilamente nos seus toldos. Ao ‘papai grande’ entregaram como lembrança de sua visita algumas flechas por eles trabalhadas e ‘à Sia dona’, a exma. senhora d. Carlinda Borges de Medeiros, uma cesta feita pelas índias. Tanto o dr. Borges de Medeiros como sua exma. esposa corresponderam a essa gentileza dos nossos silvícolas fazendo-lhes vários presentes, que muito os penhoraram. Terminada a sua missão, o cacique Victorino Manoel dos Santos e seus companheiros ficaram ainda aqui alguns dias a fim de conhecer a capital. Assim é que foram assistir a sessões cinematográficas, andaram nos bondes e nos auto-ônibus, ficando admirados de tudo o que observaram, pois as ‘mulheres com cabelo de homem’ não conheciam ainda… Os três silvícolas visitaram ontem à noite a redação desta folha, tendo o cacique Victorino nos declarado que esta é a segunda vez que aqui vem. Nessa capital, esteve no tempo de ‘dom Carlos’, o dr. Carlos Barbosa, quando presidente do Estado. O dr. Borges de Medeiros também os recebeu para solucionar uma questão de terras que então surgira com os habitantes do toldo de Nonohay, no qual atualmente há 85 casais e se cultivam vários produtos agrícolas que servem para o seu sustento e para vender nas zonas vizinhas. Hoje, voltam eles para ali, bastantes esperançados em ver atendidas as suas queixas contra as autoridades daquela região.”

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Explorador alemão

“Acha-se no Rio de Janeiro, onde chegou há pouco no transatlântico ‘Werra’, um notável explorador alemão, que já tem visitado o nosso país doutras feitas. É o professor Max Schmidt, jurista e filósofo de renome da Alemanha, lente que é da Universidade de Berlim e também do Museu Etnográfico da capital alemã. O dr. Max Schmidt, simples e amável no seu todo, ouvido pela imprensa carioca, referiu-se com saudades às vezes que aqui já esteve e onde teve a satisfação de fazer relações com homens de ciência do Brasil, dos quais guarda as melhores impressões possíveis e tem-nos na mais alta consideração. A sua primeira viagem ao nosso país foi no ano de 1900, quando explorou o rio Xingu e realizou estudos pormenorizados sobre a vida, costumes e hábitos de tribos indígenas que são encontradas nas margens e nas proximidades daquele rio; a segunda vez que aqui esteve, dez anos mais tarde, percorreu a serra dos Parecis [no estado de Rondônia], explorou as nascentes do rio Juruena [no estado do Mato Grosso] e estudou com um cuidado todo especial a origem e a vida dos índios Parecis, tendo escrito um livro, que é citado de modo especial dentre outras obras de sua autoria. Alguns anos depois, voltou ao Brasil, tendo percorrido todo o rio Paraguai e se demorado como das outras vezes cerca de dois anos, regressando depois à Alemanha, e vem novamente com o mesmo objetivo, estudar os afluentes do rio Tapajós, realizar explorações e também fazer estudos minuciosos sobre a tribo indígena dos Cajabis, encontrada nas regiões banhadas por aquele rio. O professor Schmidt, que é comissionado pelo Museu Etnográfico de Berlim, tem trabalhado de maneira incansável na organização de mostruários onde está exposto tudo quanto de interessante, principalmente sob o aspecto científico daqui, tem conseguido levar notadamente o que tem referência com os silvícolas do Brasil. O explorador alemão falou da satisfação que sentia em rever o nosso país, onde chegava pela quarta vez, depois de magnífica viagem, durante a qual a oficialidade do ‘Werra’, que prima por uma gentileza não comum, lhe dispensara tantas e tantas atenções. É desejo do professor Schmidt permanecer alguns dias no Rio, embarcando para Cuiabá, de onde em seguida partirá para as regiões onde pretende dar início à sua tarefa, cuja duração calcula em cerca de dois anos.”

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Eduardo Chartier

“Comemorando a passagem do 4º aniversário do falecimento do capitão Eduardo Chartier, que durante um período de mais de 40 anos prestou ao Brasil valiosos serviços de ordem técnica e científica, foi inaugurada no dia 31 do mês findo, no arrabalde de S. João [atualmente a rua pertence ao bairro Higienópolis], uma rua com o nome do saudoso extinto. Ao ato inaugural, efetuado pelo major Coelho Netto, chefe da Comissão da Carta Geral do Brasil, compareceram os oficiais da mesma corporação e grande número de amigos do homenageado, todos acompanhados de suas exmas. famílias, achando-se também presentes os elementos mais representativos da colônia francesa desta capital. O sr. Eduardo Chartier era filho da França, à qual em sua mocidade prestou relevantes serviços, tendo tomado parte na guerra de 1870, tornando-se brasileiro pelo muito que amou e se dedicou à nossa pátria, consagrando os recursos de seu preparo e inteligência à solução de problemas que diziam imediatamente com os altos interesses nacionais. Vindo da França em companhia do dr. Luiz Cruls, passou, em 1870, a trabalhar no Observatório Nacional, tendo feito parte da missão científica que determinou, no planalto central de Goiás, o local onde devia ser construída a capital federal do Brasil. Durante a revolta da esquadra, prestou ao marechal Floriano Peixoto os mais assinalados serviços, encarregando-se do remuniciamento das posições legais na baía do Rio de Janeiro e obtendo como recompensa a patente de capitão honorário do Exército brasileiro. Tomou parte na construção e montagem da fábrica de cartuchos do Realengo e foi membro proeminente da comissão de limites com a Bolívia, muito contribuindo para a determinação das nascentes do Alto Javari. De 1908 a 1922, dedicou-se inteiramente aos serviços da Carta Geral do Brasil, tendo de 1911 a 1912 feito parte como ajudante da comissão de limites entre os Estados do Amazonas e Mato Grosso. Pelas pessoas presentes, foram apresentadas à exma. viúva Chartier e a sua filha congratulações pelo ato de justiça que se vinha de prestar a tão devotado amigo do Brasil.”

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O dia 6 de novembro na história

  • 1494 Nasce em Trebizonda o futuro sultão otomano Solimão, o Magnífico, um dos mais importantes líderes do século XVI.
  • 1837 Começa na Bahia a revolta da Sabinada, liderada pelo jornalista e médico Francisco Sabino e pelo advogado João Carneiro da Silva.
  • 1860 Abraham Lincoln é eleito presidente dos EUA com apenas 40% do voto popular.
  • 1887 Fundado em Glasgow, na Escócia, o Celtic Football Club.
  • 1893 Morre em São Petersburgo o compositor russo Piotr Ilitch Tchaikovski, autor do “Lago dos Cisnes” e “O Quebra-nozes”.
  • 1913 Mahatma Gandhi é preso por liderar um protesto de mais de 2 mil mineiros indianos na África do Sul.
  • 1936 O governo republicano foge de Madri para Valencia durante a Guerra Civil Espanhola.
  • 1964 Morre em São Paulo a pintora, desenhista e professora Anita Malfatti.
  • 1965 Agentes dos governos chileno e argentino trocam tiros na região meridional de Laguna del Desierto, disputada pelas duas nações.
  • 1970 Nasce em Austin, no Texas, o ator americano Ethan Hawke.
  • 1975 O grupo punk inglês Sex Pistols faz sua primeira exibição, no St. Martin's Art College, em Londres.
  • 1975 Cerca de 350 mil marroquinos invadem o Saara Espanhol na chamada Green March a fim de reivindicar o território.
  • 1976 Cerca de 800 homens da vila de Uttawar, norte da Índia, são submetidos a vasectomia forçada durante o período da Emergência decretado pela primeira-ministra Indira Gandhi.
  • 1985 Soldados do grupo guerrilheiro de esquerda M-19 tomam o Palácio de Justiça de Bogotá, Colômbia.
  • 1988 Nasce no Arizona a atriz e produtora americana Emma Stone.
  • 1986 O senado americano descobre a venda secreta de armas ao Irã, com o dinheiro servindo para financiar os Contras da Nicarágua, grupo paramilitar de direita.
  • 1988 Dois terremotos na fronteira da China com Myanmar deixam 938 mortos.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios