Há um Século no CP

Tiroteio e morte entre policiais e militares no famoso Beco do Oitavo

Da edição de 16 de setembro de 1926, quinta-feira, n. 219

O tiroteio deixou dois mortos e outros feridos, além do pânico instaurado junto aos moradores da área
O tiroteio deixou dois mortos e outros feridos, além do pânico instaurado junto aos moradores da área Foto : CP Memória

“Os conflitos promovidos por milicianos licenciados ou de folga começam a revestir o mesmo inquietante e assustador aspecto de há meses atrás, quando durante dias a fio praças e oficiais inferiores da Brigada Militar sustentavam, em zonas suspeitas e mal frequentadas da cidade, cerrados tiroteios contra os que por dever lhes procuravam impor a disciplina, indispensável à manutenção da ordem a que estão sujeitos os próprios civis. Nessa ocasião, o comando superior da Brigada fez adotar medidas rigorosas contra os desordeiros. Durante meses, a população descansou. Mas de que, infelizmente, tais providências não estão mais em vigor, pelo menos com a severidade necessária, prova-o o bárbaro conflito de ontem entre praças da força estadual. Já dias atrás, como noticiamos, outro tiroteio se registrara, tendo como protagonistas soldados do Exército que, depois de promoverem distúrbios, receberam a bala a intimação da polícia, que procurava restabelecer a ordem. O que se impõe ante esses desatinos repetidos que sobressaltam bairros inteiros, eliminam vidas e põem em risco os transeuntes e, ainda mais, colocam em cheque o conceito, por todos os títulos honroso, dessas corporações — o que se impõe são providências corajosas, capazes de pôr cobro a tão selvagens atentados. Da eficiência das medidas preventivas é documento eloquente o largo período de tempo em que, graças à observância de ordens superiores, a crônica da cidade não registrou esses espetáculos vergonhosos. E se ainda agora, com aplausos gerais, a Chefatura de Polícia trata de tornar efetiva a proibição do porte de armas, nada mais natural que as autoridades militares, dispondo de outras facilidades, executem com dobrado rigor esse benéfico, salutar e eficaz recurso preventivo contra as frequentes e bárbaras desordens que, como a de ontem, tanto nos degradam. Passamos a narrá-la:

Na Rua da Olaria — Ainda não eram 10 horas da noite quando nos comunicaram que um nutrido tiroteio se travara no Beco do Oitavo [atual avenida Desembargador André da Rocha]. Em caminho para o local indicado, passamos pela rua da Olaria [atual rua Gen. Lima e Silva]. Um pouco adiante daquele beco, nessa rua, uma grande massa de povo rodeava o corpo de um soldado da Brigada, estendido na linha de bondes. Aproximamo-nos. A praça, que se achava embriagada, tinha a cabeça ferida. ‘É o que está menos ferido’, disse-nos o sr. Freitas Lima, subintendente do 2º distrito, que se achava ali em atividade. Após rápida palestra com essa autoridade, dirigimo-nos para o esconso beco, local da sangrenta ocorrência.

No Beco do Oitavo — Diante dos prédios números 11 e 13, outra massa de povo e soldados da polícia e do Exército. Numa poça de sangue, deitado no meio da viela, um outro soldado da Brigada Militar, gravemente ferido. Nesse ínterim, chegava o auto n. 4 do Posto Central conduzindo o ferido da rua Olaria. Mas havia outros feridos e estes mais gravemente. Um, o sargento da patrulha da Brigada; o outro, um dos soldados, alojados respectivamente nos prédios n. 13 e 11. O primeiro foi então transportado para a Santa Casa. Apresentava 3 ferimentos, todos de natureza grave. Enquanto faziam a remoção dos feridos acima mencionados, entramos no cochicholo que tem o n. 11. Nos fundos da casa, num pobre leito, agonizava uma outra praça também da Brigada Militar. Quando, passados rápidos instantes, voltava o auto ambulância para socorrê-lo, acabava ele de expirar.

A ocorrência — Passada a confusão estabelecida, procuramos sindicar das causas da ocorrência, cujas horríveis consequências já apreciáramos. Procuramos então ouvir o sr. Freitas Lima. Declarou-nos essa autoridade, a primeira que acudiu ao local do sangrento sucesso, que apurara mais ou menos o seguinte. Por volta das 9 horas e 45 da noite, aproximara-se da patrulha da polícia do segundo distrito o indivíduo Paulo Nunes Vieira, encarregado da casa de tolerância n. 13 do Beco do Oitavo. Nesse prédio, vivem numa promiscuidade repugnante homens e mulheres decaídos. Declarou o indivíduo em questão que, à viva força, empurrando o portão da frente da casa, penetrara na espelunca um grupo de soldados do batalhão de caçadores, provocando desordens. Declarou mais Vieira que no interior da casa se achavam duas praças da Escolta Presidencial [escolta do presidente do Estado, isto é, correspondente ao atual cargo de governador]. Posto ao corrente do fato, o sr. Freitas Lima recusou-se a intervir no caso em virtude de lhe ser isso vedado, pois os elementos turbulentos pertenciam a corporações militares, competindo a repressão dos seus excessos às respectivas patrulhas. O que se passava foi então comunicado ao sargento comandante da patrulha da Brigada Militar, destacada todas as noites para o serviço daquele ‘beco’. Imediatamente dirigiu-se para a espelunca apontada aquela patrulha, composta seguintes praças do 3º batalhão da Brigada: 3º sargento comandante Faustino de Lima, cabo Hugo Macedo Pires e soldados João Duarte de Amorim e José Thomaz Nascimento. Da esquina da rua Olaria, onde se achava, a referida patrulha dirigiu-se para a espelunca do ‘Beco do Oitavo’, entrando no prédio. Intimaram então os dois soldados da Escolta a que se retirassem, conseguindo fazer-se obedecer. Na rua, porém, essas praças, que se achavam embriagadas, tirando rapidamente das suas armas, gritaram à patrulha, atrevidamente, que não se entregavam. Apesar de seu número superior, a patrulha não pôde lutar com os desordeiros. Por uma razão que não se explica, os homens da patrulha da Brigada têm como única arma o sabre. Assim, em inferioridade para lutar contra os dois soldados da Escolta, procuraram eles evitar o conflito. Não o conseguiram, porém, pois as duas praças da Escolta, mal tinham empunhado os revólveres, fizeram fogo. O sargento, que marchava na frente, foi o primeiro a ser atingido. Em seguida, caiu uma das praças, de nome Hugo Macedo Pires. O cabo e a outra praça procuraram então escapar à sanha dos seus colegas da Escolta, refugiando-se numa parede vizinha. Vendo cair dois dos colegas de farda, as duas praças da Escolta fugiram em direção à rua da Olaria, seguindo-os então o cabo e a outra praça da patrulha. Naquela rua, os dois desordeiros continuaram a fazer fogo. Quando o de nome Avelino Ferreira disparou o último projétil da arma, foi alcançado pelo sr. Freitas Lima e praças da polícia do 2º distrito e que, com uma pancada de espada na cabeça, fizeram-no cair. O outro soldado da Escolta, que tem o nome de Dorvalino Severo, continuou a correr, fazendo fogo contra a polícia. Depois de dar a volta, entrando novamente no ‘Beco do Oitavo’ e nas proximidades da espelunca de onde havia saído momentos antes, caiu com um balaço no tórax. Quanto ao autor desse ferimento, nada ficou apurado. Pode-se afirmar que não foi ele produzido pelas duas praças da patrulha, que não possuíam revólveres. Disse-nos o sr. Freitas Lima que as praças da patrulha sob as suas ordens não dispararam as suas armas. Os agentes de guarda à esquina do ‘Beco’ declararam também que não atiraram. A descrição que acima fazemos da sangrenta ocorrência obtivemos, como declaramos, em parte do sr. Freitas Lima, de outras testemunhas e do cabo Hugo Macedo Pires, um dos protagonistas do fato.

Os socorros aos feridos — Com exceção de uma das praças feridas, que teve pouco tempo de vida, todos foram imediatamente atendidos pelo posto Central. O auto da assistência, que compareceu com presteza ao local, conduzia, além do enfermeiro Boaventura, o dr. Humberto Wallau, médico de plantão. A praça ferida na rua da Olaria à espada é como acima dissemos, Avelino Ferreira, e foi um dos promotores desse triste acontecimento. Transportado para o Posto Central, depois de medicado, foi recolhido preso ao quartel do 3º batalhão. Apresenta algumas contusões na cabeça. O outro, com quem deparamos estendido defronte à espelunca, é o seu companheiro de desordem. Chama-se Dorvalino Severo de Lima, com 21 anos, de cor branca. Apresentava ele fratura do braço direito e um ferimento de bala no tórax. À hora em que escrevemos, essa praça está sendo operada na Santa Casa pelos drs. Perroni e Almir Alves. O seu estado é grave.

As vítimas do dever — O sargento da patrulha, o primeiro a ser ferido, foi conduzido para a espelunca e daí, em vista da gravidade do seu estado, transportado para a Santa Casa. Quando dava entrada nesse estabelecimento, veio a falecer. Tinha mais ou menos 25 anos de idade. Apresentava vários ferimentos, todos de natureza grave. A outra praça, João Duarte de Amorim, que expirou no prédio nº 11, como acima dissemos, foi atingida no ventre. Tinha pouco menos de 22 anos de idade.

A ação das autoridades — Além do sr. Freitas Lima, que tomou as primeiras diligências e quase foi atingido por um projétil, compareceram ao local outras autoridades. Logo que teve conhecimento do fato, dirigiu-se para o antigo ‘Beco do Oitavo’ o sr. Dario Barbosa, delegado de plantão. Simultaneamente, chegava ali o 1º tenente da Brigada Militar Othelo Frota, oficial de ronda. Em virtude de estarem envolvidos no caso unicamente praças da milícia estadual, foi ele entregue àquele oficial, que tomou todas as providências que o caso requeria. Assim, acompanhou ele os feridos à Santa Casa e fez recolher presa, depois de medicada no Posto Central, a praça Avelino Ferreira, ao quartel do 3º batalhão. Pelo referido oficial foram interrogados o cabo e o soldado sobreviventes da sangrenta cena. Voltando acompanhado do sr. Freitas Lima à espelunca, o tenente Frota efetuou a prisão do cabo do Grupo de Metralhadoras Ventura Rufino, que ali se achava.

A patrulha do 7º batalhão conduziu ao quartel o soldado vulgo ‘Bombardão’, que se achava naquela casa de tolerância no momento da ocorrência.”

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Aniversário tricolor

“Comemorou ontem o seu 23° aniversário o Grêmio Porto-Alegrense, vice-campeão do Estado. O dia de ontem foi de intenso júbilo para os associados do tricolor da cidade, campeão de 1925, pela passagem do aniversário da sua fundação. Justo e natural o contentamento dos agremiados do clube dos Moinhos de Vento, pois a vida desportiva do Grêmio tem sido das mais brilhantes desde o dia do seu aparecimento nos campos de ‘football’ até a data de hoje. Bem grande é a sua bagagem de vitórias, algumas conseguidas contra clubes estrangeiros e outras enfrentando os mais fortes conjuntos do nosso Estado. Ainda no ano passado, conseguiu o Grêmio colocar-se em segundo lugar na classificação dos que concorreram ao maior título desportivo do Estado, já tendo também levantado esse título em 1919, se não nos falha a memória. Dos quadros gremistas saíram jogadores do valor de Sison, Kuntz, Lagarto e Floriano, sendo que estes três últimos ainda estão em perfeita forma, atuando nos primeiros ‘teams’ dos mais fortes clubes do Rio e São Paulo. Lagarto e Floriano já foram escalados para componentes do ‘team’ carioca que disputará o Campeonato Brasileiro de Football [de seleções estaduais]. Pelo afastamento obrigado do sr. James Buchi, eleito para a presidência do clube na vaga deixada pelo sr. Luiz Pinto Chaves, assumiu este posto o sr. Augusto Kock, primeiro vice-presidente e um dos seus sócios fundadores. Não é esta a primeira vez que o desportista Augusto Kock ocupa o mais alto posto administrativo do seu clube, que muito lhe deve, como o desporto do Estado, pelos inúmeros e grandes serviços prestados. [...]”

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Vitória feminina

“Iniciou-se há dias na Câmara dos Deputados um concurso para o acesso à base inicial de secretários daquele Congresso Nacional. Entre os candidatos, em número de onze, figurava a senhorita Dallila Fernandes Brasil. E aos que assistiram às provas a que ela foi submetida impressionou desde logo a serenidade e a segurança com que falou a candidata, discutindo interessantes pontos do Direito Constitucional pátrio. Entre os dez varões concorrentes, a senhorita Dallila Fernandes sobressaiu-se, mostrando possuir uma clara intuição da ciência do Direito e apreciáveis conhecimentos da matéria em que era examinada. Nem porque girasse a prova em torno de meras noções de Direito Constitucional brasileiro e sem ‘bancar’ de erudita, deixou aquela interessante concorrente de entremostrar a sua inteligência, a sua capacidade para maiores surtos nos domínios da ciência. Tem-se falado muito ultimamente em feminismo, na generalidade com um ceticismo recheado de boa dose de humorismo. Mas uma vitória dessas, do são feminismo e que talvez passe despercebida, é que se deve acoroçoar com todas as veras d'alma, estimulando o desenvolvimento da mulher brasileira.”

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O dia 16 de setembro na história

  • 1736 Morre em Haia o físico e inventor polaco-holandês Daniel Gabriel Fahrenheit, desenvolvedor do termômetro.
  • 1810 O padre Miguel Hidalgo inicia a guerra de independência do México com o “Grito de Dolores”.
  • 1848 A escravidão é abolida em todos os territórios franceses.
  • 1896 Morre em Belém do Pará o compositor Antônio Carlos Gomes, autor de “O Guarani”.
  • 1908 Fundação da corporação automobilística americana General Motors.
  • 1914 Nasce em Porto Alegre o compositor Lupicínio Rodrigues, autor de diversos sambas-canção, marchinhas, além do hino do Grêmio FBPA.
  • 1915 Os EUA assumem o controle das alfândegas e das finanças haitianas por 10 anos.
  • 1920 Uma bomba carregada por uma carroça explode em frente ao prédio do banco J.P. Morgan, em Manhattan, Nova Iorque, deixando 38 mortos e cerca de 400 feridos.
  • 1925 Nasce no Mississippi o guitarrista, cantor, compositor e produtor americano B. B. King, ícone do blues.
  • 1945 Termina a ocupação japonesa de Hong Kong.
  • 1955 Lançado à meia-noite o golpe militar para destituir o presidente argentino Juan Perón.
  • 1956 Nasce em Metuchen o mágico e ilusionista americano David Copperfield.
  • 1959 A primeira fotocopiadora, Xerox 914, é apresentada ao vivo na TV, em Nova Iorque.
  • 1963 O Santos vence o Milan por 1 a 0 no Maracanã em partida de desempate do Mundial Interclubes e se torna bicampeão do mundo.
  • 1963 A Malásia é formada integrando a Federação Malaia, Singapura (que logo será retirada da união), Sabah e Sarawak.
  • 1973 O professor, dramaturgo, poeta e compositor chileno Victor Jara é assassinado pelo regime militar de Augusto Pinochet logo após o golpe de 11 de setembro.
  • 1975 Papua Nova-Guiné adquire a independência da Austrália.
  • 1976 “A Noite dos Lápis”: a ditadura civil-militar argentina sequestra e tortura uma dezena de estudantes do ensino secundário em La Plata; seis morrem.
  • 1976 Morre no Rio de Janeiro a zoóloga e diplomata Bertha Lutz, ícone do movimento feminista e dos direitos humanos.
  • 1978 Terremoto de Tabas, no Irã, mata ao menos 15 mil pessoas.
  • 1979 Oito pessoas escapam da Alemanha Oriental em direção ao oeste voando em um balão de ar quente caseiro.
  • 1980 Morre em Genebra o psicólogo suíço Jean Piaget, importante pesquisador do desenvolvimento infantil.
  • 1982 Entre 1300 e 3500 pessoas são assassinadas em Beirute no Massacre de Sabra e Shatila, durante a Guerra Civil Libanesa.
  • 1992 Termina nos EUA o julgamento do ditador panamenho Manuel Noriega, condenado a 40 anos de prisão por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
  • 2005 Paolo Di Lauro, chefão da Camorra, a máfia napolitana, é preso em Nápoles.
  • 2016 Morre em Roma o político e banqueiro italiano Carlo Azeglio Ciampi, em-primeiro ministro e ex-presidente da Itália.
  • 2017 Morre em São Paulo o jornalista Marcelo Rezende.


* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios