“Há poucos meses, saía do porto de Marselha um iate que não se distinguia dos iates comuns senão pelo reduzido de suas proporções. Além da fragilidade e pequenez, nada mais chamava a atenção no ‘Bonita’, que tal era o nome do elegante barco. Entretanto, quem se aproximasse dele haveria de notar, com estranheza, que toda a tripulação (e não eram mais de quatro pessoas...) era composta de mulheres.
Com efeito, quatro moças francesas, mademoiselles E. Maillard, Y. de Saussure, Marthe Oulié e H. de Saussure, tinham resolvido fazer uma larga travessia marítima a bordo de pequenino iate sem motor, medindo onze metros de comprimento e deslocando apenas 16 toneladas.
As duas últimas ‘sportswomen’, Mlles. Marthe Oulié e H. de Saussure, tinham já granjeado fama de corajosas em um ‘raid’ marítimo de 1.700 milhas, feito através das ilhas do mar Egeu em um pequeno bote, o ‘Perlette’. Desta vez, porém, a viagem era mais importante, e não iam apenas as duas moças — as senhoritas Y. de Saussure e E. Maillard juntaram-se às valorosas marinheiras para compartilharem os mesmos riscos e... a mesma celebridade.
Peritas nas artes náuticas, as quatro moças cruzaram os mares, brincando com o velho Netuno e zombando de suas cóleras terríveis. Nenhum acidente ocorreu durante a longa e monótona viagem a bordo do pequeno iate. Enquanto uma manobrava o leme e outra acudia ao velame do barco, as outras duas descansavam tranquilamente, fitando o azul do céu e o verde das águas. Ou liam o seu romance de amor ou (o que é mais provável em espíritos tão práticos) as confissões de Henry Ford.
Ali pelas proximidades da Sardenha, o ‘Bonita’ encontrou uma parte da frota britânica do Mediterrâneo. A equipagem dos vasos de guerra ingleses fez às jovens marujas a mais entusiástica acolhida. E o ‘Bonita’ a seguiu viagem. Ao chegar às águas da Grécia, lá estava já a mesma esquadra britânica. Foi, então, que o ‘Bonita’ recebeu a visita oficial do comandante em chefe da esquadra, o almirante Sir Roger Keyes, fino ‘gentleman’, que é também um grande marinheiro. Foi ele o vencedor da esquadra alemã em Zeebrugge. Pode-se orgulhar de ter estado muitas horas sob o fogo de uma das esquadras mais poderosas dos últimos tempos. É o relato dessa visita, curiosa na história naval da Inglaterra, que vamos dar aqui, escrito pela própria mademoiselle Marthe Oulié nas páginas de seu ‘Diário de bordo’.
‘A esquadra estará dentro de alguns dias em Angostoli’, disseram-nos em Sardenha. E o dreadnought ‘H. M. S. Marlborough’, que nos acolheu em Sardenha, e que depois passamos a considerar nosso padrinho, ofereceu-se para nos receber durante todo o tempo que permanecêssemos em Cephalonia. À força de lutar contra as ventanias e contra as vagas, esse encontro tomou aos nossos olhos o valor de um desafio em que estaria em jogo a honra do ‘Bonita’. De Messina, durante três dias e três noites, através de um mar revolto, ‘Bonita’, duramente provada, navegou para as águas helênicas. À terceira noite, ao largo do canal de Otranto, o mar adoçou. Foi preciso arriar lentamente a vela grande e navegar lentamente durante 12 horas. Quando chegamos diante da baía de Angostoli não sabíamos precisamente em que dia estávamos.
A esquadra britânica ainda estaria no porto? Quando a tarde caiu, vimos os mastros dos couraçados acima das colinas.
‘Bonita’ não tinha faltado ao encontro marcado. A imensa baía está coalhada de navios de todos os feitios e nacionalidades. Como reconhecer, entre tantos vasos de guerra, o nosso amigo ‘Marlborough’? Não ousamos fazer sinais porque os couraçados estão cobertos de bandeiras que sobem e descem constantemente. Uma embarcação a vela, cheia de oficiais, passa junto do ‘Bonita’. Indicam-nos o ‘Marlborough’. Nós nos dirigimos para ele. Passamos junto ao ‘Queen Elizabeth’, que ostenta o pavilhão em chefe da esquadra. O comandante do ‘Marlborough’ faz-nos sinais de amizade e convida-nos a jantar logo que chegamos ao alcance de sua voz.
Em breve dois escaleres se aproximam do ‘Bonita’ — um do ‘Marlborough’, que nos traz as boas-vindas da oficialidade e guarnição do navio, e outro do ‘Queen Elizabeth’, em cujo bordo um oficial do estado-maior nos traz um convite do comando em chefe para assistirmos a uma representação que se efetuará hoje mesmo à noite, a bordo do navio capitânea. Cheias de cansaço, escusamo-nos, apesar da amável insistência do tenente King-Hall, que se diz desgraçado se não aceitamos o convite.
A bordo do ‘Marlborough’, quando afirmamos que não tínhamos feito sinais por causa dos que se faziam nos navios da esquadra, todo mundo ria a bom rir; esses sinais eram para nós. De todos os lados dizia-se para o ‘Marlborough’: ‘Atenção! Vede o que chega! Um 'yacht' francês à vista! Preparai vossa 'Marselhesa’!’
Durante todo o dia seguinte, que era domingo, assistimos à vida do couraçado: à inspeção dos marinheiros, ao serviço religioso, etc. O comandante em chefe convida-nos para almoçar. Ao portaló do ‘Queen Elizabeth’ o almirante espera-nos, cercado de seu ajudante de campo, chefe do estado-maior e de vários outros oficiais. Sir Roger Keyes, o vencedor de Zeebrugge, é extremamente simpático. Seu sorriso acolhedor é de uma firmeza impressionante. Mas a simplicidade de suas maneiras põe-nos imediatamente à vontade.
O almoço é servido na mesma mesa em que foi assinada a rendição da frota alemã. A placa que comemora esse acontecimento está diante de meus olhos. O almirante faz-nos muitas perguntas e fala-nos dos navegadores solitários que conhece. Comenta os quadros que ornam as paredes e que se referem aos episódios da guerra em que tomou parte. É enorme a popularidade do comandante-em-chefe. Ele apertou a mão de todos os homens da frota do Mediterrâneo ‘a fim de que cada um tivesse a impressão de ser pessoalmente conhecido por ele’.
O almirante dá-nos fotografias do navio com dedicatória e um pequeno tratado de navegação à nossa ‘little captain’. Duas horas depois, um escaler traz-nos a bordo do ‘Bonita’, com o almirante Roger Keyes e seu ajudante de campo. Seu olhar percorre com benevolência todo o minúsculo navio... mas detém-se na placa de cobre onde está gravado o nome do ‘Bonita’, que nós tínhamos esquecido. Explicamos que esse esquecimento é proposital para escaparmos à curiosidade dos jornalistas... Nossos visitantes são tão altos que mal cabem na pequenina cabine... O almirante parece admirar-se das pequenas dimensões de um tal iate que vem de Marselha e diz-nos que este encontro é único na história da esquadra.
Em seguida, o escaler leva-nos todos a bordo do ‘Marlborough’. Todos os apitos silvam ensurdecedoramente anunciando a chegada do chefe da esquadra.
A frota britânica vai partir. O ‘Marlborough’ parte às 8 horas, enviando-nos prolongados adeuses. O ‘Queen Elizabeth’ sai duas horas depois. O escaler, único que ainda está fora, vai deixar-nos a bordo do ‘Bonita’. A grande massa do ‘Queen Elizabeth’ desaparece dentro da noite. Estamos agora frente a frente com o ‘Bonita’ e com o que já não é mais que uma encantadora lembrança…’
E foi assim que se encontraram nos mares da Grécia a formidável esquadra inglesa do Mediterrâneo e um pequenino iate, tripulado por quatro corajosas moças francesas…”
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Loucura
“O nosso colega ‘O Nacional’, de Passo Fundo, publicou a seguinte correspondência de Barro, estação da Viação Férrea que fica naquele município: ‘Esta pacata localidade foi teatro de uma lamentável ocorrência, terça-feira, às 22 horas, mais ou menos. As autoridades policiais de Baliza enviaram para cá, a fim de ser internado no hospício, o demente Frederico de tal, polaco, e que nos seus estados de fúria tudo destruía. Frederico foi alojado na cadeia e, como se mostrasse calmo, não foi vigiado. À noite o louco, vendo-se só, arrombou a porta e, munindo-se com a respectiva tranca, saiu para a rua e dirigiu-se à residência do sr. Ignacio Kaper, e com a tranca, com fortes golpes, destruiu a porta. O sr. Kaper, que estava dormindo, acordou sobressaltado e, não sabendo que se tratava de um louco, deu um tiro no vulto que assim o acordava. O louco mais enfurecido ficou e, avançando com a tranca com o propósito de espancar o sr. Kaper, este deu mais um tiro que acertou no pescoço do louco, que caiu. Nesse ínterim, acudiam ao local os srs. José Pinto e João Ursi, e Frederico, levantando-se, agride Ursi e José Pinto, que fez uso do revólver, prostrando-o com certeiro tiro na fronte. Em seguida compareceu ao local o capitão Oswaldo Sintz, que tomou as providências cabíveis no caso. Frederico era natural da Polônia, tinha cerca de trinta anos e desde os 15 anos que era louco. Este fato muito impressionou os moradores desse lugar’.”
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O dia 28 de abril na história
- 1503 Os exércitos espanhóis e franceses se enfrentam no sul da Itália na Batalha de Cerignola, no que foi um dos primeiros confrontos europeus a utilizar armas de fogo com pólvora.
- 1889 Nasce em Vimieiro o economista e estadista Antonio de Oliveira Salazar, ditador do Estado Novo português entre 1932 e 1968.
- 1896 Nasce na Romênia o poeta e artista performático Tristan Tzara, fundador do movimento dadaísta.
- 1923 O estádio londrino de Wembley é inaugurado oficialmente com o nome de Empire Stadium e sedia a final da FA Cup entre Bolton Wanderers e West Ham United.
- 1928 Fundada no Rio de Janeiro a escola de samba Estação Primeira de Mangueira.
- 1937 Nasce o político revolucionário Saddam Hussein, líder iraquiano entre 1979 e 2003.
- 1937 O virologista sul-africano Max Theiler anuncia uma vacina eficaz contra a febre amarela.
- 1941 A organização fascista croata Ustase executa cerca de 200 sérvios na vila de Gudovac, iniciando a campanha genocida contra sérvios no Estado Independente da Croácia.
- 1945 Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci são executados pelo partiggiano Walter Audisio.
- 1945 A Alemanha nazista utiliza pela última vez as câmaras de gás para executar 33 líderes socialistas e comunistas austríacos em Mauthausen.
- 1952 Entra em vigor o Tratado de San Francisco, restabelecendo a soberania japonesa e encerrando o estado de guerra do país com a maioria dos Aliados.
- 1952 O Tratado de Paz Sino-Japonês é assinado em Taipei, Taiwan, e oficialmente encerra a segunda guerra entre a República da China e o Império do Japão.
- 1953 Nasce em Santiago o poeta e escritor chileno Roberto Bolaño, autor de “Os Detetives Selvagens”.
- 1965 Tropas americanas invadem a República Dominicana para “prevenir o estabelecimento de uma ditadura comunista”.
- 1967 O boxeador Muhammad Ali se recusa a servir na Guerra do Vietnã e é destituído de seus títulos no esporte.
- 1969 O general Charles De Gaulle se demite do cargo de presidente da França.
- 1973 O álbum “The Dark Side of the Moon”, da banda britânica Pink Floyd, chega ao primeiro lugar na Billboard, iniciando sequência recorde de 741 semanas na liderança.
- 1978 O presidente do Afeganistão, Mohammad Daoud Khan, é deposto e assassinado em golpe liderado por rebeldes pró-comunistas.
- 1986 Altos níveis de radiação de Chernobyl são detectados na Suécia, forçando as autoridades soviéticas a admitir o acidente.
- 1992 O presidente italiano Francesco Cossiga renuncia oficialmente ao cargo, lançando o país em grave crise constitucional.
- 1999 Morre em Ipswich o ex-treinador inglês Alf Ramsey, técnico campeão mundial com a Inglaterra na Copa de 1966.
- 2004 A rede televisiva americana CBN divulga evidências de abusos e torturas de prisioneiros em Abu Ghraib, no Iraque.
- 2015 Morre em São Paulo o ator, crítico e intelectual Antônio Abujamra.
* A grafia está atualizada para as normas atuais, à exceção dos nomes próprios
