Ângela e Aznavour, dois grandes
Que perdas! Ângela Maria e Charles Aznavour. Sempre fui fã dois dois. A cantora morreu no último sábado, aos 89 anos de idade. Aznavour ontem, aos 94. Eram conservadores em política. Ela brilhou muito nos anos 1950, quando foi apelidada de Sapoti por Getúlio Vargas. Gostos são curiosos e, no fundo, inexplicáveis. Conferi o que escutei diariamente nos últimos sessenta dias: Mahler, Chopin, Beethoven, Mendelssohn, Cesária Évora, Chet Baker, Chico Buarque, Charles Aznavour e Ângela Maria. Gosto do Criolo. Não curto Andrea Bocelli.
Acho que fui a todos os shows de Ângela Maria em Porto Alegre desde que me fixei na capital leal aos imperiais e inimiga dos farroupilhas. Gostava da voz dela, claro, e das coisas que ela cantava. Artistas dão muita importância às músicas. Ouvintes como eu dão enorme importância às letras. No último sábado, no Araújo Vianna, o gigantesco Milton Nascimento interpretou algo sem letra. A plateia aceitou. Explodiu quando a seguinte foi “amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito”. Fui ver a última apresentação de Aznavour por aqui.
Há uma deliciosa breguice em letras como esta: “Saudade, palavra triste quando se perde um grande amor/Na estrada longa da vida eu vou chorando a minha dor”. Quem não é brega vez ou outra? O problema é ser brega todo tempo. Triste é ver que quando se digita “meu primeiro amor” no google a primeira canção que aparece não é o sucesso de 1952 com Cascatinha e Inhana, mas uma de Priscilla Alcântara. Continuo a ouvir Ângela Maria cantando “Não tenho você”, “Moça Bonita”, “A noite da despedida” e tantas outras.
Em 2015, entrevistei Ângela Maria para o Caderno de Sábado. Ela explicou o apelido que ganhou de Getúlio: “Encontrei Getúlio Vargas uma única vez. Lembro como se fosse hoje. Foi numa festa na casa do diretor da Rádio Nacional, Victor Costa. Era uma virada de ano. Tinha muita gente. Alegria e descontração total. Getúlio parecia muito satisfeito. Sorria muito. Eu estava começando a minha carreira depois de muito esforço. Tinha apenas dois anos de estrada. Achei até estranho ter sido convidada. À meia-noite, os artistas fizeram fila para cumprimentar Getúlio. Fiquei por último, a menorzinha. Quando, finalmente, cheguei perto dele, Getúlio me disse: ‘Ah, Sapoti, que alegria te ver’. Fiquei surpresa. Não entendi bem. Amarrei a cara. Ele percebeu que eu não tinha gostado. Quis saber qual era o problema, se eu não estava gostando de alguma coisa. Aí eu falei: ‘Como vou gostar, o senhor está me chamando de jabuti?’ Getúlio abriu seu sorriso: ‘Não, não é Jabuti, menina. É sapoti. Uma fruta doce como o mel e como a tua voz’. Ali, naquela hora, ele me batizou de Sapoti. Pegou. Quando fui à Europa, os jornais já me chamavam assim. Fiquei Sapoti para sempre”. Aznavour era talento puro com ironia e emoção.
Um tempo vai saindo de cena. Todo dia uma morte estampa o fim de uma bela época, que deixa, no entanto, as suas marcas. Mas também elas vão sendo apagadas pelos novos tempos cruéis. O presente é implacável. Não tolera o que não é moderno. Eis certamente a palavra mais arrogante de todos os tempos: modernidade. Igual a ela só a tradição. O ponto alto de Ângela Maria é a interpretação de “Gente Humilde”. O de Aznavour, “emmenez-moi”.