Juremir Machado da Silva

É proibido ter razão

Lateral-esquerdo Lúcio ainda é dúvida no Grêmio
Lateral-esquerdo Lúcio ainda é dúvida no Grêmio Foto : Fabiano do Amaral/CP Memória
– Ter certeza de que se está com a razão é uma demonstração de arrogância.

– Tens razão.

– Estás me chamando de arrogante?

– Mil desculpas. Não era minha intenção.

– Pode não ter sido, mas me ofendeu.

– Tens razão.

– De novo?

Estamos atolados na retórica da pós-verdade. Não escapamos de sofismas. Tornou-se clichê que cada um deve duvidar de si quanto sentir ou souber que tem razão. Estar certo e saber disso pega muito mal. Uma pessoa legal precisa se mostrar humilde, discreta e cheia de dúvidas. Como fazer quando o outro também está convencido de ter razão? Dar-lhe a razão por modéstia? Ou ambos devem duvidar de suas razões? Parece conversa fiada, mas pode levar a discussões apaixonadas e fatais.

– Os fatos me dão razão.

– Não há fatos. Só interpretações.

– Isso é um fato ou uma intepretação?

– Uma interpretação.

– Como faço para saber se é uma boa interpretação?

– Confia em mim. Não tem verdade definitiva.

– Salvo essa?

– Não falo mais contigo. Detesto ironias.

Às vezes, depois de muita briga e de pouca solução, como deve ser uma discussão de mesa de bar ou mesa de debates de outra natureza, os oponentes resolvem contemporizar e fica pior:

– Tudo bem, posso estar errado.

– Não, não, eu é que posso não estar certo.

– Não, faço questão de admitir, fui eu.

– Não, fui eu.

– Estás querendo provar que o arrogante sou eu?

– E tu, queres me dar uma aula de modéstia?

Antigamente a verdade era externa aos seres humanos. Era nisso que se acreditava. Verdade era o que coincidia com terminada situação dita empírica. Se alguém dizia que estava chovendo, bastava sair e confirmar. Meia dúzia de pingos na cabeça e tudo terminava muito bem. Esse tipo de verdade, simples demais, já não interessa. O cidadão comum espera verdades mais complexas:

– Qual a melhor forma de governar?

A resposta não se encontra na natureza. Não dá em árvore. Dá onde? Eis a pergunta. Ter razão faz passar a ideia de que a pessoa sabe tudo ou que se toma por um gênio. O que fazer num caso assim:

– Eu sei que tenho razão. O que faço?

– Mente.

– Por quê?

– É o outro que deve reconhecer que tens razão.

– Mas ele acha que tem razão!

– É tu quem tem de reconhecer isso.

– Mas eu não reconheço.

– Finge.

Ter razão é um problema. O outro exige provas que jamais reconhecerá. Na pós-verdade, todos têm razão. É questão de ponto de vista e até de direito. A razão deve ser compartilhada. Uma ideia em discussão pretende estabelecer um rodízio. Ter razão dois dias seguidos é sempre abusivo.

– Estou preocupado.

– Que houve?

– Começo a pensar que eu tenho razão...

– Ah, não! Hoje é a vez do Fábio.