O simples se esconde por trás do complexo. A corrupção, que deve ser implacavelmente combatida e que atinge a maioria dos grandes partidos brasileiros, é um pretexto para a Direita Miami extravasar o seu ódio de classe contra o petismo e sua opção, em algum momento, pelos pobres, com o ProUni, Minha Casa Minha Vida e Bolsa Família. Isso, de certa forma, já passou. O paradoxo é este: a Direita Miami e a mídia lacerdinha querem derrubar Dilma no exato momento em que ela está fazendo uma política de direita, tentando cortar benefícios trabalhistas, com ajuda de um ministro tucano na pasta da Fazenda.
O ódio de classe é mais forte. A direita quer pegar um atalho para se livrar desses anos de petismo, de políticas assistencialistas, de classe C andando de avião, de não brancos ocupando bancos universitários e de mecanismos de contestação da falsa meritocracia da elite baseada numa competição entre ricos bem preparados e pobres sem preparação. O atalho atende pelo nome de impeachment. Este, quando não devidamente motivado, é só o apelido do golpe. A direita poderia estar contente contando os milhões que ganhou na era petista. O petismo fez um pacto com as elites: propôs governar no lugar dela, dando-lhe muito dinheiro e cargos importantes, em troca de migalhas para os pobres. A direita cansou disso.
Não gosta de pobres em aeroportos. Quer governar ela mesma.
A direita cansou de terceirizar o poder para a esquerda ou o arremedo de esquerda representado pelo PT. O pacto previa, pelo jeito, desviar dinheiro público fraternalmente uns se inspirando nos outros. O PT teria copiado e aprimorado o mensalão mineiro e feito o mesmo na Petrobras. A direita Miami é um escorpião. No meio do rio, resolveu picar o sapo (com ou sem barba) para livrar-se dele. Tem pressa. Não consegue esperar a próxima eleição. Teme justamente mais uma derrota com um possível retorno do batráquio. Poderia ver Dilma no papel de rainha da Inglaterra. Quer vê-la como Maria Antonieta. O PSDB dá o tapa e esconde a mão. Quer o impeachment sem pedi-lo escancaradamente. O PMDB morre de ansiedade. Se o PSDB conseguir derrubar o corrupto PT, o poder cairá no colo dos impolutos Michel Temer, Eduardo Cunha e Renan Calheiros.
O futuro se mostra radioso.
Neste domingo, em Miami, nos Jardins paulistanos, no Leblon, na Barra da Tijuca e no Moinhos de Vento, entre outros espaços nobres, panelas Teflon virarão instrumento político. A direita milionária contará com a adesão de parte da plebe, a que teme perder direitos trabalhistas, política dos sonhos da direita sendo implementada no governo petista pelo ministro tucano Joaquim Levy. O ódio de classe é mau conselheiro: a Direita Miami quer derrubar Dilma, com ajuda de parte da população que se beneficiou das políticas sociais do petismo, justamente quando a presidente já entregou os anéis e parece disposta a oferecer os dedos ao demo-tucanato para continuar reinando. A mídia lacerdinha está à beira do orgasmo. Surgem pesquisas sem origem dando Dilma como liquidada. O golpe avança. O Brasil toma, cada vez mais, um ar de Venezuela. Pelo lado direito.