Juremir Machado da Silva

3 de outubro de 1930 em Porto Alegre

3 de outubro de 1930 em Porto Alegre

Como se descreve uma revolução? Alguns tentarão um tom épico. A descrição de Gil de Almeida será bem menos gelada. Ele se sentirá traído e humilhado. O quadro é nítido: metralhadoras instaladas nos prédios vizinhos, inclusive na Igreja das Dores, soldados subornados para inutilizarem armamentos, trincheiras escavadas providencialmente pelo Departamento de Obras e Esgotos.
“A voz de já do comandante [contará Gil de Almeida, uma secção de guardas invade o portão principal e assassina um soldado, sem armas, que estava ali parado (...) O major Otávio Cardoso, diretor do C.P.O.R, é alvejado a queima-roupa no momento em que penetrava na cabine do elevador (...) Imediatamente seus assassinos despojam-no do revólver, do relógio-pulseira e dos vencimentos ainda no seu bolso (...). Doloroso é confessar que a defesa estava, de começo, positivamente anulada (...) As metralhadoras não funcionam por falta de percussores (...) O Dr. Cavalcanti, ao aproximar-se da janela, recebe no ombro esquerda uma rajada de metralha, tombando em seguida. Sua arma passou a uma das minhas filhas. A horda havia ocupado o Quartel-General. A luta tinha durado cerca de 20 minutos”. Longos 20 minutos.

Virgílio de Melo Franco tentará ser descritivo: “Às dez horas da noite, entrava o sr. João Alberto em palácio, vindo do morro Menino Deus, já reduzido e ocupado por nossa gente, a qual tivera baixas relativamente pequenas. O esquadrão da Região também estava ocupado, depois de um duelo trágico entre o seu comandante, capitão Jaime Argolo Ferrão, e o tenente da reserva Setembrino Palma. O capitão Argolo Ferrão ficou estendido, morto, diante de sua tropa, com a cabeça estourada por uma bala. Assim, pois, estavam dominados: o Quartel-General; o Arsenal da Guerra, o 8º BC; o 9º BC; o Esquadrão da Região; o Curso de Preparação Militar; o Contingente da Carta Geral e mais a companhia de Estabelecimentos situada nas proximidades do Parque da Redenção. Aquela hora – onze da noite – apenas o 7º BC continuava a opor obstinada e tenaz resistência aos atacantes. Contando apenas, para reagir, com metralhadoras e fuzis, o comandante do 7º BC, Benedito Marques da Silva Acauan – cunhado do general Flores da Cunha – parecia disposto a vender caro a sua derrota. A fuzilaria apertava cada vez mais. Os sitiados, porém, batiam-se como demônios, freneticamente, varrendo de metralha a praça fronteira ao quartel”.
Nada mais há a perder. Morteiros são disparados contra o quartel resistente. As chamas se alastram e anunciam o fim de uma época. É hora de negociar. Depois de uma primeira tentativa frustrada com um portador extraviado, Virgílio de Melo Franco alcança o limite das linhas de fogo com a ordem de suspensão das hostilidades. Acauan envia o tenente Olinto de França Almeida Sá para confirmar a prisão de Gil de Almeida e a supremacia das forças rebeldes. Está tudo liquidado (fragmento do meu livro “1930: águas da Revolução”, lançamento especial em promoção do Grupo Record-RS e da editora Record).