50 anos sem Albert Camus
Albert Camus, Nobel de Literatura de 1957, morreu em 4 de janeiro de 1960. Há 50 anos. Camus nasceu na Argélia. Muitos intelectuais franceses de primeira grandeza nasceram na Argélia, que foi colônia francesa e só se libertou da zelosa metrópole no pau. Camus, já se disse, tinha cara de garagista. Não sei até que ponto isso influiu na sua obra. Mas era uma cara tão absurda quanto “O estrangeiro”, seu livro mais famoso e estupendo. Camus era melhor do que Sartre. Eles foram os dois titãs de uma época em que nem só o futebol gerava grandes polemicas. Camus amava o futebol. Sartre, duvido. Camus foi goleiro. Não prosperou na carreira por causa da tuberculose, mais adequada ao trabalho de escritor. É de Albert Camus esta frase impressionante, não do nosso presidente Lula: “O que finalmente eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem devo ao futebol...”.
Sartre e Camus foram amigos. Separaram-se quando Camus publicou “O homem revoltado”. Sartre foi o típico intelectual engajado. Caía em qualquer armadilha em nome das boas causas. Aceitou mentir para justificar o stalinismo e não estragar a missão do proletariado. Camus não fazia esse tipo de jogo. Durante algum tempo, Camus foi considerado um cego em relação ao visionário Sartre. O tempo mostrou quem tinha razão. Sartre sabia surfar nas ondas do seu tempos e até criar as modas da sua época. Camus sabia navegar contra a correnteza e não ceder diante dos modismos. Escrevia como um deus. Das suas páginas, como nos livros de qualquer bom escritor francês, pingam ideias. Não é só papinho umbilical.
Camus participou da resistência ao invasor nazista. Esteve no Partido Comunista Francês. Mas caiu fora rapidamente. Não suportava hipocrisia nem autoritarismo. Faltava-lhe estômago para a patuscada ideológica. Camus levou o Nobel e foi buscar. Era espetacular para o filho de uma lavadeira criado num bairro operário de Argel. Sartre precisava ser mais original e, nesse quesito, deu uma volta no amigo-inimigo: ganhou também, mas recusou. Um sensacional golpe de markerting. Cada um com o seu estilo. Camus morreu num acidente de carro. Tinha passagem de trem no bolso para voltar a Paris em companhia de René Char. O editor Michel Gallimard insistiu para que deixassem o trem de lado e fossem com ele de carro. Char recusou. Camus aceitou. A Facel-Véga achou uma árvore no caminho. Camus morreu na hora: 13h55.
Lúcido como uma navalha, Camus atravessou a vida mostrando o absurdo da vida e denunciado a covardia humana. Volta e meia, dava uma punhalada como esta: “Vou-lhe dizer um grande segredo, meu caro. Não espere o juízo final. Ele realiza-se todos os dias”. A vida de Camus lembra em alguns aspectos a de Lula. Enfrentaram dificuldades econômicas semelhantes. Camus, como Lula, esteve na iminência de parar de estudar. Precisava trabalhar para ajudar a família. Os dados acabaram lançados para ele de outra maneira. Ambos, porém, saíram do nada para o planalto. A política tentou o escritor de outro modo. No fundo, viveu para escrever sobre ela.