Juremir Machado da Silva

A abolição na imprensa

 Sou um cara feliz. Faço o que gosto. Publico livros. Cada novo livro me parece o mais importante de todos. Neste ano, emplaquei dois sonhos: “Diferença e repetição – o que é o imaginário” (Sulina) e agora “Raízes do conservadorismo brasileiro – a abolição na imprensa e no imaginário social” (Civilização Brasileira). Tenho orgulho das editoras pelas quais já publiquei. Nos últimos anos, tenho trabalhado muito com a Sulina, a L&PM (“O pensamento do fim do século”, “História regional da infâmia”, “Jango”, “A orquídea e o serial-killer”) e a Record (“Getúlio”, “Aprender a (vi)ver), “Solo”, “1930”
e “Um escritor no fim do mundo”). A Civilização Brasileira, uma das mais tradicionais editoras do país, criada em 1932, é um hoje um selo do Grupo Editorial Record, do Rio de Janeiro.



Confesso que me emociono por fazer parte desse jogo.

“Raízes do conservadorismo brasileiro” era para se chamar originalmente “Segunda-feira, 14 de maio de 1888, a abolição na imprensa e no imaginário social”. Evolui para “1888, o ano esquecido”. Finalmente chegou na fórmula definitiva. Esses títulos não aproveitados condensam, porém, os temas tratados. Como amanheceu o Brasil na segunda-feira, 14 de maio de 1888, o dia seguinte à abolição da escravatura, a sua mais infame e secular instituição? O que disseram os jornais que saíram naquela data? Como se festejou a grande conquista? Como se chegou a ela numa luta que se deu em três frentes: as ruas, o parlamento e os jornais? O que se perdeu com o tempo da narrativa candente dessa guerra travada por todos os meios e verbos?

Passei cinco anos trabalhando na investigação e na redação dessa obra. É o resultado de uma pesquisa apoiada pelo CNPq. Foi preciso debulhar os jornais da época, os documentos da Câmara dos Deputados e do Senado e a vasta bibliografia disponível. Esse mergulho no passado permite identificar as origens do conservadorismo do presente. Jamais esquecerei o choque que me causou a leitura da frase do senador Paulino de Sousa, cafeicultor escravista do Rio de Janeiro, já se considerando batido e tendo de reconhecer a Lei Áurea: “Essa lei é inconstitucional, antieconômica e desumana”. Não parei mais de me interessar pelo assunto, de buscar novas fontes, de querer saber.

Meu livro é dedicado aos negros africanos e aos seus descendentes que construíram e constroem a riqueza do Brasil. Tenho procurado identificar em mim quando começou esse interesse pelos negros e depois pela história dos africanos no Brasil. Vejo três momentos: em Palomas, jogando futebol com Nei, Dineco e Maninho. Em Livramento, com meus amigos do Beco da Rivadávia, todos negros. Em Porto Alegre, sob a influência de meu amigo, grande historiador, o inesquecível Décio Freitas. Não pretendo assumir um protagonismo que não me cabe. Gosto de pesquisar e de escrever. Junto minhas ferramentas de historiador, sociólogo, jornalista e escritor para narrar o que apuro. Para mim, 1888 é mais importante do que 1822 e 1889. De certo modo, a república é uma consequência da abolição.

A abolição foi acima de tudo uma obra dos negros. Os grandes mentores da luta foram negros: José do Patrocínio, André Rebouças e Luís Gama. Na linguagem da época, hoje considerada preconceituosa, mulatos. Contaram com o apoio de brancos como Rui Barbosa e Joaquim Nabuco. Criaram jornais para disseminar o que sentiam, pensavam e queriam. A luta pela abolição foi travada nas fazendas, nos matos, nas praças, nas ruas, nos teatros e nas intermináveis sessões do parlamento. A abolição não foi um presente da coroa nem uma concessão de brancos progressistas. Tampouco o mero resultado da evolução do capitalismo e da pressão da Inglaterra. Fenômeno complexo, alimentou-se de avanços e recuos, inflamando os principais interessados. Talvez em nenhum outro momento o Brasil tenha tido uma imprensa tão engajada.

Aprendi tanto que jamais serei capaz de resumir o que conto em meu livro de quase 500 páginas. Forçando a barra eu poderia dizer que já posso morrer tranquilo. Independentemente da repercussão posso assegurar que me sinto realizado. Olho para meu livro e me digo:

– Eu fiz isso. Nem posso crer!

A abolição não trouxe prontamente a felicidade para os ex-escravos, que foram jogados às margens da sociedade da época. Um paradoxo é que a abolição chegou num momento de ascensão do racismo. Os discursos para sustentar a vinda de imigrantes brancos para substituir o braço negro foram baseados numa suposta superioridade racial dos europeus sobre os africanos. Em paralelo com a abolição cresceu a criminalização dos negros como perigosos, vagabundos e bandidos. Em vez de criar mecanismos para incorporar os ex-cativos, tratava-se de discutir leis para submetê-los e desqualifica-los. Os proprietários tentariam ser indenizados. Jamais admitiram que tinham uma dívida secular com aqueles que lhes sustentaram até 1888. Essa é uma história que nunca deixará de me espantar. Dei o melhor de mim.