Juremir Machado da Silva

A amante de Brecht

Bertold Brecht tinha uma amante.
Isso não vai espantar ninguém. Na verdade, o dramaturgo teve muitas amantes. Normal. Um artista revolucionário, na sua época, não podia viver sem amantes. Fazia parte do seu papel. Brecht comportava-se naturalmente com a amante. Ela era polivalente. No palco, podia ser Antígona. Na cama, o que ele quisesse, embora sem muito entusiasmo. Não tinha viagra, Brecht usava um cabo de escova e dava-se por satisfeito. Mas a moça em questão, segundo o romance de Jacques-Pierre Amette, “A amante de Brecht”, era uma espiã a serviço da polícia política da Alemanha Oriental.
Depois de experimentar o exílio na Califórnia, Brecht resolvera desfrutar o socialismo nascente em Berlim. O homem era chegado numa tragédia cotidiana. O mestre andava sempre com o seu séqüito. A amante de Brecht era linda e infeliz. Aprendeu a delatar e gostou. Nunca se deve confiar totalmente em intelectuais e em políticos. Menos ainda em mulheres lindas com olheiras. São quase todos egocêntricos e capazes de tudo pelo poder e pela glória. Brecht era bastante escroto. Nada que superasse Sartre ou Lacan. Tampouco que pudesse impressionar Mao ou Stalin. Era um gênio.
E os gênios podem tudo. Brecht espiava a sua amante. Ela o espionava. Era um jogo de aparências.
Quando ele a “possuía”, ela se sentia “revistada”. Muito erótico.
A Alemanha Oriental admirava Brecht. Mas não confiava nele. Com razão. Brecht não era confiável. Tinha vivido 15 anos nos Estados Unidos e não ia engolir em seco o provincianismo e o autoritarismo dos camaradas. Na Guerra Fria, todo mundo espionava todo mundo. Os Estados Unidos também haviam controlado a vida de Brecht. No Brasil de hoje a espionagem também anda solta. Como numa peça de teatro, os mais antigos sentimentos levantam o pano e revelam a sordidez do poder. É sempre a mesma história. O ressentimento, a inveja, o ciúme, o despeito, o orgulho ferido, o desamparo e a atração pelos holofotes fazem com que os coadjuvantes virem protagonistas.
Escrevi isso faz alguns anos. Não me lembro em que contexto.
Continua válido.
O nazista preso com 97 anos de idade não se sentia espionado.
Nem lia Brecht.
Que coisa!