Juremir Machado da Silva

A arte milionária

Retrato duplo

 

      No futuro, modestamente, serei considerado um novo Einstein por duas contribuições à humanidade ainda não compreendidas: a frase “se o homem existe, por que Deus não existiria?” e a fórmula do sucesso: S = ddn, sendo “s” sucesso, “d” diferença e “d” descobrimento. Maior é o sucesso quanto maior for a capacidade de uma obra de produzir diferença e descobrimento (fazer ver o encoberto). A diferença pode estar na forma, no conteúdo ou no ponto de vista. O descobrimento ilumina, desvela, revela, faz ver.

David Hockney é um pintor britânico. Ele tem 81 anos de idade. O seu quadro Portrait of an Artist (Pool with two figures) foi vendido na semana passada por 90,3 milhões de dólares. A operação suscita várias questões existenciais: quem tem tanto dinheiro para pagar essa fortuna por um quadro? O que o quadro mostra para valer uma grana desses? Como se faz para ganhar tanto dinheiro assim a ponto de poder comprar um quadro por esse valor estratosférico? As respostas são difíceis ou impossíveis. Muito já se filosofou sobre o gosto. Perguntas incríveis foram feitas: o que é a arte? O que é o belo? O que é arte? O que é belo? Um artigo muda tudo.

Arte é o que especialistas dizem que é. Belo é o que agrada as pessoas. Bom, belo e sublime são o que funciona como tal. Aquilo que convence. O vanguardista Guy Debord ensinou: “O espetáculo não diz nada além de o que é bom aparece, o que aparece é bom”. A arte não diz nada além de sublime ou artístico é o que é visto como tal. Bom é o que funciona, aquilo de que o observador gosta. O quadro de Hockney tem algo de fotografia. O artista aparece vestido com um casaco avermelhado na beira de uma piscina contemplando seu duplo de sunga branca na água azul. No entorno, uma verdejante paisagem montanhosa. Pintores têm manias, motivos recorrentes, obsessões. Hockney adora piscinas e retratos duplos.

Convido o leitor a aplicar a fórmula do sucesso ao quadro de David Hockney. Que diferença ele produz? Nunca ninguém havia pintado retratos duplos em piscinas com entorno montanhoso verdejante. O que ele descobre? Deixo essa resposta em aberto. Não quero tirar o prazer da conclusão. A falta de um método como o sugerido por mim leva jornais a apostarem em hipóteses vulgares: “Especialistas apontam que o recorde de Hockney e outras vendas que foram realizadas nesta semana de leilões, a mais importante do ano, indicam que o mercado está inclinado por peças de artistas vivos em uma reação frente aos preços exagerados de obras clássicas”. Não pode ser tão simples assim. O mercado precisa de critérios e indicadores. Não compra gato por lebre. Define o que os diferencia.

Obras de arte podem ser exibidas em condições adequadas de temperatura e vigilância. Joias valiosas costumam passar a maior parte do tempo em cofres. O que esse encobrimento descobre? Certamente algo sobre a enigmática condição humana que precisa ser estudado. Enquanto o quadro de David Hockney era vendido, 12 mil migrantes chegavam à fronteira mexicana com os Estados Unidos. Qual a relação entre esses dois fatos? Nenhuma.

Como seria um retrato duplo de Jair Bolsonaro se contemplando nas águas de uma piscina?

O que ele veria?