Juremir Machado da Silva

A bolha do Mississipi e o capitalismo

Este texto poderia ter como título “A bolha do Mississipi”, “Inglaterra traficante”, “escravidão na bolsa de valores” ou “Grécia saqueada outra vez”. Quem matou mais? O capitalismo ou o comunismo? Depende de como se faz a conta. As morte do nazi-fascismo devem ser colocadas na conta de quem? As da escravidão negra entram na conta do capitalismo. Yuval Noah Harari, em “Sapiens, uma breve história da humanidade” (L&PM), mostra vários capítulos infames do capitalismo. A “bolha do Mississipi” é um deles. A Companhia do Mississipi, dirigida por John Law, presidente do Banco Central da França e controlador-geral das Finanças do rei Luís XV, vendeu ações na Bolsa de Paris para colonizar o vale do baixo Mississipi. Bom marqueteiro, Law espalhou boatos de que a região escondia riquezas fabulosas. As ações dispararam. Muita gente vendeu tudo o que tinha para entrar no jogo.

As riquezas do Mississipi eram só crocodilos. As ações despencaram. John Law fez o Banco Central da França comprar ações da Companhia do Mississipi para estabilizar a situação. Não adiantou. O Bando central e o Tesouro Real atolaram-se. Os especuladores venderam suas ações podres a tempo. Os cofres públicos pagaram a conta. Luís XVI herdou a França atolada pagando os juros da bolha. Chamou os Estados Gerais. Veio a revolução de 1789. Quantas bolhas vieram depois? A Inglaterra vendia ópio para a China. Grandes fortunas britânicas surgiram assim. A China proibiu o consumo. Os cartéis britânicos da droga, tendo acionistas entre os deputados, obrigaram o governo a adotar medidas. Harari observa: “Em 1840, a Grã-Bretanha declarou guerra à China em nome do ‘livre comércio’ (...) Segundo o tratado de paz que se seguiu, a China concordou em não restringir as atividades dos comerciantes de drogas britânicos e em compensá-los pelos danos causados pela polícia chinesa”. Como indenização, a Inglaterra ganhou o controle de Hong Kong e 40 milhões de viciados.

O Egito também entrou na dança. O capitalismo britânico ofereceu-lhe empréstimos para atividades arriscadas que deram com os burros na água. Ficou a dívida impagável. A rainha Vitória mandou seu exército cobrar a conta. O Egito virou protetorado britânico. Não é lindo? A Grécia rebelou-se contra os turcos. Os ingleses lançaram os Títulos da Rebelião Grega. Os gregos pagariam depois da vitória. Estavam perdendo. A Inglaterra mandou seus navios atacarem os turcos para defender seus acionistas. A Grécia conquistou a liberdade e uma dívida impagável com os britânicos. Não existe emancipação grátis. Esse texto poderia se chamar também “ética belga do capitalismo”. O rei Leopoldo II, da Bélgica, fundou uma ONG para combater o tráfico de escravos ao longo do rio Congo. A boa ideia transformou-se noutra melhor ainda para o colonialismo abutre: a exploração da borracha.

Os aldeães eram obrigados a entregar cotas de borracha. Os “preguiçosos” que não atingiam as metas tinham os braços cortados. Entre seis e dez milhões de trabalhadores morreram nesse trabalho inglório, 20% da população do Congo. O capitalismo comerciante de escravos, com ações em bolsa, fica para um capítulo exclusivo.

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Costumes impositivos

 

Tudo passa. Nada fica. A moda masculina da época do rei Sol seria hoje considerada muito feminina. Luís XIV usava peruca, meia-calça e salto alto. Tinha pose de bailarina. Era macho. Em 1913, falar em voto para as mulheres, nos Estados Unidos, era uma ideia maluca de gente ignorante. Até pouco tempo, propor que uma negra fosse juíza era uma ofensa aos brancos. Vivemos uma eterna luta contra os nossos preconceitos apresentados como naturais. É tudo estratégia de dominação surgida conscientemente ou por acidente. O professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, Yuval Noah Harari, observa: “Os sapiens dividem a humanidade instintivamente em duas partes, nós e eles”. Um homo sapiens não vive sem ideias burras.

O passado legitima o presente? Nem sempre. Harari mete o dedo em cumbuca: “É verdade que os judeus, os armênios e os georgianos de hoje afirmam, com certa dose de justiça, que são descendentes dos antigos povos do Oriente Médio. Mas essas são apenas exceções que provam a regra, e mesmos tais afirmações são um tanto quanto exageradas. Não é preciso dizer que as práticas políticas, econômicas e sociais dos judeus modernos, por exemplo, devem muito mais aos impérios sob os quais eles viveram nos últimos dois milênios do que às tradições do antigo reino de Judá. Se o rei Davi aparecesse em uma sinagoga ultra-ortodoxa nos dias de hoje, ficaria perplexo ao encontrar pessoas vestindo roupas do leste europeu, falando em dialeto germânico (iídiche) e tendo discussões infinitas sobre o significado de um texto babilônico (talmude). Não havia sinagogas, volumes do Talmude nem rolos da Torá na antiga Judá”. Ô, louco!

O mito da origem pura e autêntica é uma ficção. Tudo se mistura, copia, altera e incorpora. O “nós” se mescla com “eles”. O problema é que desejamos ser diferentes. A diferença dá poder se for tratada como hierarquia. A escala social precisa de justificativas. Existem as justificativas sagradas e as “naturais”. A justificativa naturalmente sagrada do capitalismo é a meritocracia. O talento, porém, é algo que se tem ou não. Qual o mérito? O dom que faz bem à sociedade precisa ser recompensado. Qual o tamanho justo da recompensa? Os ingleses enviaram James Cook à Austrália porque queriam aproveitar a passagem de Vênus entre o Sol e a Terra para medir a distância entre Sol e Terra. De quebra, conquistaram o pedaço, catalogaram tudo, “civilizaram” a área e extinguiram povos.

Colombo morreu sem saber que tinha descoberto a América. O saber liberta e massacra. Um índio teria pedido a um astronauta para levar um recado aos espírito sagrados habitantes da lua. A mensagem, na língua nativa, só seria decifrada pelos destinatários. A NASA conseguiu um tradutor: “Não acredite em uma única palavra do que essas pessoas estão lhe dizendo. Elas vieram roubar suas terras”. A acumulação primitiva do capital nunca passa no texto do Omo total. Moral da história? Toda hierarquia social se apresenta como natural ou sagrada, mas é apenas uma ficção histórica construída por interessados e com validade limitada. Desconfie de libertadores.