Fazendo bossa
Eu pretendia escrever sobre a calcinha da Câmara dos Deputados, o verdadeiro grande escândalo da República.
Mas não posso.
Não quero ferir a sensibilidade da extrema-direita que frequenta este blog colando textos copiados dos lacerdinhas da Veja, que babam besteirol e conservadorismo ruminante, como se fossem manifestos originais que escapassem ao meu olho de lince.
Tem gente denunciando ainda uma ameaça comunista.
Se vacilar, dão um novo golpe de Estado.
Tudo, como sempre, para combater o comunismo (esquerdismo) e a corrupção.
Velho lero-lero de 1964.
A calcinha é que o problema moral para a direita imoral que adora bancar a moralista quando não é protagonista do crime.
Não posso escrever agora.
Pois estou correndo para uma viagem.
Na volta, na volta...
Por enquanto, fica o que escrevi na minha coluna de hoje no Correio do Povo.
Foi assim: chegamos correndo ao Teatro do Sesi, que fica na zona rural de Porto Alegre, para o show de Toquinho e João Bosco. Algo estranho havia acabado de acontecer. O Internacional, depois de entrar com três volantes contra o Flamengo e de estar levando três na cola vermelha, sinalizando um vexame inesquecível, mudou de atitude, reagiu e empatou o jogo, transformando o mico em quase épico e mostrando que certos treinadores nunca aprendem. Daí a lei do épico: começa sempre com um barraco ou com um quase orangotango. Encontramos nossos lugares na sala lotada. Esperamos alguns minutos, pois, segundo um amigo carioca, começar na hora é cafona. Aí veio aquela musicalidade estonteante de Toquinho e João.
Como num show que se respeite e respeite o gosto da plateia, eles capricharam nas “velhas”. Praticamente ninguém sai de casa para ouvir música nova em show. Como algumas bolhas de espumante ainda circulavam no meu imaginário, fiquei nostálgico. Em seguida, apavorado. Comecei a imaginar um mundo sem crônica nem poesia. Seria, obviamente, horrível. Tão horrível quanto sentir vontade de tossir durante a interpretação de “Eu sei que vou te amar”. Aliás, Toquinho contou uma bela anedota sobre essa poesia musicada. Vinicius de Morais, com seus nove casamentos, devia ser o último dos poetas a cantar o amor eterno. Perdi um pouco a concentração enquanto ele contava a história por causa da minha preocupação com o futuro da poesia e da crônica. Acontece que o público quer, cada vez mais, duas coisas: entretenimento fácil ou a verdade útil. A crônica é um entretenimento que, vez ou outra, esconde coisas nas entrelinhas e busca uma verdade inútil: o sentido da vida cotidiana, do belo e do gozo.
Adoramos o espetáculo. João e Toquinho têm a bossa nova da velha guarda. Mesmo assim, saí de lá com uma sensação esquisita, como se tivesse acontecido algo fora do normal, depois de tantas situações esperadas, como a tradicional homenagem dos artistas a João Gilberto, o pai de todos, o revolucionário, o gênio difícil, o homem que reinventou a música brasileira e foi para casa fazer sabe-se lá o quê trancando no banheiro sem dar a menor bola para o vil metal. Como diriam os franceses, “une soirée réussie”. Digo assim, em francês, só para fazer bossa. Quem, o que me parece improvável, não decifrar, peça socorro ao tradutor do google. A melhor maneira de estragar uma noite de sábado é ficar em casa e, num vacilo, ligar a televisão. O problema é que eu não conseguia saber o que me incomodava. Dormi angustiado.
Acordei de madrugada com uma frase cintilando na cabeça: “Como diz o Faustão...” Por que esse pesadelo? De onde me vinha essa citação incongruente? Como eu podia pensar em Faustão depois de ter ouvido Toquinho e João Bosco cheios de sofisticação, charme e bom gosto? Foi aí que, num relâmpago, tudo se esclareceu. Durante o show, inexplicavelmente, o simpático e falante Toquinho deixara escapar um “como diz Faustão”. Ainda bem que o meu cérebro não acusou a frase no momento em que ela foi dita. Teria estragado a “soirée”. Ir ao Teatro do Sesi, quase do outro lado do mundo, para ouvir Toquinho citar Faustão, teria tirado parte do brilho da elegante noite.