A Carta e o Solo
Michel Houellebecq é um escritor feliz. Publica na França. Os franceses aceitam provocações. Reagem frontalmente. Topam a polêmica. Vão para a briga. O Brasil é mais ardiloso. Escolhe, com frequência, silenciar. A mídia francesa adora conflitos e serial-killers. Atira para matar. Mas não recusa dos duelos, especialmente quando são ídolos estão sob a mira de um francoatirador. Em 2007, fiz uma viagem com Houellebecq à Patagônia. Falamos muito dessas diferenças de estilo. Escrevi um livro sobre nossa viagem. Pretendo publicá-lo em 2011. Em 2008, publiquei “Solo”, um romance altamente provocativo e irônico, que toma a mídia e as artes brasileiras como alvo. A imprensa nacional silenciou totalmente. Estratégia fatal. Morte por asfixia. Nocaute.
Houellebecq esperou um pouco mais. Participou de um livro polêmico junto com Bernard-Henri Lévy, “Inimigos públicos”. Sofreu com um processo lento de divórcio. Finalmente, precisando respirar, escreveu e lançou “A carta e o território”, romance que toma a mídia e as artes francesas como alvo. A polêmica já está na rua. Não, não estou dizendo que Michel me copiou ou se inspirou na minha ideia. Estamos em sintonia. Temos uma mesma visão de projeto estético. Exploramos os mesmos abismos. Cada um tem a mídia que a merece. A francesa é mais ingênua talvez, embora mais útil para todos. A brasileira é mais eficaz, o que resultado em mais tédio e compadrismo. A mídia francesa vibra com os golpes que recebe e tenta devolvê-los. Aceita tudo menos o marasmo.
Existe algo que se pode se chamar de efeito de centralidade ou disseminação vertical, o que pode ser resumido com uma expresso original: santo de casa não faz milagre. Aquilo que vem “de cima” ou do “centro” encontra acolhida ainda melhor nos lugares periféricos. A ironia de Houellebecq vai abrindo espaço por aqui, desde que o introduzi no Brasil, em 1999, com “Partículas elementares”. O tempo passa. A arte fica. “A carta e o território” é “Solo” em francês. A potência irônica é a mesma. A autoironia é equivalente. A maldição pessoal como escolha está no centro da narrativa. Estou louco? Entrei em novo surto? Crise de megalomania? Serenas constatações. Um escritor inovador precisa inventar o seu público e o padrão de interpretação dos seus textos. Ou ter a sorte de contar com uma imprensa reativa, uma mídia que prefira matar a pedradas do que por inanição.
A polêmica morreu no Brasil. Jornalistas saqueiam o trabalho dos historiadores e decolam como escritores. Tudo se resume a contar a mesma história simplificando a linguagem. Ou, na literatura premiada, a não contar história alguma obscurecendo a linguagem. Começo a pensar seriamente em escrever meus romances diretamente em francês. Preciso de contendores. Sou um boxeador em busca de um “sparring”. Por enquanto, estou levando uma surra silenciosa. “Solo” enfrenta a incompreensão absoluta. Dorme à espera da sua ressurreição. Enquanto o Brasil não reinventar a polêmica, nosso maior prêmio será um cágado.