A chave para entender o misterioso caso Ronaldinho: último capítulo
Final de novela
Sim, a vida imita a arte. Quer dizer, nos tempos atuais, imita as novelas de televisão, que imitam a vida. Não tocarei flauta. Tentarei compreender. Três novelas chamaram a atenção nos últimos dias: “Ribeirão do tempo”, “Passione” e a “Novela do Ronaldinho Gaúcho”, com R10 no papel de a desejada e meia dúzia de clubes lutando pelo seu “sim”. O Grêmio era o pretendente que se considerava prioritário, o primeiro namorado, uma paixão mal-resolvida. Falava de amor. Não entendeu que R10 e Assis Moreira, seu irmão e empresário, tratavam de negócios. Faz sentido. Está na fala do presidente Paulo Odone ao confirmar em tom pesaroso que o Grêmio ficava fora do negócio: “Pensávamos em alguém que viria para se redimir”. Mas “ele fez um leilão”. Não era de ninguém.
O grande escritor argentino Jorge Luís Borges, num dos seus contos mais famosos, “O sul”, diz que “a realidade gosta de simetrias e de suaves anacronismos”. O Grêmio estava disposto a pagar mundos e fundos para ter Ronaldinho, desde que não tivesse de pagar um centavo ao Milan. Pagava a Ronaldinho o valor da multa rescisória com o Milan, mas o jogador é que deveria pagar o clube italiano. Por quê? Porque o Grêmio queria estabelecer uma simetria redentora com o passado. Quando Ronaldinho se foi, o Grêmio nada recebeu do clube que o levou pagando-lhe uma fortuna. A dor nunca se apagou. O Grêmio sonhava em lavar sua honra, eliminar a cicatriz, fazer o mesmo. Precisava que Ronaldinho voltasse de graça, sem pagar um centavo diretamente ao clube dele, entregando ao jogador uma fortuna. Assim presente e passado se encontrariam.
Não foi por avareza que o Grêmio não quis pagar o Milan. Foi por amor a Ronaldinho e a si mesmo. O problema é que apareceu o Flamengo para pagar o que Grêmio daria a Ronaldinho e mais o Milan. O Grêmio queria poder dizer ao final de tudo uma única coisa: “Ronaldinho foi embora de graça e voltou de graça”. Era o acerto de contas. O fecho de ouro para o folhetim. As novelas são complicadas. O tempo é um ribeirão sem fim, que, às vezes, não apaga a “passione” que nos devora. O Grêmio agiu com o coração. Comparando com novelas, Ronaldinho é uma Clara: fez o Grêmio de Totó. Há, porém, uma diferença: Totó se fingiu de morto, mas não tomou o segundo drible. Entendo o Grêmio. Como canta o genial Chico Buarque, o amor não é um ócio, o amor não é um vicio, o amor é um bom negocio.
Novela é imagem. Jean Baudrillard escreveu que a mais importante imagem antropológica do século XX seria a de um homem, num dia de greve, contemplando a tela vazia da sua televisão, o chuvisco. Para mim, a imagem mais terrível do século XXI, logo depois da imagem do segundo avião entrando na torre em Nova York, era a do goleiro Kidiaba comemorando os gols do Mazembe contra o Inter. Na sociedade do espetáculo, imagem mata imagem. Uma imagem mais atordoante veio se impor: a dos funcionários do Grêmio retirando as caixas de som para o show da redenção que não aconteceu. Confesso que senti, como em todo final de novela, vontade chorar. O “vilão” terá final feliz. Nunca vi nada mais triste. Minhas sinceras condolências. Quem sabe pinta uma reviravolta nos próximos capítulos.