Juremir Machado da Silva

A estética do quase

A estética do quase

Respeito meus leitores.
Gosto de conversar sobre visões de mundo.
E de estética.
A literatura é um jogo.
Tem regras.
Essas regras são mais respeitadas em alguns lugares.
E mais flexíveis em outros.
O Brasil é conservador na regra do jogo.
Aposta na tríade convencional do romance: unidade, ficção e psicologia dos personagens.
A unidade é uma ilusão moderna.
A ficção é uma possibilidade entre outras.
A psicologia dos personagens pode ser feita com um fragmento.
Eu enfrento a regra do jogo.
Talvez por falta de talento para praticá-la.
Talvez por não gostar dela.
Talvez não goste por não saber fazer.
Talvez não faça por querer mais.
Pratico o quase.
Quase romance.
Quase história.
Quase crônica.
Quase ensaio.
Vivo na interface.
Na zona de sombras.
Na fronteira.
A regra do jogo é uma forma na mente do escritor.
E do crítico.
Sempre que publicou um livro, a crítica escolar grita:
"Falta unidade".
"Falta ficção".
"Há realidade demais".
Ou contraditoriamente:
Há explicação demais.
Ou:
Falta explicação.
A crítica é um exército de carimbadores malucos.
Voltamos à Idade Média.
A tradição vale mais do que a inovação.
No caso, a tradição da modernidade.
Sei que esse papo é esotérico.
Conversa de seita.
Quem se interessa por isso?
Para que serve a crítica?
Serve como fator de legitimação.
Não ajuda a vender livros,
Ajuda a formar reputações.
E a ganhar prêmios.
É por isso que me orgulho de ser maldito.
Sou do quase.
Da fragmentação.
Das vidas em paralelo.
Da falta de unidade.
Do excesso e da falta de explicação.
Estou convencido de que tenho razão.
É o meu projeto estético.
O futuro dirá.
Em 3023 serei um clássico.
Ou um quase clássico.