Juremir Machado da Silva

A gauchice em questão: o 20 de Setembro ao rés-do-chão (1)

A gauchice em questão: o 20 de Setembro ao rés-do-chão (1)

Não sou o único a andar desconstruindo mitos por estes pagos. A historiadora DANIELA VALLANDRO DE CARVALHO prepara tese que enfrenta alguns dos mitos da Revolução Farroupilha. Nas universidades, a busca da verdade anda na frente da adulação midiática. Abaixo, um artigo dela:


A gauchice em questão: o 20 de Setembro ao rés-do-chão

“De tarde en tarde en el sur,
me mira un rostro moreno,
trabajado por los años,
y a la vez triste y sereno.
A qué cielo de tambores
y siestas largas
se an ido?
Se los ha llevado el tiempo,
el tiempo que es el olvido”.
Milonga de los Morenos (Jorge Luis Borges)

A notícia da recente reedição no Brasil, do livro “Facundo” de Domingos Faustino Sarmiento pela Editora Cosac Naif me fez pensar sobre uma importante questão que ao menos uma vez por ano atormenta alguns gaúchos: quem somos? Refiro-me temporalmente à Semana Farroupilha ou ainda, para muitos, o mês do gaúcho, com comemoração que se espraiam por todos os rincões do florido (e por hora, chuvoso) setembro sulino. Se Sarmiento e sua obra marcam o início da construção da identidade de nossos hermanos argentinos, solidificando na memória platina um modelo de desenvolvimento ancorado na dicotomia civilização x barbárie e um estereótipo social dos homens habitantes às margens do Rio da Prata, a identidade gaúcha, em um paradoxo conjuntural, por vezes tão próxima e por vezes tão distante da linha divisória, tem também seus marcos.
Não poucos foram os escritores, de literatos a poetas, de contistas a historiadores que tergiversaram sobre a busca da identidade gaúcha em suas obras. Desnecessário enumerá-los pela amplitude que tal temática tem para o universo cultural-intelectual gaúcho. Mas se há uma vasta gama de obras que possuem a identidade gaúcha como fulcro principal, parece que um consenso há sobre sua gênese ou mitologia de origem: a Revolução Farroupilha. Discussão à parte já daria a tentativa de compreensão de um povo que se identifica, comemora e se orgulha, via de regra, com uma revolta perdida; mas o que queremos refletir aqui é sobre quem foram os gaúchos que pelearam por dez gloriosos e belicosos anos.
Se sabemos, grosso modo, que a guerra farrapa foi motivada por questões político-econômicas latentes e mal resolvidas por suas elites desde o período da Independência e que a velha (para nós historiadores) discussão do localismo versus centralismo se fazia presente naquela demanda, em uma jovem nação regida por um imperador-menino e sufocada por inúmeras outras revoltas império afora, pouco sabemos sobre a composição social daqueles que efetivamente lutaram.
Alguns importantes estudos que visam repensar a independência brasileira têm dado conta de mostrar a presença e participação, por vezes fundamental, das classes populares nas disputas políticas tangente àquele momento histórico. Mais que isso, afirmam a existência de projetos políticos diversos, pertencentes a grupos tão heterogêneos quanto à sociedade brasileira de outrora (e quiçá, de hoje!), embora o que se impôs como vitorioso, ao fim e ao cabo, tenha sido o projeto conservador. No entanto, a participação destes grupos de alguma forma tem sido recuperada historicamente. O fato destes sujeitos não terem tido a devida visibilidade e preponderância política não justifica que continuemos a ignorá-los. Além disso, mais que participar, por vezes as idéias e intensa politização das classes populares nas décadas que se seguiram à independência amplificaram debates e acrescentaram elementos à questões como a identidade que ser forjava na jovem nação e o tipo de liberalismo vigente em uma sociedade profundamente escravocrata. Elementos estes, comumente pensados e tidos como fruto de uma imposição de um grupo político monolítico e vitorioso. No entanto, as discussões estavam nas ruas, circulando, sendo apropriadas, tanto pelas bocas dos lordes como por seus escravos, passando por pequenos comerciantes, artesãos, lavradores, quitandeiras, soldados.
O que esta discussão tem a ver com o 20 de setembro e a identidade gaúcha? Tudo. Se história oficial e nossas comemorações fazem questão de enfatizar o decênio glorioso como fruto de articulações de um grupo restrito de heróis, com interesses filantrópicos/humanistas (e anacrônicos!) - em prol do bem social, muitos outros olhares são possíveis sobre àquela “ímpia e injusta guerra”. A sociedade sulina afetada por dez longos e sangrentos anos não se fez apenas de mitos imortalizados em nossas comemorações. Um imenso e diverso contingente social esteve constantemente mobilizado, quer em milícias pessoais dos senhores da guerra, quer nos exércitos em litígio. Esse contigente tinha nome, cor, rosto, famílias, idéias, projetos e expectativas. Uma percentagem grande de escravos, ainda não materializada em números, esteve nos fronts da guerra por todos os confins da província. Experiências como essa, de escravos-soldados, não era uma novidade no Rio Grande de São Pedro. E os escravos sabiam disso. A guerra foi muito mais que um momento de disputas políticas entre e intra-elites, foi um momento crucial de oportunidades e politização para muitos escravos. Africanos e crioulos revezavam-se nos fronts de guerra. Sabemos que nas décadas de 1820, 1830 e 1840 a população escrava da província sulina manteve em torno de 25% do total de habitantes da Província. Sabemos também que praticamente todos os legalistas e rebeldes eram possuidores de escravos, com plantéis que variavam bastante, mas que indicavam o largo consenso em torno da escravidão. Sabemos que as tropas estavam inundadas de homens pretos e que estes foram os braços e os pés dos exércitos em disputa. Sabemos que o Governo Imperial, temeroso do impacto que o uso de escravos em armas pudesse acarretar na estrutura escravista sulina - visto a delicada relação de equilíbrio construída com os senhores escravistas, onde a propriedade privada era elemento central - ao findar a guerra em 1845 decretou que os proprietários fossem indenizados em não mais que 400 mil réis pelo seus escravos cedidos à causa. Sabemos, por exemplo, que Bento Gonçalves, ao morrer, alguns anos depois do cessar fogo, possuía nada menos que 53 escravos.