A gauchice em questão: o 20 de Setembro ao rés-do-chão (2)
(continuação do artigo da historiador DANIELA VALLANDRO DE CARVALHO)
O que não sabemos é que além dos dois corpos de lanceiros negros que lutaram ao lado dos farroupilhas (importantíssimos na guerra, diga-se passagem) com cerca de 900 negros guerreiros, muito outros escravos pelearam e estiveram em momentos cruciais da guerra, em ambos os lados em luta. Como o crioulo Zeferino Martinho da Cunha, amigo e compadre de Antonio Vicente da Fontoura. Zeferino foi portador, não poucas vezes, de importantes documentos e correspondência trocadas entre farrapos e legalistas. Zeferino sabia ler e escrever. Era homem de confiança não só de Antonio Vicente, mas também gozava do respeito de muitos outros líderes, inclusive do Barão de Caxias. Circulava com desenvoltura entre oficiais farrapos. Emitia opiniões, que por vezes eram ouvidas!Sobre sua vida privada, sabemos que perdeu sua velha Maria de Salles em meio à guerra. Teve uma filha com ela, de nome Idalina, apadrinhada por Antonio Vicente e Clarinda. É lembrado nas memórias de Fontoura com intensidade e status semelhante ao de seus outros compadres. Esteve presente intensamente nos últimos meses de negociação da paz entre farrapos e legalistas, tendo inclusive viajado à Corte junto ao Comendador, para negociar a paz.
Ou ainda, a história do africano Salvador Braga, um dos lanceiros que sobreviveram ao massacre de Porongos e foi entregue em março de 1845 ao Barão de Caxias, junto a mais 89 escravos, para serem incorporados ao exército imperial. Salvador e seus malungos foram remetidos à Corte, como se previa. O que não sabemos é que Salvador Braga ficou por cerca de dois anos circulando por várias instituições do Império, entre fortalezas, depósitos e hospitais, sem ocupação certa, até fazerem deste ex-soldado negro, um servente de obras. E que Salvador, entre africanos livres e libertos presentes nestas instituições, os incitou, debateu com seus iguais suas situações, e insatisfeito com a vida que levavam, escreveu um abaixo-assinado (em abril de 1847) ao imperador, reivindicando um rumo para suas existências. Mais que isso, pediu a sua incorporação e dos seus ao exército imperial, já que até então isso não passara de uma rebuscada retórica presente no acordo de paz. Salvador disse mais; disse que muitos como eles já se faziam presentes no exército, como cabos e anspeçadas. Os anos de guerra o haviam politizado, a reparação estava sendo exigida e a cidadania posta em discussão, num império ainda majoritariamente escravista e que nem sequer havia abolido o tráfico atlântico.
Podemos ainda contar brevemente os passos de outro escravo, este com sobrenome bem mais famoso: Moisés de Souza Netto. Sua vida esteve por muito tempo invisível aos olhos mais atentos de pesquisadores pelo mesmo motivo que a tornou possível de ser desvendada: o fato de possuir um sobrenome, o que o igualava aos homens livres dos oitocentos. Moisés era filho do General Farroupilha com uma escrava. Por um tempo, o General Netto foi seu pai, seu senhor e seu superior, já que Moisés lutava sob seu comando. Mas não foi o nobre General quem lhe concedera a alforria. O soldado Moisés, em um dos tantos combates que participou, passou armado para o lado legalista, passando os últimos cinco anos da guerra lutando sob o comando de temível Francisco Pedro de Abreu, o conhecido Moringue. Ao findar a Guerra, Moisés requereu sua liberdade junto ao Barão de Caxias, que a mandou passar. Já liberto, Moisés trabalhou para Chico Pedro, sendo primeiro capataz de uma de suas fazendas, tendo depois, alçado ao posto de administrador da mesma. Foi nesta ocupação que morreu, em 1856, vitimado por uma facada de outro escravo do Barão do Jacuí, que estava sob suas ordens na fazenda de invernar gados, a quem conhecia por “Sr. Netto”. A mobilidade que sua vida alcançou e os rumos que tomou estiveram intrinsecamente ligados à conjuntura de guerra e as relações que ele soube hábil e competentemente tecer.
Poderíamos ainda falar dos escravos/soldados André, Francisco, Alexandre, Antonio, Paulo, Ignácio ou Miguel, todos prenhes de experiências e estratégias a serem escritas e contadas, mas os crioulos Zeferino e Moisés e o africano Salvador são aqui suficientes para retornamos a pergunta inicial: quem somos? Se nossa identidade sulina está calcada na longa e sangrenta guerra perdida que tanto idolatramos, se ela nos representa e fala de quem somos, é lícito que ela fale também de nossas misturas, de nossas cores, de nossa composição social e ponha nossa (s) identidade(s) em cheque. Falamos de identidades construídas certamente, mas fluidas e em constante re-elaboração. Falamos de identidades disputadas por grupos diversos, no entanto, para que a identidade gaúcha possa ser apropriada e posta em questão, devemos antes de tudo, reconhecer como legítimos os grupos que a disputam. Neste sentido, a história e a pesquisa estão inexoravelmente ligando passado e presente, tornando-se ferramenta a ser operacionalizada por estes grupos, na busca de cidadania.
Se em nosso panteão folclórico, inúmeras lendas são contadas, recontadas e algumas até ficcionalizadas, como a “do negrinho do pastoreio”, presente em recente filme baseado na obra de Tabajara Ruas, e se estas lendas guardam profunda relação com a memória oral de um povo, passíveis de descortinar a alma de um grupo social, agindo como um espelho a refletir determinadas imagens, porque continuamos a não querem enxergá-las? Como um narciso ao inverso, a resposta parece guardar relação com aquilo que gostaríamos de ter sido, com aquilo que inventamos que somos, e não com aquilo - e com aqueles - que de fato, deveriam nos representar.