Juremir Machado da Silva

A gota d’água secou

 Sábado passado (parece que faz um ano) fomos ver Gota d’água (a seco), com Laila Garin e Alejandro Claveau. O homem que deseja continuar fazendo parte da comunidade cultural deve sair sábado à noite. A saída, mesmo que tenha pizza antes ou depois do programa principal, deve obrigatoriamente incluir show, cinema ou teatro.

As conversas também precisam ser buriladas para que façam sentido. Os diálogos, depois da cultura e durante a pizza, não podem ser estes:

– E aí, gostou?

– Bom.

– Bom?

– Bom mesmo!

O teatro não lotou. Dá uma agonia ver tantos lugares vazios. Ainda mais quando o meio fica, ainda que lá atrás, com cara de boca desdentada. Aí eu já penso em Claude Lévi-Strauss, em tristes trópicos, Caetano Veloso e Platão. Como assim Platão? Não vem ao caso. Sou uma máquina de associações. O leitor merece explicação: Caetano canta que Lévi-Strauss detestou a baía da Guanabara, que lhe pareceu uma boca sem dentes. Um amigo meu, em Paris, quando se falava em Caetano, citava Platão. Para ele, eram dois grandes pensadores.

Tudo se encadeia. Não? O que anda fazendo esse pessoal da cultura que não vai em massa ver um espetáculo de primeira linha? Não sei. Há muito que desisti de saber. Quanto mais se sabe, mais se sofre. Agora sou um adepto da ignorância saudável. E do gergelim.

Laila brilhou no musical Elis. Canta demais. Vou até usar um clichê: é de arrepiar. Vou mostrar meu braço num vídeo. Comigo é assim: tem prova. Falta de prova é coisa de impeachment. Ou de golpe. Alejandro Claveau, sinto dizer, canta bem pouquinho. Não quero exagerar: bem pouquinho, neste caso, já é um baita superlativo. Nunca se deve ser tão indelicado. O moço é bonito, sarado e profissional. A voz dele é bonita. O problema é que se pensa em Chico Buarque, que nem é um cantor excepcional, mas tem seu jeitinho, seu charme. Na saída, os espectadores comentavam com certo espanto e comiseração:

– Ainda bem que era ela quem cantava.

Gota d’Água tem história. É a peça de Chico Buarque e Paulo Pontes, inspirada em texto de Oduvaldo Viana Filho, que, por sua vez, fora buscar material em Eurípedes e no mito grego de Medeia, a filha do rei Eetes, mulher de Jasão, que se tornou símbolo de megera e de louca desesperada de amor, tendo esquartejado um irmão e matado os filhos como vingança à infidelidade do marido (ah, esses homens!).

Em 1975, Gota d’Água foi censurada. Depois de alguns cortes, virou sucesso total. Tragédia grega em favela brasileira. Autoritarismo, violência, poder, dinheiro e injustiça social num cenário bem tropical. Composições maravilhosas de Chico Buarque. Era um tempo paradoxalmente interessante em que artistas recusavam prêmios em protesto aos desmandos da ditadura. Gota d’Água ganhou o Molière.

Os premiados ganharam mais não o aceitando. Fizeram bem.

O tempo passa (esse canalha que não para de nos envelhecer). Se eu pudesse, esquartejava o tempo e semeava os seus pedaços pelo caminho. Qual caminho? Qualquer um? O meu caminho. O tempo é o nosso inimigo. É ele que nos mata, enterra e esquece. Sem choro nem vela. O que sobrou de Gota d’água? Um texto verboso, melodramático, interminável e com algumas sacadas poéticas boiando na sopa. O espectador menos atento sai com a impressão de que os personagens têm nomes gregos para dar um verniz de erudição ao espetáculo. Fica também com a sensação de que tudo se arrasta numa enorme perda de tempo. Não seria mais interessante ir direto às interpretações de Laila Garin cantando Chico Buarque? A moça é uma intérprete maravilhosa. Bota alma na coisa.

Faz uma Cláudia Leite da vida pagar mico.

Fernando Peixoto, na época da estreia da primeira Gota d’água, escreveu que era “teatro nacional-popular”. Muito bonito. Resumiu assim: “O texto conserva a rígida estrutura clássica, mas não se submete passivamente aos elementos tradicionais desta estrutura: reinventa a cada instante, aprofundando inclusive a pesquisa por um teatro musical isento do peso de colonização cultural que sufoca o teatro brasileiro. Chico e Paulo conseguem não perder nunca o vigor do elemento trágico, fundamento do texto de Eurípedes. Mas, estudando a realidade brasileira de hoje, conseguem ainda engravidar o tema original de um conteúdo social vigoroso”. Que houve com a gravidez?

A análise de Peixoto cantava virtudes sufocadas: “O povo, ultimamente impedido de assumir seu espaço no palco brasileiro, é o protagonista desta tragédia moderna. Não um povo idealizado ou paternalizado, tratado de forma ingênua ou sentimental. É um povo real, vivo, dilacerado, contraditório, buscando no difícil cotidiano os possíveis códigos de ética, dominado por paixões violentas que o cegam ou definem suas esperanças”. Falando nisso, onde anda o povo brasileiro? Deve ter sido comprado pelo rico e poderoso Creonte.

– Bom mesmo!

– Bom?

– Boa mesmo, essa Laila Garin. Show!