Juremir Machado da Silva

A gota de água contra Dilma

Votei em Luciana Genro no primeiro turno. Jornalista também vota. Votarei nulo no segundo. Aécio e Dilma não me representam. Eu já havia publicado 13 razões para não se votar em Dilma. Na ocasião, cravei que votaria nulo. Tão nulo quanto eu mesmo. Uma notícia publicada no jornal O Globo veio confirmar minha decisão sapientíssima. É a décima-quarta razão, a razão definitiva, a gota d´água: “Em 10 anos, quase 13 milhões trocam ônibus pelo avião”.

Fiquei revoltado.

Como pode ser! Transformaram nossos aeroportos em rodoviárias. Deram a qualquer um o direito de voar. Inaceitável. Aeroportos eram espaços de distinção por onde não circulavam marmanjos de camiseta regata e onde habitantes de certas regiões só entravam para empurrar carrinhos. Acabou-se. Qualquer um pode se dar asas, tirar os pés do chão e sentar-se ao lado da elite branca nas nuvens. O horror! O horror! Não posso aceitar. Já não bastavam esses financiamentos absurdos, em dezenas de meses, coisa de pobre, compra à prestação, que permitiram à ralé comprar carros populares – esses veículos pequenos e sem charme – para entupir as ruas e obstruir o tráfego (não confundir com tráfico) dos carros de luxo!?

Já não bastavam esses pobres estudando, sem pagar, medicina, antes um curso de ricos, de bem-nascidos ou de gênios indicados pela seleção genética como exceções para confirmar a regra, em faculdades particulares e, pasmem, até mesmo nas universidades públicas, antes reservadas aos mais aquinhoados? Já não bastava a tal classe C  tomando contas de aprazíveis shopping centers? É o fim dos tempos, o apocalipse, o ocaso de um estilo de vida, a decadência de uma época, o crepúsculo de uma forma de estar no mundo. O triunfo do funk. O céu era o limite. Não é mais. De repente, qualquer um, a ralé, a plebe, a gentalha, seja lá o que for, tem acesso ao firmamento. Só faltam a tecnologia 4G e o Iphone 6. Votarei nulo. Não compactuarei com esse Estado de coisas. Dilma, não. Aécio tampouco.

Ele quer Armínio Fraga como ministro da Fazenda.

É quase um comunista.

Eu estava à beira do desespero por causa dessa notícia sobre o aumento dos passageiros aéreos. Fui salvo por um leitor. Segundo ele, isso nada tem a ver com delírios da esquerda radical. É só o resultado da competição entre empresas aéreas. Ah, bom! Ufa! Não votarei na Gol e na Tam para presidenta. O Brasil precisa botar os pés no chão novamente. Quando quase todos podem voar, o ar fica irrespirável. Quase culpei o PT por isso. Nada a ver. Só uma coincidência. Em todo caso, na margem de erro, aconselho a evitar Dilma. Pode ser que ela tenha, de algum modo, ajudado ou forçado o setor aéreo a reduzir seus preços. O petismo no poder pode até ter feito coisa muito pior irresponsavelmente: pode ter aumentado o poder aquisitivo do pobrerio. Não, isso já seria demais. É nulo. A obrigação de um jornalista isento é enxergar o mesmo número de pontos positivos e negativos em todos os candidatos mesmo que eles não existam ou sejam inverossímeis.

Aécio e Dilma para mim são iguais. PSDB e PT não passam de Pasadena versus Alstom, mensalão mineiro versus mensalão petista e por aí vai. Eis o que conta. O resto é perfumaria. Jornais como a Folha de S. Paulo permitem que seus colunistas declarem amor eterno a Aécio ou ódio permanente ao petismo como fazem Ferreira Gullar e Reinaldo Azevedo, mas derramar-se pela Dilma não pode. Os que querem escancarar apoio a Dilma precisam se demitir. Aprovo. A Folha, que apoiou a ditadura, que chama de ditabranda, sabe o que é bom para o país. Veja também. Que a ralé vote a andar de ônibus.

Cada um no seu quadrado.