Juremir Machado da Silva

A grandeza de Brizola

Político soube montar quando cavalo passou encilhado

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      História não é revisionismo nem negacionismo. Mas (des)construção e descoberta. Tirar o véu, trazer à tona, revelar, mudar o curso. Leonel Brizola foi um gigante. Não que ele tenha feito tudo sozinho e em tempo recorde. Ele soube, como poucos, montar quando o cavalo passou encilhado. Discute-se quantas escolas ele fez durante o seu governo no Rio Grande do Sul. O número varia. Foi enorme. A Legalidade foi ele. Jango assumiu a presidência graças ao movimento improvável comandado por seu cunhado das trincheiras do Palácio Piratini. Agora, numa bela dissertação de mestrado, na Universidade de Passo Fundo, Lauren dos Reis Bastos mostra que Brizola não tirou da cartola a encampação da Bond & Share em pouquíssimo tempo de governo. O processo esteve em andamento durante todo o mandato de Ildo Meneghetti e só não foi concluído por razões nacionais burocráticas.

      Quando a situação se apresentou, o governador Leonel Brizola não hesitou: completou o serviço. Carimbou a encampação. Não foi por um cruzeiro simbólico. Esse detalhe de natureza jurídica provisória prevaleceu como narrativa. Os norte-americanos, furiosos com o acontecido, cobraram de Meneghetti a grande perda? A direita da época pagou pelo desgaste? Durante a presidência de João Goulart muitas foram as reclamações contra Brizola. O presidente precisava acalmar os estrangeiros feridos nos seus brios. Seria o caso de transferir retrospectivamente parte do incômodo para os seus iniciadores? Brizola soube capitalizar política e ideologicamente um caso de má prestação de serviços. Se o seu opositor tivesse sido eleito, faria o mesmo?

      Historiador busca fatos. A análise do processo dessa encampação mítica revela o que ela teve de menos heroico, de mais prosaico e de continuação entre governos opostos. O analista de imaginários interpreta os acontecimentos à luz dos gestos, dos simbolismos, das apostas, das oportunidades, das consequências e das reações a eles. Para os que se sentiram lesados, Brizola foi o responsável pelas perdas e danos. A extrema direita odiaria Brizola por isso. Um dia, o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, enviou comunicado cristalino ao presidente John Kennedy: “Goulart está fomentando um perigoso movimento de esquerda, estimulando o nacionalismo. Duas companhias americanas, a ITT e a Amforp, foram recentemente desapropriadas pelo governador Leonel Brizola. Tais ações representam uma ameaça aos interesses econômicos dos Estados Unidos”. Assim.

      Não é improvável que a direita tenha achado interessante deixar a conta no colo do adversário. Se não levava os méritos, não pagava pelo imbróglio. Quem cobra o pênalti, mesmo que não o tenha sofrido, colhe o resultado do êxito ou do fracasso. Os americanos colaram em Brizola as encampações. A direita brasileira, de maneira geral, foi pelo mesmo caminho. Em linguagem popular, se pegou o trem andando, Brizola pagou o pato. Se ficou marcado por não ter hesitado, acrescentou um capítulo à sua biografia. Brizola sabia estar no lugar certo na hora certa. Isso fez dele para muitos o homem errado.